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Ana Cláudia Quintana Arantes: ‘Falar sobre a morte organiza o sofrimento’

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A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes defende que discutir a morte não elimina o sofrimento, mas permite organizá-lo de forma mais humana e consciente. Em entrevista ao G1, ela aborda os desafios do sistema de saúde brasileiro em lidar com o fim da vida, a importância dos cuidados paliativos e a necessidade de conversas antecipadas sobre vontades no final da vida. A entrevista ocorreu em março de 2026 e reflete sua experiência de mais de duas décadas acompanhando pacientes com doenças graves.

De acordo com informações do G1, Ana Cláudia critica a cultura médica centrada na cura a qualquer custo, que frequentemente negligencia o alívio do sofrimento e o respeito à autonomia do paciente.

O que são cuidados paliativos e por que são mal compreendidos?

A especialista esclarece que cuidados paliativos não significam desistência, mas sim proteção contra o sofrimento físico, emocional, social e espiritual causado por doenças graves. “Ele não antecipa nem prolonga a morte. Ele cuida da dor, do emocional, da família, do contexto social e espiritual”, afirma. A confusão persiste porque muitos profissionais ainda enxergam a morte como fracasso, em vez de parte natural da vida.

Ela destaca que, quando esse tipo de cuidado é iniciado precocemente, o paciente vive melhor, com mais qualidade e capacidade de aproveitar o tempo que lhe resta. “Sem controle de sintomas, ela não recebe visitas, não sai, não aproveita”, observa.

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Por que falar sobre a morte ainda é tabu nas famílias?

Segundo Ana Cláudia, evitar o tema gera decisões apressadas e sofrimento evitável. “Quando a família evita essa conversa, ela está escolhendo sofrer mais depois. Porque vai ter que decidir sem saber o que a pessoa queria.” Ela reforça que o objetivo não é eliminar a dor, mas organizar as escolhas: “Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento.”

A médica também aponta falhas estruturais no Brasil: apesar de avanços legais, como a obrigatoriedade do ensino de cuidados paliativos nas faculdades de medicina desde 2022, a formação é insuficiente — muitas vezes limitada a apenas dois períodos. Além disso, o acesso a equipes especializadas permanece escasso diante do rápido envelhecimento da população. Os cuidados paliativos são reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parte essencial da atenção à saúde, mas sua oferta ainda é desigual entre redes públicas e privadas e entre diferentes regiões do país.

Como a desigualdade impacta a experiência da morte?

Ana Cláudia alerta que a realidade predominante no país não é o excesso de intervenções, mas o abandono. “Muitos morrem sem diagnóstico, sem tratamento, sem cuidado.” A desigualdade social determina profundamente como as pessoas vivem — e morrem. “Dependendo de onde você está, não há acesso a nada. E a experiência de morte passa a ser de abandono.”

Ela ressalta que uma “boa morte” não é sinônimo de morte fácil ou bonita, mas de uma experiência respeitosa, alinhada com os valores e desejos do paciente. Isso exige diálogo prévio, especialmente sobre diretivas antecipadas de vontade — instrumento pelo qual o paciente pode registrar preferências sobre tratamentos e cuidados caso não consiga se manifestar no futuro. Segundo ela, o Brasil ainda não está preparado, nem mesmo para garantir o básico do cuidado no fim da vida.

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