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Agenda climática troca Green New Deal por foco no custo de vida nos EUA

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Uma nova proposta de política climática apresentada na quarta-feira pelo Climate and Community Institute, nos Estados Unidos, defende que o debate sobre clima passe a ser conduzido a partir do custo de vida da população trabalhadora. A iniciativa, descrita por seus formuladores como uma agenda climática da classe trabalhadora, propõe medidas para reduzir despesas cotidianas, como limites para tarifas de seguro residencial, proibição de cortes de serviços públicos e ampliação de soluções que também reduzam emissões. A mudança de enfoque ocorre após o enfraquecimento do impulso político do Green New Deal e da reversão de avanços associados à lei climática do governo Joe Biden.

De acordo com informações do Grist, setores progressistas passaram a defender que políticas climáticas sejam apresentadas principalmente como resposta à alta dos gastos com moradia, energia, alimentação e saúde. A leitura é a de que o tema climático, por si só, perdeu tração política, enquanto a pressão sobre o orçamento doméstico se tornou a principal preocupação de muitos eleitores.

Por que o debate climático passou a girar em torno da acessibilidade financeira?

O argumento central dessa nova agenda é que muitos custos que pesam no dia a dia já estão ligados às mudanças climáticas. O texto cita efeitos como perdas de safra em ondas de calor, alta nos preços de energia durante eventos extremos e aumento no seguro residencial. Uma análise mencionada pela reportagem, do Brookings Institution, concluiu no ano passado que os impactos de um planeta mais quente, incluindo custos de saúde relacionados à fumaça de incêndios florestais e a enchentes, representam entre US$ 219 e US$ 571 por ano para a família média.

Segundo Daniel Aldana Cohen, sociólogo da University of California, Berkeley, e cofundador do Climate and Community Institute, a dependência de combustíveis fósseis também expõe a fragilidade econômica do país. Em meio à alta dos combustíveis associada à guerra no Irã, ele afirmou que esse contexto cria espaço para defender uma transição energética como forma de melhorar a vida cotidiana.

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“Fossil fuels are unreliable. They drive up your cost of living. They cause wars and people die. And if we make a green transition, that will make everyday life better for working people who are struggling.”

O que essa nova agenda propõe na prática?

A proposta se apoia na ideia de “populismo econômico verde”, combinando alívio financeiro para a classe trabalhadora com políticas de redução de carbono. Entre os exemplos citados estão transporte gratuito, moratória para centros de dados e maior regulação de empresas associadas tanto às emissões quanto à crise do custo de vida. Em prazo mais amplo, a estratégia inclui disseminar tecnologias que possam reduzir gastos domésticos e o uso de combustíveis fósseis.

  • limites para taxas de seguro residencial;
  • proibição de cortes de serviços públicos;
  • expansão de transporte gratuito;
  • acesso ampliado a bombas de calor, fogões de indução e veículos elétricos;
  • regulação de setores corporativos ligados ao aumento de emissões e de custos.

Os formuladores da agenda dizem ter tirado lições de duas experiências anteriores. Na avaliação deles, o Green New Deal careceu de força política suficiente, enquanto a Inflation Reduction Act, aprovada no governo Biden, não entregou resultados tangíveis com rapidez suficiente para eleitores da classe trabalhadora. Patrick Bigger, diretor de pesquisa do instituto, disse que o momento político, social e econômico é muito diferente do de oito anos atrás.

“I think we’re all hugely inspired by the Green New Deal, and the Green New Deal moment, and what that represented. But I think that we recognize that we’re in a radically different place, politically, socially, economically now than we were eight years ago.”

Quais propostas ficaram de fora e quais são as críticas?

Algumas soluções climáticas tradicionais não aparecem no plano. O texto afirma que a agenda não defende imposto sobre carbono nem sistemas de cap-and-trade, sob o argumento de que esses mecanismos podem repassar custos ao consumidor. Bigger disse à reportagem que essa opção “não é politicamente viável agora”. Ao mesmo tempo, medidas como controle ou congelamento de aluguéis podem não ser reconhecidas de imediato como políticas climáticas, embora seus defensores sustentem que moradia acessível em áreas centrais reduz deslocamentos de carro e, por consequência, emissões.

Katie Wilson, prefeita de Seattle citada na reportagem, associou habitação acessível nas áreas urbanas à redução do uso diário do automóvel. Já Grace Adcox, da Data for Progress, avaliou que a falta de confiança dos americanos nas instituições e o receio de arcar com custos futuros podem dificultar investimentos públicos mais ambiciosos. Ainda assim, a empresa de pesquisa encontrou 70% de apoio à ideia de que política econômica pode reduzir custos e emissões ao mesmo tempo.

Há também críticas vindas de outros setores do campo climático. Emily Becker, do think tank Third Way, classificou a proposta como “Biden on steroids” e questionou sua capacidade de mobilização. Na visão dela, a agenda ficaria no meio do caminho entre uma visão transformadora e uma formulação mais pragmática. Já Advait Arun, do Center for Public Enterprise, considerou a proposta promissora, mas alertou que um foco excessivo na redução das contas individuais pode limitar a discussão sobre mudanças estruturais necessárias para conter choques de preços e custos de recuperação após desastres climáticos.

Apesar das divergências, os autores da proposta afirmam que seguem trabalhando para refinar as políticas específicas. Por enquanto, tratam o chamado populismo econômico verde como uma direção estratégica para recolocar a agenda climática no centro do debate público por meio de uma linguagem mais ligada ao bolso do eleitor.

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