O vírus sincicial respiratório (VSR) também representa risco relevante para idosos no Brasil, segundo especialistas ouvidos em seminário realizado na última terça-feira (7), em São Paulo. A preocupação cresce em meio à expectativa de aumento dos casos no segundo trimestre de 2026, após o vírus responder por parte expressiva dos registros de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) com identificação viral no país. De acordo com informações da Agência Brasil, os dados reúnem informações do Ministério da Saúde, da Fiocruz e do Instituto Todos pela Saúde.
No primeiro trimestre deste ano, 18% dos casos de SRAG com identificação viral confirmada foram causados pelo VSR, de acordo com o Ministério da Saúde. Já o Boletim Infogripe, da Fiocruz, apontou que a participação do vírus passou de 14% entre fevereiro e março para 19,9% entre março e abril. Em 2025, o VSR foi o vírus mais prevalente por 23 semanas seguidas, de março a agosto. Dados de laboratórios privados compilados pelo Instituto Todos pela Saúde mostram ainda que, na semana encerrada em 4 de abril, 38% dos testes positivos para algum vírus detectaram o VSR, proporção 12 pontos acima da registrada na primeira semana de março.
Por que especialistas dizem que o impacto do VSR pode estar subestimado?
Para a pneumologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Rosemeri Maurici, os números conhecidos podem representar apenas parte do problema. Ela afirmou que a testagem para VSR passou a ser realizada em maior escala no Brasil somente a partir da pandemia de covid-19, o que dificulta a compreensão completa do impacto da infecção, sobretudo em adultos e idosos.
Muitos hospitais internam pacientes com síndrome respiratória aguda agrave, e eles até morrem, sem saber qual o agente que causou, porque não testaram ou testaram fora do prazo que é identificável.
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
Dos cerca de 27,6 mil casos de SRAG registrados no primeiro trimestre deste ano, o vírus causador foi identificado em 9.079 ocorrências, aproximadamente um terço do total. Além disso, quase 17% dos casos não foram testados. Segundo a especialista, isso ajuda a explicar por que a infecção aparece de forma mais expressiva nas estatísticas infantis, especialmente por ser a principal causa de bronquiolite, condição mais associada aos bebês.
Como o VSR afeta adultos mais velhos e pessoas com comorbidades?
Entre janeiro e março, dos 1.651 casos graves de infecção por VSR registrados, 1.342 ocorreram em menores de dois anos. Entre pessoas com mais de 50 anos, foram 46 casos confirmados. Mesmo assim, os dados de mortes indicam maior equilíbrio proporcional: das 27 mortes registradas neste ano, 17 foram em bebês de até dois anos e sete em idosos com 65 anos ou mais.
De acordo com a geriatra Maisa Kairalla, o envelhecimento e as doenças crônicas acumuladas ao longo da vida aumentam a vulnerabilidade dessa população. Ela destacou o efeito da imunosenescência, processo de declínio do sistema imunológico com o avanço da idade.
Só com o avanço da idade, a gente já tem a imunosenescência, que é o declínio do sistema imunológico, ou seja, mais chance de ter doenças infecciosas. Acontece que, no Brasil, também se envelhece com doenças crônicas.
Segundo as especialistas, também pesam nesse risco fatores como histórico de tabagismo e consumo de álcool. Dados da literatura médica apresentados por Maisa Kairalla mostram que o paciente idoso com VSR tem 2,7 vezes mais chance de desenvolver pneumonia e o dobro de chance de precisar de UTI, intubação e de morrer, em comparação com a influenza.
Quais problemas de saúde podem agravar a infecção pelo vírus sincicial?
Durante o seminário, o cardiologista Múcio Tavares afirmou que mais de 60% dos casos graves associados à infecção pelo vírus respiratório ocorrem em pacientes com alguma doença cardiovascular. Segundo ele, infecções virais respiratórias podem desencadear eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, como infarto, acidente vascular cerebral e piora da insuficiência cardíaca, devido ao processo inflamatório sistêmico.
O endocrinologista Rodrigo Mendes também alertou para a maior vulnerabilidade de pacientes com diabetes. De acordo com ele, a elevação da glicose no sangue pode aumentar a suscetibilidade a infecções e agravar quadros clínicos antes controlados. Outro grupo de maior risco é o de pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma grave e doença pulmonar obstrutiva crônica. Rosemeri Maurici afirmou que uma internação em UTI eleva em 70% a probabilidade de morte desses pacientes em até três anos.
Além disso, ele começa a sofrer a perda da função pulmonar de forma acelerada. E esses pacientes, uma vez internando, a probabilidade de eles internarem novamente é muito grande.
Como está a vacinação contra o VSR no Brasil?
A prevenção do agravamento da infecção por VSR pode ser feita com vacinação, mas os imunizantes voltados à população adulta ainda estão disponíveis apenas na rede privada. No Sistema Único de Saúde, o Programa Nacional de Imunizações oferece, por enquanto, a vacina para gestantes, com o objetivo de proteger os bebês nos primeiros meses de vida.
Segundo a reportagem, entidades médicas como a Sociedade Brasileira de Imunizações recomendam a vacinação para pessoas de 50 a 69 anos com comorbidades e para todos os idosos a partir dos 70 anos. A professora Rosemeri Maurici defendeu que sociedades médicas indiquem grupos prioritários à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, responsável por recomendar a adoção de novas terapias ao Ministério da Saúde.
- No primeiro trimestre, 18% dos casos de SRAG com vírus identificado foram causados por VSR.
- Entre março e abril, a participação do VSR chegou a 19,9%, segundo a Fiocruz.
- Na semana encerrada em 4 de abril, 38% dos testes positivos para vírus apontaram VSR em laboratórios privados.
- A vacinação para adultos segue restrita à rede privada.