A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) oficializou na última sexta-feira, 24 de abril de 2026, a relação de solicitações aprovadas nas chamadas janelas de entrada para o mercado de ônibus rodoviários interestaduais no Brasil. A medida marca uma transformação profunda no setor de transporte de passageiros, com a abertura de milhares de novas rotas comerciais, visando ampliar a concorrência direta e garantir atendimento para regiões que até então não contavam com ofertas de viagens regulamentadas por via terrestre.
De acordo com informações do Diário do Transporte, a autarquia federal registrou 47.291 solicitações válidas por parte das companhias de transporte. Desse montante global, 38.379 referem-se a trajetos que antes não possuíam nenhum tipo de atendimento regular, enquanto 8.912 representam rotas operadas de forma monopolista por apenas uma empresa. Com a validação destes pedidos, o volume total de mercados autorizados administrativamente saltará de 33.961 para 72.340, o que representa um crescimento de 113% na oferta estruturada do país.
Como as empresas tradicionais se posicionam na nova regulamentação?
A Empresa Gontijo de Transportes, consolidada atualmente como a maior companhia rodoviária de ônibus do território nacional em operação individual, foi uma das principais contempladas neste novo cenário estrutural. A viação assumirá as operações de 3.024 mercados que antes se encontravam completamente desatendidos. Entre os novos trajetos aprovados na primeira posição de prioridade, destacam-se rotas como Abiara, na Bahia, com destino a Belo Horizonte, em Minas Gerais; Abreu e Lima, em Pernambuco, rumo ao Rio de Janeiro; e Acari, no Rio Grande do Norte, com chegada a São Paulo.
Além de assumir estas áreas sem cobertura prévia, a Gontijo também passará a atuar em 352 mercados que anteriormente eram monopolizados por concorrentes únicas. Nesta categoria, figuram trechos estratégicos como a ligação entre Alagoinhas, na Bahia, e Cuiabá, no Mato Grosso, bem como a rota de Almenara, em Minas Gerais, até São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo. A transportadora garantirá sua atuação tanto como primeira quanto como segunda contemplada nas listagens oficiais publicadas.
Quais são os planos da plataforma Flixbus para o mercado nacional?
Uma das grandes novidades trazidas pela liberação do governo federal é a entrada da Flixbus como operadora direta de linhas rodoviárias, recebendo aprovação administrativa para atuar em milhares de trechos. A plataforma de origem internacional conseguiu o status de principal operadora em 1.158 mercados apontados como desatendidos pelos registros regulatórios nacionais.
A atuação da empresa estrangeira abrangerá ligações interestaduais que fomentarão a mobilidade regional e nacional. O planejamento autorizado inclui as seguintes rotas principais:
- Trajeto de Alagoinhas, na Bahia, até Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco;
- Viagem de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, com destino a Umbaúba, em Sergipe;
- Rota saindo de Bayeux, na Paraíba, para Santo André, em São Paulo;
- Ligação de Camapuã, no Mato Grosso do Sul, até Cascavel, no Paraná.
Paralelamente aos locais sem oferta, a corporação de tecnologia também recebeu autorizações para operar em 72 mercados onde já existe concorrência estabelecida, a exemplo da rota entre Curitiba, no Paraná, e São Vicente, no litoral paulista.
Como fica a concorrência judicial e comercial entre grupos rivais?
As listas recém-divulgadas evidenciam um acirramento severo entre grupos históricos do setor. A Viação Águia Branca, sediada no Espírito Santo, assegurou permissões em mercados bastante semelhantes aos administrados pela Viação Itapemirim. Atualmente, o acervo de linhas da Itapemirim encontra-se sob arrendamento operacional da Suzantur. Existe um embate judicial ativo, pois a empresa capixaba tenta validar uma decisão do estado de São Paulo que transferiria este arrendamento para seu próprio controle, processo que atualmente aguarda julgamento no Superior Tribunal de Justiça.
Mesmo que as paradas não sejam idênticas em sua totalidade, as novas concessões coincidem regionalmente e ampliam a disputa por passageiros. Casos concretos envolvem as saídas de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, com destino aos municípios mineiros de João Monlevade e Manhumirim. No balanço geral, a empresa capixaba obteve 52 mercados de características monopolistas e 1.469 trajetos anteriormente desassistidos na condição principal.
Outra companhia que entra na disputa de áreas sobrepostas às rotas da Itapemirim é a Expresso União, pertencente ao Grupo Comporte, comandado pelo empresário Constantino de Oliveira. A corporação também disputou o arrendamento no passado e agora garante a operação de trechos concorrentes, como o trajeto capixaba até Leopoldina, em Minas Gerais. As chamadas janelas consistem em prazos específicos definidos pelo estado nos quais os prestadores de serviço podem solicitar ampliações e novas criações de itinerários regulares, fechando o sistema para alterações fora destes intervalos.