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Queima de madeira para energia pode ser pior ao clima do que gás, diz estudo

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A queima de madeira para gerar eletricidade pode ser pior para o clima do que o uso de gás equivalente, mesmo quando as emissões de dióxido de carbono são capturadas e armazenadas, segundo uma nova pesquisa publicada nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026. O estudo envolve pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido e China, analisa o uso de biomassa em usinas e levanta dúvidas sobre planos de governos, como o britânico, de apoiar financeiramente sistemas de captura de carbono acoplados à geração com madeira. De acordo com informações do Guardian Environment, as conclusões foram descritas na revista científica Nature Sustainability.

O trabalho examina a chamada bioenergia com captura e armazenamento de carbono, conhecida pela sigla BECCS. Essa tecnologia vem sendo apresentada como uma forma de produzir energia contínua com potencial de gerar até “emissões negativas”, na hipótese de que novas florestas plantadas absorvam CO2 da atmosfera. No entanto, os pesquisadores concluíram que esses sistemas podem levar 150 anos para se tornarem “carbono negativos”, em parte pelo tempo necessário para o recrescimento das florestas e pelos impactos da conversão de savanas, pastagens ou áreas agrícolas para o cultivo de biomassa.

Por que o estudo questiona a biomassa com captura de carbono?

Segundo a pesquisa, a maior parte das emissões associadas à queima de madeira ocorre antes que o material chegue à usina, o que impede a captura desses gases no processo industrial. Os modelos usados pelos cientistas indicam ainda que a madeira pode emitir o dobro de carbono por unidade de energia produzida em comparação com o gás fóssil, além de apresentar eficiência energética menor.

Os autores também apontaram problemas no uso de madeira retirada de florestas já existentes, especialmente áreas antigas. Mesmo em cenários considerados menos danosos, com metade da madeira vindo de resíduos e metade de plantações de rápido crescimento, os resultados sugerem que seriam necessárias décadas para alcançar emissões líquidas negativas.

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O que disseram os autores e os críticos da política de subsídios?

Tim Searchinger, pesquisador sênior da Universidade de Princeton e líder do estudo, defendeu uma mudança de rumo nas políticas públicas.

“Governments should not subsidise burning wood from existing forests, with or without carbon capture and storage. Doing so will increase carbon emissions for decades, even compared with doing nothing, and greatly raise people’s energy prices.”

Em outra declaração reproduzida na reportagem, ele também criticou normas que, segundo ele, deixam de contabilizar as emissões liberadas por chaminés quando a madeira é queimada.

“Governments should reform laws that declare the carbon emitted from smokestacks by burning wood somehow doesn’t count – in other words, does not add to global warming. It does.”

Organizações ambientalistas afirmaram que os governos deveriam interromper a geração de energia a partir da madeira. No Reino Unido, a principal geradora de eletricidade por biomassa é a Drax, em North Yorkshire, apontada na reportagem como a maior fonte individual de CO2 do país. Segundo estimativas de um centro de estudos citadas pelo texto original, a empresa recebeu quase £1 bilhão em subsídios no ano passado pela queima de madeira.

Douglas Parr, cientista-chefe do Greenpeace UK, avaliou que cortar árvores para queimá-las e depois enterrar as emissões é uma estratégia equivocada. Já Matt Williams, do Natural Resources Defense Council, disse que o novo trabalho reforça pesquisas anteriores e afirmou que o Reino Unido deveria buscar outras fontes efetivamente limpas de energia que não dependam de combustíveis importados.

Como a Drax e o governo britânico responderam ao relatório?

A Drax informou que pausou seus investimentos em BECCS, citando falta de clareza sobre subsídios governamentais para a tecnologia. Em resposta ao estudo, um porta-voz da companhia afirmou que a empresa concorda que a biomassa não deve ser obtida da forma descrita no artigo científico e declarou que seu abastecimento vem de florestas geridas de forma sustentável, incluindo resíduos de serraria, madeira de baixa qualidade e resíduos florestais.

“We only source from well-managed, sustainable forests including sawmill residues, low-grade roundwood and forest residues.”

A empresa acrescentou que monitora as florestas de origem e investe em ferramentas para ampliar a transparência da cadeia de suprimento. Também disse não conhecer áreas florestais manejadas em que o tipo de colheita descrito no estudo seria economicamente viável para proprietários de terra ou para a indústria de bioenergia com captura de carbono.

O Departamento de Segurança Energética e Net Zero do Reino Unido rejeitou as conclusões do relatório. Segundo o porta-voz do órgão, o governo não reconhece essas alegações e ainda não tomou decisões finais sobre grandes projetos de bioenergia com captura e armazenamento de carbono. O departamento afirmou ainda que qualquer apoio público precisaria demonstrar bom uso do dinheiro do contribuinte e cumprir critérios de sustentabilidade.

  • O estudo foi publicado na revista Nature Sustainability.
  • Os pesquisadores estimam até 150 anos para que o sistema se torne “carbono negativo”.
  • A crítica central é que muitas emissões ocorrem antes da queima na usina.
  • O governo britânico ainda não tomou decisão final sobre apoio em larga escala ao BECCS.

O debate ocorre em um contexto em que entidades do setor defendem o papel do BECCS para o cumprimento da meta legal de neutralidade climática até 2050 no Reino Unido. Trevor Hutchings, da Renewable Energy Association, afirmou que o estudo mostra riscos e complexidades, mas sustentou que, sem BECCS e outras formas de emissões negativas, o país não alcançará suas metas climáticas legalmente vinculantes.

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