Aves urbanas de diferentes regiões do mundo vêm incorporando bitucas de cigarro aos ninhos, e um estudo com chapins-azuis na Polônia, publicado em março de 2026, encontrou evidências de que as toxinas do tabaco podem ajudar a afastar parasitas. A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Universidade de Lodz em parques urbanos e florestas próximas à instituição, ao comparar ninhos naturais, ninhos esterilizados e ninhos com filtros de cigarro usados para entender como esse material pode influenciar a saúde dos filhotes e a presença de pragas.
Embora o trabalho citado reúna observações feitas fora do Brasil, o tema tem relevância para cidades brasileiras porque aves urbanas também convivem com resíduos descartados no ambiente e com parasitas em áreas verdes, praças e jardins. O descarte irregular de bitucas, além disso, é um problema ambiental frequente em centros urbanos por contaminar solo e água.
De acordo com informações da Folha Ambiente, o trabalho relata que espécies como os tentilhões de Darwin nas Galápagos, tentilhões domésticos no México e tordos na Nova Zelândia já haviam sido observadas usando bitucas em ninhos. Em algumas áreas da Grã-Bretanha, aves canoras também passaram a construir ninhos em cinzeiros ao ar livre.
O que o estudo com chapins-azuis observou?
Os pesquisadores acompanharam a saúde de 99 aves nascidas em três tipos de caixas-ninho. Um grupo permaneceu com ninhos padrão, usado como controle. Outro recebeu um interior com musgo artificial esterilizado e algodão. No terceiro, foram colocadas duas bitucas de cigarro usadas.
Os chapins-azuis, espécie encontrada em toda a Europa, costumam nidificar em cavidades, como ocos naturais e caixas instaladas por humanos. Esse ambiente também favorece a presença de parasitas hematófagos, entre eles carrapatos, pulgas e moscas-varejeiras, que atacam adultos e filhotes durante o período de incubação e desenvolvimento.
Treze dias após a eclosão, três filhotes por ninhada foram medidos e tiveram amostras de sangue coletadas. Segundo a reportagem, os exames indicaram que filhotes tanto dos ninhos esterilizados quanto dos ninhos com bitucas apresentaram condição de saúde melhor do que os dos ninhos não tratados.
Como as bitucas afetaram a presença de parasitas?
Depois que os filhotes deixaram o ninho, a equipe analisou o material usado em cada estrutura para medir a população de parasitas. Os organismos eram mais numerosos nos ninhos naturais e quase ausentes nos ninhos com materiais esterilizados.
Nos ninhos com bitucas, os parasitas apareceram em número ligeiramente menor do que nos ninhos naturais, com destaque para moscas-varejeiras e pulgas. O estudo associa esse efeito à composição química do tabaco, já que as bitucas contêm cerca de 4.000 compostos químicos, incluindo nicotina, arsênico, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e metais pesados.
- Ninhos naturais: maior presença de parasitas
- Ninhos esterilizados: parasitas quase ausentes
- Ninhos com bitucas: redução modesta de parasitas, sobretudo moscas-varejeiras e pulgas
A pesquisa foi publicada na revista Animal Behaviour. O ecólogo evolucionista Michał Glądalski, que liderou o estudo, afirmou que a etapa mais difícil foi produzir mecanicamente as bitucas usadas no experimento sem expor pesquisadores à fumaça.
“foi a parte mais desafiadora do experimento”
O resultado foi considerado suficiente para explicar esse comportamento?
Especialistas ouvidos na reportagem destacaram que o efeito encontrado na Polônia foi relevante, mas moderado. Constantino Macías García, da Universidade Nacional Autônoma do México, observou que, em estudos anteriores na Cidade do México, tentilhões e pardais desmembravam os cigarros e espalhavam fibras dos filtros, o que poderia aumentar o contato do material com os filhotes e com os parasitas.
Segundo ele, o uso de apenas duas bitucas no experimento polonês pode ter limitado o efeito observado. Na Cidade do México, uma equipe liderada por Monserrat Suárez-Rodriguez identificou que pardais domésticos e tentilhões domésticos incorporavam, em média, de oito a dez bitucas em seus ninhos. Em um experimento posterior, as fêmeas de tentilhão-doméstico passaram a adicionar mais bitucas quando os pesquisadores aumentavam a presença de carrapatos vivos.
Outro ponto levantado pela reportagem é que o impacto do tabaco pode não ser apenas positivo. Estudos citados no texto mostram que, embora alguns indicadores, como eclosão, abandono do ninho e resposta imunológica, tenham melhorado com o maior uso de bitucas, também houve sinais de danos genéticos em células sanguíneas de filhotes expostos ao material. Os efeitos de longo prazo ainda são desconhecidos.
O que os pesquisadores concluem até agora?
Para os autores e especialistas mencionados na reportagem, o conjunto de pesquisas sugere que algumas aves podem estar explorando propriedades pesticidas do tabaco como estratégia contra parasitas. Ao mesmo tempo, os estudos indicam que essa adaptação pode envolver custos biológicos ainda não totalmente compreendidos.
Sarah Bush, ecóloga da Universidade de Utah, classificou o esforço do novo estudo como expressivo apesar da amostra pequena, destacando a dificuldade de obter grandes amostras em pesquisas de campo com aves. Ao final, Glądalski resumiu a interpretação da equipe sobre esse comportamento das aves.
“As aves são inteligentes”