Incêndios florestais de grandes proporções devastaram neste início de primavera áreas de pastagem no estado de Nebraska, nos Estados Unidos, com mais de um milhão de acres queimados e prejuízos severos para a pecuária local. O avanço das chamas ocorreu em meio à combinação de temperaturas mais altas, seca extrema, ventos fortes e vegetação ressecada, em uma região central do país onde se concentra boa parte da produção de carne bovina. De acordo com informações do Guardian Environment, o estado registrou em apenas um mês a quebra dos recordes anuais de área queimada.
O maior foco foi o incêndio Morrill, descrito como o maior já registrado em Nebraska, com mais de 642 mil acres atingidos antes de ser controlado em março. Autoridades ainda contabilizam a destruição provocada pelo fogo, que avançou com rapidez e cobriu mais de 70 milhas nas primeiras 12 horas. O incêndio matou Rose White, de 86 anos, enquanto ela tentava fugir de casa, e reduziu partes da região de Sandhills, uma das maiores áreas de campo temperado ainda preservadas do planeta, a cinzas e areia.
Por que os incêndios se agravaram neste ano em Nebraska?
Segundo o texto original, o fogo não é incomum no começo do ano nas Grandes Planícies americanas, quando a precipitação é baixa, as gramíneas estão secas e dormentes, e os ventos sopram com força sobre áreas abertas. O que mudou, de acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, foi a intensificação das condições que favorecem incêndios maiores e mais destrutivos.
O ecologista de áreas de pastagem Dirac Twidwell, da Universidade de Nebraska, afirmou que há uma mudança na dinâmica dos incêndios na região. Ele explicou que tempestades mais fortes no verão favorecem o crescimento das gramíneas, que secam no inverno. Sem cobertura protetora de neve, essa vegetação ressecada amplia o risco de fogo, especialmente quando os ventos aumentam. Neste ano, após chuvas intensas em partes do estado no verão passado, o inverno foi o segundo mais quente já registrado e o quarto mais seco.
“The probability of ignition just goes through the roof.”
Quais foram os impactos para pecuaristas e comunidades rurais?
Os danos se espalharam por várias áreas do estado. Cercas, forragem e grandes extensões de pastagem foram destruídas. Milhares de animais morreram ou sofreram queimaduras graves, segundo a reportagem. Em Nebraska, onde o rebanho bovino supera a população humana em uma proporção de quatro para um, a recuperação das áreas de pasto é motivo de forte preocupação.
O pecuarista Collin Thompson, citado no texto, descreveu o cenário em sua propriedade após o incêndio Cottonwood, de cerca de 130 mil acres. Em vídeo produzido pela Nebraska Farm Bureau, ele comparou a área atingida a uma zona de guerra.
“There are areas where you see nothing but tree skeletons.”
“As this fire ripped through here, it took all the grass. There’s none left.”
Outro pecuarista, Homer Buell, da quarta geração de uma família de criadores, disse não ter visto antes um inverno tão seco. Embora sua propriedade não tenha sido atingida diretamente, ele relatou preocupação com os efeitos prolongados da estiagem e dos incêndios sobre a atividade pecuária.
- Mais de 40% de Nebraska estava em seca extrema no fim de março
- Cerca de metade da região das High Plains estava em seca severa
- Especialistas consideram improvável o pastoreio nas áreas queimadas ainda neste ano
Os efeitos podem continuar mesmo após o controle das chamas?
Sim. A reportagem destaca que os impactos podem se prolongar mesmo depois da extinção dos incêndios, principalmente se as chuvas de primavera e verão não forem suficientes para restaurar rapidamente as áreas queimadas. Comunidades rurais receberam feno doado de várias partes do país, transportado por voluntários, numa tentativa de reduzir os prejuízos imediatos.
Buell afirmou que a perda da fonte de alimentação do gado é um efeito secundário importante e que a situação pode se agravar se as chuvas não vierem na intensidade necessária. O texto também informa que dificuldades ligadas à seca afetam pastagens e reservas de água em estados como Texas e Oklahoma, segundo atualização federal divulgada em 2 de abril.
“The secondary effects are just as bad and maybe worse in some ways if you happen to get the rain after.”
“Now, if we don’t get rain – well, it’s really a very sad and bad situation.”
Os incêndios também fazem parte do funcionamento natural desses campos?
Especialistas ouvidos pelo Guardian afirmam que o fogo integra o funcionamento ecológico das pradarias e áreas de campo. Antes da ocupação por fazendas e ranchos, incêndios naturais e queimadas promovidas por povos indígenas ajudavam a renovar a vegetação e o solo. A professora Victoria Donovan, da Universidade da Flórida, disse que, apesar dos danos humanos e econômicos, incêndios de alta intensidade podem contribuir para restaurar o estado natural das pastagens.
Segundo a pesquisadora, a supressão do fogo e o avanço de arbustos e árvores sobre os campos aumentaram os riscos de comportamento extremo dos incêndios. Twidwell também avalia que práticas de manejo da terra podem ser revistas para preservar as pradarias diante do aquecimento do clima. Ainda assim, o texto destaca que, para os produtores atingidos, a prioridade imediata segue sendo a recuperação das áreas queimadas e a expectativa por chuvas que permitam a regeneração do pasto.