Uma coluna da terapeuta climática Leslie Davenport responde à dúvida de um jovem adulto sobre como planejar o futuro diante da crise climática e da sensação de que o mundo pode se tornar inviável nas próximas décadas. Publicado pela Grist, o texto aborda o impacto emocional da incerteza ambiental sobre decisões de vida, estudo e trabalho, e propõe uma forma de pensar o futuro menos baseada em previsões exatas e mais orientada por valores pessoais. De acordo com informações da Grist, a resposta foi direcionada a um estudante que teme que sua formação se torne inútil “quando o apocalipse chegar”.
Na mensagem enviada à coluna, o estudante relata dificuldade para fazer planos de longo prazo porque as mudanças climáticas tornam o futuro incerto. Ele afirma ser apaixonado pela própria graduação, mas diz temer que esse esforço perca o sentido diante de um cenário de colapso. A resposta de Davenport reconhece que essa é uma das perguntas mais importantes para a geração atual e afirma que ninguém pode dizer com precisão como será o mundo em 50 anos.
Por que a ideia de “apocalipse” pode paralisar decisões?
Leslie Davenport argumenta que usar a noção de “apocalipse” reduz todas as possibilidades de futuro a um único desfecho extremo. Segundo ela, isso dificulta perceber que ainda existem caminhos abertos, mesmo em meio a perdas e rupturas já em curso. A terapeuta não minimiza o medo expresso pelo estudante e afirma que planejar a vida em um cenário instável é, de fato, um desafio real.
Ao mesmo tempo, ela sustenta que transformar todos os futuros possíveis no pior cenário tende a produzir imobilidade. Para a autora, esse congelamento emocional não ajuda nem as pessoas nem as comunidades e ecossistemas que dependem de ação. Em vez de negar a gravidade da crise climática, a proposta é desenvolver capacidade de adaptação diante de circunstâncias em mudança.
Como planejar a vida sem garantias sobre o mundo de amanhã?
A resposta da coluna sugere trocar a busca por certezas de longo prazo por uma orientação baseada em valores. Em vez de perguntar se uma escolha ainda fará sentido daqui a 50 anos, Davenport propõe uma pergunta diferente: o que importa agora e como construir uma vida coerente com isso. Segundo ela, essa mudança de perspectiva pode fortalecer a resiliência e ajudar a manter a motivação, mesmo sem controle sobre os resultados.
Nesse raciocínio, a formação acadêmica e o trabalho não ficam presos a um único cargo ou cenário fixo. A terapeuta afirma que habilidades, relações, modos de pensar e capacidade de construir sentido podem ser úteis em diferentes contextos. Assim, a questão não seria se um diploma “sobreviverá” ao futuro, mas de que forma a pessoa poderá agir com profundidade, flexibilidade e disposição para contribuir em novas realidades.
O que a terapeuta diz sobre medo, perda e adaptação?
Davenport afirma que as rupturas sérias já estão acontecendo e devem afetar praticamente todos os campos profissionais. Por isso, ela defende que o medo não deve ser ignorado. Antes de buscar soluções imediatas, seria necessário reconhecer o peso emocional da situação. Para a autora, sentir a perda faz parte de uma resposta íntegra à crise, desde que isso não elimine a percepção sobre aquilo que ainda pode ser transformado.
Ela também afirma que não existe um futuro fixo a ser planejado com precisão. O mundo, segundo a terapeuta, é dinâmico e exigirá criatividade de quem tenta perseguir objetivos pessoais e profissionais. Nesse contexto, a paixão por uma área de estudo não é tratada como fraqueza, mas como um recurso importante para seguir atuando em cenários incertos.
- Reconhecer a incerteza sem negar a gravidade da crise climática
- Evitar reduzir todos os cenários ao pior resultado possível
- Trocar a busca por garantias por escolhas orientadas por valores
- Desenvolver flexibilidade para adaptar trajetórias pessoais e profissionais
Ao final, a mensagem central da coluna é que não há como planejar um futuro totalmente estável, porque esse tipo de horizonte simplesmente não existe. Ainda assim, Davenport defende que é possível construir uma vida com sentido ao cultivar compromisso, adaptação e cuidado com aquilo que importa no presente. Para ela, diante da crise climática, continua sendo essencial a atuação de pessoas que se importam profundamente com o mundo e com o que fazem.