
Em Fairmont, na Carolina do Norte (EUA), o ex-avicultor Craig Watts trava uma longa batalha judicial contra a gigante do setor avícola Perdue Farms para derrubar o controverso sistema de pagamento por torneio da indústria. O caso atrai a atenção do agronegócio internacional, uma vez que os Estados Unidos e o Brasil são os dois maiores produtores e exportadores de carne de frango do mundo, operando frequentemente com modelos de integração entre criadores rurais e agroindústrias. A disputa ganha novos contornos neste mês de abril de 2026, momento em que o governo de Donald Trump decide adiar uma regulamentação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), criada na gestão de Joe Biden, que visava proteger os produtores de práticas contratuais consideradas predatórias.
De acordo com informações do Inside Climate News, a regra que proibiria práticas desiguais de pagamento estava programada para entrar em vigor no dia 1º de julho. No entanto, a recente manobra política pode postergar a implementação da medida até dezembro de 2027, mantendo um cenário que frequentemente deixa os criadores de frangos em dívidas profundas devido às exigências financeiras das grandes corporações.
Como funciona a batalha legal do ex-avicultor contra a indústria?
Watts trabalhou por 20 anos como criador contratado da Perdue Farms, mas deixou a atividade após sucessivos confrontos sobre as condições dos contratos e o bem-estar dos animais. Atualmente, a discussão central nos tribunais e agências federais, que se arrasta desde 2014, é se ele e outros produtores, como Rudy Howell, devem ser classificados como trabalhadores contratados ou funcionários integrais da empresa.
Essa distinção jurídica é crucial para o desfecho do caso. Caso sejam reconhecidos como funcionários, os produtores ganhariam proteções contra retaliações corporativas. Em uma queixa formal registrada na Administração de Segurança e Saúde Ocupacional, os ex-criadores solicitam que a Justiça obrigue a Perdue a pagar os salários que teriam recebido se não tivessem sofrido supostas retaliações por denúncias feitas no passado.
Qual é a posição das gigantes do setor avícola e do governo?
A Perdue Farms, que registrou uma receita bruta de US$ 9,8 bilhões no ano de 2025, nega veementemente as acusações nos tribunais. Um porta-voz da corporação afirmou que a empresa mantém conselhos consultivos para fortalecer a relação com os produtores e emitiu um posicionamento oficial sobre o caso.
A Perdue valoriza nosso relacionamento com todos os agricultores familiares em nossa rede, e nosso objetivo é sempre trabalhar com os agricultores para ajudá-los a criar frangos saudáveis e de alta qualidade de acordo com os padrões de bem-estar animal, biossegurança e nutrição animal da Perdue.
Por outro lado, o sistema de pagamento por torneio é duramente criticado por colocar agricultores vulneráveis em competição direta uns contra os outros. Watts chegou a comparar esse modelo predatório ao cenário de sobrevivência do filme “Mad Max Além da Cúpula do Trovão”, onde a regra básica é que apenas um sobrevive. Apesar das críticas, o diretor executivo da Perdue, Kevin McAdams, declarou publicamente que os avicultores da empresa apoiam o atual modelo de torneio.
Sobre o adiamento da nova regulamentação que mudaria esse cenário, um representante do USDA justificou a decisão do atual governo americano. Segundo a agência, a prorrogação do prazo permitirá realizar os próximos passos operacionais de forma responsável e “considerar minuciosamente suas opções”.
Por que o atual modelo de criação de frangos gera endividamento?
O histórico de Watts ilustra as armadilhas enfrentadas por quem ingressa no setor. Atraído no ano de 1991 por um anúncio de jornal que buscava parceiros para os negócios, ele ignorou os alertas de sua esposa sobre os altos investimentos e o consequente endividamento. A regra proposta, agora paralisada, traria as seguintes mudanças para mitigar esses problemas:
- Proibição de práticas de pagamento baseadas em torneios desiguais que prejudicam produtores menores.
- Obrigatoriedade de maior transparência e fornecimento de informações detalhadas pelas corporações.
- Maior clareza financeira quando as empresas exigirem que os agricultores paguem por atualizações em equipamentos e galpões.
Hoje, prestes a completar 60 anos, Watts atua como diretor do programa de transição do Socially Responsible Agriculture Project. Por meio da organização Growers Unite, ele se dedica a educar potenciais fazendeiros sobre os sérios riscos financeiros das fazendas industriais, além de oferecer suporte àqueles que enfrentam práticas comerciais consideradas desleais pelas corporações dominantes.