
O Acampamento Terra Livre tem início nesta segunda-feira (6 de abril de 2026) e se estende até a sexta-feira (10 de abril) em Brasília, reunindo delegações de povos originários das cinco regiões do Brasil. A mobilização anual, coordenada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) — principal entidade de representação indígena do país —, busca debater os impactos socioambientais de grandes empreendimentos nos territórios tradicionais, o enfrentamento institucional às mudanças climáticas e a construção de apoio a candidaturas políticas aliadas.
De acordo com informações do UOL Notícias, a expectativa da organização é concentrar cerca de oito mil pessoas no Eixo Cultural Ibero-americano, antiga Funarte, localizado na Esplanada dos Ministérios. O tema escolhido para a edição deste ano é “Nosso futuro não está a venda – a resposta somos nós”, evidenciando a resistência dos povos contra o avanço da mineração e a construção de rodovias que ameaçam a integridade dos biomas.
Como a pauta do marco temporal será abordada no evento?
O embate jurídico e legislativo sobre a demarcação de terras ocupa o centro das reuniões da cúpula indígena. O movimento tenta reverter derrotas institucionais recentes ocorridas no Congresso Nacional, impulsionadas pela força política da bancada ruralista. Os parlamentares aprovaram a inclusão da tese do marco temporal em lei — que restringe o direito à terra apenas aos territórios ocupados por indígenas até 5 de outubro de 1988 —, confrontando o entendimento prévio de inconstitucionalidade firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O coordenador da Apib, Kleber Karipuna, explicou o posicionamento estratégico adotado pelas lideranças durante a mobilização na capital federal.
“As organizações indígenas enfrentam temas como esse e outros que estão tramitando no Congresso Nacional. A gente continua reafirmando a posição da Suprema Corte sobre a inconstitucionalidade do marco temporal”, afirmou o dirigente.
Ainda segundo Karipuna, as ações não se limitam ao protesto de rua, mas englobam articulações técnicas direcionadas aos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).
“Vamos continuar incidindo do ponto de vista jurídico, político e de mobilização para que os direitos indígenas sejam garantidos e efetivados plenamente”, destacou o coordenador.
Qual é a programação prevista para os cinco dias de mobilização?
Para estruturar as reivindicações de forma organizada e promover ampla visibilidade pública, a coordenação do Acampamento Terra Livre dividiu os cinco dias do evento em diferentes abordagens táticas:
- Primeiro dia: Recepção oficial das delegações regionais e escuta ativa das demandas locais.
- Segundo dia: Realização da tradicional marcha pacífica pelas ruas até o Congresso Nacional.
- Terceiro dia: Concentração na plenária principal para debates aprofundados sobre a defesa territorial.
- Quarto dia: Nova caminhada estratégica de mobilização pela região central da capital.
- Quinto dia: Encerramento formal do encontro com a publicação e leitura do manifesto anual.
Além da densa agenda política, o período noturno é totalmente reservado para programações culturais. O cronograma prevê a realização de desfiles de moda, shows e apresentações de dança, com o intuito primordial de apresentar a diversidade cultural e gerar integração entre as diversas etnias representadas.
De que forma a crise climática afeta as tradições indígenas?
O presidente da Associação da Terra Indígena Xingu (Atix), Ewésh Yawalapiti Waurá, ressaltou que as alterações ambientais extremas estão devastando os ecossistemas no Parque Indígena do Xingu, localizado em Mato Grosso. Esse processo é impulsionado diretamente pela pressão do agronegócio, pela pesca ilegal e pelo desmatamento sistemático. Ele enfatizou a relevância do acampamento como uma ferramenta essencial de pressão diplomática.
“O acampamento Terra Livre não é somente um evento, é um instrumento político estratégico. Para os povos do Xingu, ele cumpre funções centrais, tais como incidência direta sobre o Estado. É o momento em que lideranças falam diretamente com o Congresso, o STF e o governo”, declarou.
A seca prolongada e a intervenção no curso natural dos rios já provocam danos drásticos na manutenção da vida e das tradições nas aldeias.
“No Xingu, nós temos impacto direto da seca, do fogo, da alteração de rios, entre outros. Todos relacionados a essas mudanças. Temos que falar sobre financiamento climático justo, como de outras soluções”, alertou o líder da Atix.
Como consequência irrefutável desta crise climática, o povo waurá enfrenta o sério risco de perder a sua técnica milenar de produção de cerâmicas. As secas cada vez mais frequentes nos rios resultaram na escassez alarmante do cauxi, uma esponja de água doce utilizada como matéria-prima fundamental na elaboração das peças ancestrais. A mobilização deste ano, que atinge a marca de 21 anos ininterruptos, também conta com o suporte estratégico de delegações da bacia amazônica internacional e de ativistas da Oceania.