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Guerra entre EUA e Irã pode pressionar financiamento climático a países pobres

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A guerra entre os Estados Unidos e o Irã pode aumentar a pressão sobre os compromissos de financiamento climático assumidos por países ricos com nações em desenvolvimento, segundo especialistas ouvidos durante as reuniões de primavera do Banco Mundial e do FMI, realizadas nesta semana em Washington, D.C. O conflito, ao elevar os preços do petróleo, pressionar cadeias de suprimento e ampliar gastos com defesa, pode reduzir ainda mais os recursos disponíveis para ações de adaptação e mitigação climática em países mais vulneráveis.

De acordo com informações da Inside Climate News, o tema ganhou peso nas discussões internacionais em meio à desaceleração econômica global, ao aumento da dívida e à redução da ajuda externa oferecida por países doadores. O alerta ocorre enquanto instituições multilaterais avaliam como responder aos efeitos econômicos do conflito.

Como a guerra pode afetar o financiamento climático?

Segundo a reportagem, o FMI reduziu sua previsão de crescimento global para 3,1% neste ano, ante 3,3% em janeiro, e projetou inflação global de 4,4%. Em um cenário mais severo, a instituição estima que interrupções no fornecimento de energia possam se estender até o próximo ano, derrubando o crescimento global para 2% e elevando a inflação para mais de 6%.

“Our severe scenario assumes that energy supply disruptions extend into next year, with greater macro instability. Global growth falls to 2 percent this year and next, while inflation exceeds 6 percent,” said Pierre‑Olivier Gourinchas, the IMF’s director of research.

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A avaliação reforçou dúvidas sobre a capacidade de apoio financeiro a países-membros e sobre o cumprimento das obrigações climáticas internacionais. O texto destaca que esses compromissos já vinham sendo afetados por cortes orçamentários em países doadores e pela retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris no segundo governo Donald Trump.

Desde a pandemia de covid-19, os países mais ricos que prometeram recursos para o clima passaram a registrar déficits fiscais mais amplos e aumento do endividamento, segundo avaliação citada da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Como resultado, a ajuda dos países doadores caiu quase 25% em 2025 na comparação com 2024, e já havia perspectiva de nova queda neste ano antes mesmo do início do conflito com o Irã.

Quais metas climáticas internacionais estão em risco?

A COP29, realizada no fim de 2024 em Baku, no Azerbaijão, estabeleceu o compromisso de US$ 300 bilhões por ano até 2035, com uma meta mais ampla de chegar a US$ 1,3 trilhão anuais a partir de fontes públicas e privadas. O arranjo, chamado New Collective Quantified Goal, substituiu o compromisso anterior de US$ 100 bilhões por ano, atingido com atraso em 2022.

Países em desenvolvimento criticaram amplamente o valor de US$ 300 bilhões, considerado insuficiente diante da escala da crise climática. Essas nações estão entre as menos responsáveis pelas emissões que impulsionam o aquecimento global, mas também entre as mais afetadas por seus impactos.

Para Gautam Jain, pesquisador sênior do Center on Global Energy Policy, da Universidade Columbia, o cumprimento da nova meta já era difícil antes da guerra. A situação, segundo ele, piorou com o conflito e com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

“Even before the Iran conflict, reaching the NCQG target would have been difficult, particularly with the U.S. withdrawing from the Paris Agreement. The war worsens the outlook,” said Gautam Jain, senior research scholar at the Center on Global Energy Policy at Columbia University.

O encarecimento da energia pode acelerar ou atrasar a transição?

A reportagem aponta que uma interrupção prolongada no Estreito de Hormuz agravaria os efeitos sobre a economia mundial. Isso poderia reduzir orçamentos de ajuda internacional e ampliar a resistência política a gastos externos. Ao mesmo tempo, o choque reforça a segurança energética como prioridade dos governos, o que tende a estimular o interesse por fontes renováveis e por energia limpa doméstica.

Jain afirmou, porém, que esse movimento não ocorre da mesma forma em todos os países. Em economias de baixa renda, a transição energética pode ser significativamente adiada devido à capacidade fiscal limitada para absorver choques prolongados nos preços da energia.

Entre os principais pontos levantados por especialistas estão:

  • alta dos preços do petróleo e risco de novas interrupções no fornecimento;
  • pressão adicional sobre orçamentos públicos e ajuda internacional;
  • crescimento dos gastos com segurança e defesa;
  • maior dificuldade para países pobres financiarem a transição energética;
  • possível estímulo à diversificação da matriz com solar e eólica.

Um dos focos do Banco Mundial nas reuniões em Washington é preparar um novo plano de ação climática para substituir o atual, que expira em junho. Segundo Jain, no contexto geopolítico atual, o avanço nessa frente parece improvável.

Qual pode ser a resposta de Banco Mundial e FMI?

Jon Sward, gerente de projetos ambientais do Bretton Woods Project, disse que países que antes financiavam ações climáticas estão direcionando esses recursos para outras prioridades. Para ele, a crise no Golfo expôs a fragilidade de um sistema econômico global ainda fortemente dependente da extração e do uso de combustíveis fósseis.

Sward afirmou que, para países dependentes da importação de combustíveis fósseis, o episódio representa mais um choque de preços e que a diversificação rápida para fontes renováveis é uma opção analisada por muitos governos. Ele observou, contudo, que ainda não está claro como Banco Mundial e FMI responderão aos efeitos do conflito nem qual será o impacto direto sobre o financiamento climático da instituição.

“All of this points to the need for more serious discussions on pausing debt repayments for affected countries and the mobilisation of non-debt creating forms of finance, in order to address the multiple, overlapping shocks facing countries in the Global South, in particular,” he said in his email.

O quadro descrito pelos especialistas é de pressão simultânea sobre crescimento, inflação, energia, dívida e clima. Nesse cenário, países em desenvolvimento podem enfrentar mais dificuldade para acessar recursos justamente quando eventos climáticos extremos e custos de adaptação seguem em alta.

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