O novo plano climático do Banco Mundial está travado após a ofensiva dos Estados Unidos, principal acionista da instituição, que defendem o abandono da política atual quando ela expirar, em junho deste ano. As negociações ocorrem a portas fechadas entre acionistas e a administração do banco e, segundo relatos citados na cobertura original, estão paralisadas em meio à disputa sobre a continuidade das metas climáticas. De acordo com informações da Capital Reset, com base em informações do Climate Home News, o impasse ocorre em um momento de pressão internacional sobre o financiamento climático e de disputa sobre o papel da instituição no apoio a países em desenvolvimento.
O Banco Mundial é hoje o maior provedor de financiamento climático para países em desenvolvimento. Em 2025, a instituição destinou US$ 39 bilhões, o equivalente a R$ 195 bilhões, a iniciativas de redução de emissões e adaptação às mudanças climáticas. O valor representa quase o dobro dos US$ 21 bilhões registrados em 2021, quando um plano de ação climática passou a orientar as decisões de empréstimo do banco.
O que os Estados Unidos querem mudar no Banco Mundial?
A pressão partiu do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que defendeu publicamente o fim do atual foco climático da instituição. Na Reunião de Primavera do Banco Mundial, em Washington, na semana passada, ele afirmou:
“Saudamos a expiração iminente do Plano de Ação sobre Mudanças Climáticas e, após seu vencimento há muito esperado, esperamos que o banco mude imediatamente seu foco míope em relação ao clima”.
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Segundo o texto original, Bessent também defendeu que a instituição volte a financiar projetos de exploração de gás, petróleo e carvão. Isso representaria a reversão de uma proibição adotada pelo próprio banco em 2019. Ainda de acordo com a reportagem, o secretário contestou o consenso científico de que a queima de combustíveis fósseis é o principal fator do aquecimento global.
Bessent assumiu o cargo em janeiro de 2025, após nomeação do presidente Donald Trump no início de seu segundo mandato. A posição americana passou a influenciar diretamente as discussões sobre o desenho da política que sucederá o atual plano climático do banco.
Como está a divisão entre os acionistas da instituição?
As negociações no conselho de administração do Banco Mundial estariam paralisadas. De um lado, países europeus, com apoio de algumas nações latino-americanas e pequenos Estados insulares, pressionam pela prorrogação de alguma versão do plano. Do outro, países produtores de combustíveis fósseis, como Rússia e Estados do Golfo, se alinharam à posição dos Estados Unidos.
Uma das fontes ouvidas pelo Climate Home News resumiu a leitura sobre a estratégia americana da seguinte forma:
“A estratégia dos EUA é ganhar tempo”.
Na sequência, a mesma fonte afirmou:
“Eles estão usando o prazo de junho para se livrarem completamente do plano ou, como moeda de troca, para obter concessões em um plano climático enfraquecido, em troca de algo como financiamento para exploração e produção de gás.”
Jon Sward, do Projeto Bretton Woods, organização independente de monitoramento e análise das políticas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, também foi citado no texto original ao afirmar:
“Essa sensação de progresso está sendo questionada”.
Por que os Estados Unidos têm tanto peso nessa decisão?
O Banco Mundial é uma instituição multilateral, mas seu sistema de governança distribui poder de voto de acordo com a participação de capital. No Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, uma das cinco instituições do Grupo Banco Mundial, os Estados Unidos detêm cerca de 15% dos votos, a maior fatia individual entre os países membros. O Japão aparece em seguida, com cerca de 7%.
Como decisões substantivas exigem uma supermaioria de 85% dos votos, a participação americana funciona, na prática, como poder de veto. Isso também ajuda a explicar a influência dos Estados Unidos sobre a liderança da organização. O atual presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, foi nomeado pelo governo de Joe Biden.
- Os EUA têm cerca de 15% dos votos no Bird.
- Decisões relevantes exigem 85% de aprovação.
- Na prática, a participação americana permite bloquear mudanças substantivas.
O que está em jogo para o financiamento climático global?
O Plano de Ação para Mudanças Climáticas, lançado em 2021, estabeleceu o compromisso de direcionar 45% dos empréstimos anuais do banco a projetos com benefícios climáticos. Em 2024, a instituição superou essa meta e chegou a 48%. Ao longo de cinco anos, o desembolso nessa frente somou US$ 147 bilhões.
O peso do Banco Mundial nesse campo cresceu ainda mais porque países desenvolvidos passaram a cortar orçamentos de financiamento externo e a canalizar mais recursos por meio de bancos multilaterais de desenvolvimento, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Europeu de Investimentos. Em 2022, último ano com dados consolidados citados no texto, essas instituições responderam por mais de 40% de todo o financiamento público internacional para o clima, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
No caso do Brasil, a reportagem aponta que o país está entre os maiores beneficiários individuais do financiamento climático do Banco Mundial na América Latina. Em 2025, a instituição aprovou US$ 359 milhões, aproximadamente R$ 1,8 bilhão, para a recuperação climática do Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024, além de US$ 1 bilhão, o equivalente a R$ 5 bilhões, vinculado ao Plano de Transformação Ecológica do governo federal. Para o período de 2024 a 2028, a projeção do banco é emprestar, em média, US$ 2 bilhões por ano ao país.
Especialistas ouvidos pelo Climate Home News não preveem uma queda imediata nos volumes de financiamento climático se o plano expirar sem substituto. Ainda assim, alertam que a ausência de metas formais pode enfraquecer os incentivos internos para priorizar esse tipo de projeto e reduzir a transparência sobre a alocação dos recursos.