Violência sexual pode aumentar em 74% a chance de desenvolvimento de problemas cardiovasculares em meninas e mulheres, segundo um estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública com base em dados oficiais brasileiros. A pesquisa foi divulgada neste domingo, 12 de abril de 2026, e analisou informações da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada no Brasil, para verificar como experiências de violência sexual se associam a doenças cardíacas e por que esse tema deve ser tratado como questão de saúde pública.
De acordo com informações da Agência Brasil, mulheres que sofreram violência sexual apresentaram níveis mais altos de infarto do miocárdio e arritmias em comparação com mulheres que não relataram esse tipo de violência. Já nos casos de angina e insuficiência cardíaca, o estudo não encontrou diferenças significativas.
Como o estudo chegou a essa conclusão?
O trabalho foi conduzido a partir de dados da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2019. Segundo a reportagem, esse levantamento é o principal estudo oficial sobre a saúde da população brasileira e foi elaborado com mais de 70 mil entrevistas representativas do país. Como o questionário investigou tanto episódios de violência sexual quanto a ocorrência de doenças cardíacas, os pesquisadores puderam cruzar essas informações.
O pesquisador Eduardo Paixão, do programa de pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará, explicou que a equipe utilizou ferramentas estatísticas para controlar fatores que também podem influenciar a ocorrência de doenças cardiovasculares. Entre eles, estavam idade, cor da pele, orientação sexual, escolaridade e região de moradia. Com isso, o estudo buscou isolar a associação entre a violência sofrida e o aumento do risco cardiovascular.
“A gente sempre pensa em explicações biológicas para as doenças, mas a saúde humana perpassa por muitas interações sociais que impactam o nosso bem-estar. Estudo em outros países já vinham mostrando uma associação muito forte, especialmente quando essa violência ocorre na infância e adolescência, às vezes com repercussões ao longo da vida”, explica Paixão.
Quais mecanismos podem explicar esse aumento do risco?
Segundo o pesquisador, a hipótese do grupo é que a violência sexual eleve o risco cardiovascular por uma combinação de fatores biológicos e comportamentais. Quadros de ansiedade e depressão, comuns entre vítimas, têm relação com doenças cardíacas. Além disso, o estresse gerado pelo trauma pode provocar alterações fisiológicas importantes.
“Ele aumenta a inflamação do nosso organismo, com a ativação de toxinas que podem acelerar esse processo de doença cardiovascular. Experiências traumáticas também podem alterar a pressão arterial e a frequência cardíaca”, explica o pesquisador.
A reportagem também destaca que pessoas expostas à violência, seja de forma isolada ou repetida, podem apresentar maior chance de desenvolver comportamentos prejudiciais à saúde. Entre os fatores mencionados estão:
- tabagismo;
- alcoolismo;
- uso de entorpecentes;
- alimentação inadequada;
- sedentarismo.
Esses elementos, conforme relatado no estudo, também contribuem para elevar os riscos cardiovasculares ao longo do tempo.
O que os dados mostram sobre a violência sexual no Brasil?
À Pesquisa Nacional de Saúde, 8,61% das mulheres relataram ter sofrido ao menos algum episódio de violência sexual ao longo da vida, ante 2,1% dos homens. Ainda assim, o pesquisador ressalta que esse tipo de violência é bastante subnotificado, especialmente entre homens, seja pela dificuldade de reconhecer a violência sofrida, seja pelo constrangimento em relatar o caso.
Na avaliação de Eduardo Paixão, essa subnotificação pode ajudar a explicar por que o estudo não identificou aumento da ocorrência de doenças cardiovasculares também entre homens vítimas de violência sexual. O resultado, portanto, não significa ausência de impacto, mas reflete limites do próprio registro dessas vivências nas bases de dados.
Por que o estudo pode influenciar o atendimento em saúde?
Para o pesquisador, uma das principais contribuições da pesquisa é chamar a atenção de profissionais que atendem vítimas de violência e também de equipes que acompanham pacientes com doenças cardiovasculares. A associação identificada sugere que o histórico de violência pode ser um fator relevante na prevenção e no cuidado de longo prazo.
“E essas são as doenças com a maior carga global. São muitas internações e gastos com procedimentos. Talvez, se a gente conseguir intervir em fatores de vida modificáveis, a gente consiga diminuir essa incidência”, conclui o pesquisador.
O estudo reforça, assim, que os efeitos da violência sexual não se restringem aos danos físicos e psicológicos imediatos. Segundo os dados analisados, o trauma pode repercutir de forma duradoura na saúde cardiovascular, ampliando a necessidade de políticas públicas e atenção integrada no sistema de saúde.