O 1º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro dá início, a partir das 11h desta quinta-feira (9), ao julgamento dos acusados pelo assassinato do contraventor Fernando de Miranda Iggnacio. O crime, que ocorreu em novembro de 2020, está diretamente associado à violenta e histórica disputa pelo controle do jogo do bicho e da exploração de máquinas caça-níqueis no estado fluminense.
De acordo com informações da Agência Brasil, a vítima foi executada em uma emboscada meticulosamente planejada no estacionamento de um heliporto situado no bairro do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da capital. Fernando Iggnacio retornava de sua residência de veraneio localizada em Angra dos Reis, na região da Costa Verde, um trajeto que ele tinha o hábito de realizar frequentemente durante os fins de semana.
Como a emboscada contra Fernando Iggnacio foi planejada?
A denúncia apresentada pelo Ministério Público detalha que a execução contou com um monitoramento prévio e uso de armamento de guerra. No dia do crime, a dinâmica dos acontecimentos seguiu um roteiro rigoroso de tocaia contra o contraventor, que foi surpreendido assim que desembarcou de sua aeronave particular.
Os investigadores apontam que a ação criminosa ocorreu a partir das seguintes etapas estruturadas pelos executores:
- Por volta das 9h da manhã, quatro dos homens denunciados chegaram ao local utilizando um automóvel.
- Três destes indivíduos invadiram um terreno baldio que faz divisa direta com o heliporto, portando pelo menos dois fuzis.
- O grupo armado permaneceu no local aguardando pacientemente pela vítima por um período de aproximadamente quatro horas.
- Ao desembarcar do helicóptero, os atiradores posicionaram as armas sobre o muro do estacionamento, a uma distância de cerca de quatro metros do carro da vítima.
- Fernando Iggnacio foi atingido por três disparos de arma de fogo, sendo que um dos tiros o acertou fatalmente na região da cabeça.
Quem são os réus levados a júri popular no Rio de Janeiro?
Estarão sentados no banco dos réus diante do júri popular nesta quinta-feira os acusados Rodrigo Silva das Neves, Pedro Emanuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro. Todos respondem pelo crime de homicídio qualificado, que impossibilitou qualquer chance de defesa por parte da vítima.
As investigações apontam que a execução foi supostamente encomendada por Rogério de Andrade, apontado como o principal controlador do jogo do bicho e das máquinas caça-níqueis na região de Bangu, também na zona oeste. Segundo os autos do processo, Marcio Araujo de Souza, identificado como um dos profissionais responsáveis pela segurança pessoal de Rogério de Andrade, teria sido o encarregado de contratar os demais envolvidos para concretizar o assassinato.
Qual a origem da disputa pelo controle da contravenção?
A raiz do conflito que culminou na morte de Fernando Iggnacio remonta à década de 1990. A vítima era genro de Castor de Andrade, figura historicamente reconhecida como um dos maiores chefes do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Com o falecimento de Castor por causas naturais no ano de 1997, instaurou-se uma sangrenta disputa familiar pela herança e pelo controle dos pontos de contravenção e apostas ilegais.
Um detalhe levantado pelas apurações policiais reforça as ligações entre os envolvidos na execução e a estrutura de poder da contravenção. Foi identificado que os acusados Rodrigo das Neves e Ygor da Cruz já haviam prestado serviços como seguranças da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel. A agremiação carnavalesca tem como patrono justamente Rogério de Andrade. Ao todo, seis pessoas foram formalmente denunciadas pelo Ministério Público por envolvimento neste homicídio qualificado.