Utah avalia se deve receber e armazenar resíduos nucleares em um grande depósito de sal no condado de Millard, área rural do estado com histórico ligado à produção de energia. A discussão ganhou força no fim de janeiro, quando o Departamento de Energia dos Estados Unidos passou a buscar estados voluntários para sediar centros de inovação do ciclo nuclear. De acordo com informações do Grist, parlamentares republicanos e integrantes do governo estadual passaram a tratar a possibilidade como uma oportunidade econômica e energética, embora ainda não exista compromisso formal com um projeto específico.
A proposta surge em meio ao esforço de líderes republicanos de Utah para ampliar a participação da energia nuclear na matriz estadual. Cavernas abertas nesse depósito de sal já armazenam líquidos de gás natural, gasolina e outros combustíveis. Neste ano, o local também começou a receber armazenamento separado de hidrogênio para apoiar a transição da usina Intermountain Power Plant, que deixa a geração a carvão em direção a fontes sem emissões de carbono. O debate nos EUA interessa também ao Brasil porque envolve temas que aparecem na agenda energética brasileira, como expansão da geração nuclear, destinação de rejeitos radioativos e uso de infraestrutura de longo prazo para dar segurança ao sistema elétrico.
Por que Utah passou a discutir o armazenamento de resíduos nucleares?
No mesmo dia em que o governo federal abriu a seleção de estados interessados em sediar os chamados “campi de inovação do ciclo nuclear”, o senador estadual republicano Derrin Owens enviou um email a outros parlamentares, lobistas, investidores de private equity e autoridades do condado de Millard. A mensagem, obtida pelo jornal local Millard County Chronicle Progress e compartilhada com o The Salt Lake Tribune, defendia que Utah buscasse liderar o processo.
“Amigos”, escreveu Owens em 28 de janeiro, “AQUI ESTÁ — esta é a oportunidade de uma vida para Utah sediar um desses locais.”
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Owens afirmou ainda que o grupo já havia tentado preparar o terreno para oportunidades de armazenamento e reaproveitamento de resíduos nucleares com a Curio, startup sediada em Washington, D.C., que desenvolve um processo de reciclagem de combustível nuclear usado. Segundo o senador, a formação geológica de sal em Millard tornaria Utah especialmente atraente para esse tipo de instalação.
Qual é o papel do governo estadual e do condado de Millard?
Na mensagem, Owens pediu que os destinatários pressionassem o gabinete do governador Spencer Cox e o Utah Office of Energy Development a dialogar com o Departamento de Energia dos EUA e defender a candidatura do estado. No dia seguinte, Cox declarou ao E&E News que Utah avaliava se teria interesse em trabalhar com o governo federal nessa frente.
O gabinete do governador afirmou ao The Tribune que o estado ainda não se comprometeu com um projeto ou parceria específica. Em nota divulgada na semana passada, Cox defendeu a necessidade de energia confiável, acessível e abundante nos Estados Unidos e disse que a energia nuclear fará parte desse futuro, ao mesmo tempo em que o estado analisará o ciclo completo da atividade, incluindo reciclagem avançada, com foco em segurança, proteção ambiental, desenvolvimento da força de trabalho e uso responsável do dinheiro do contribuinte.
O Office of Energy Development se recusou a comentar a reportagem e também não forneceu registros relacionados ao interesse de Utah em sediar um campus do ciclo nuclear. Segundo o órgão, os documentos estariam protegidos por envolver negociações imobiliárias, sem detalhar mais.
Como a proposta é vista localmente?
No condado de Millard, a possibilidade divide opiniões. Parte dos moradores e lideranças locais vê o armazenamento de resíduos nucleares nas cavernas de sal como uma oportunidade de reforçar um mercado de trabalho fragilizado. Outros rejeitam a ideia.
“Eu não quero isso nem perto de nós”, disse Vicki Lyman, comissária do condado de Millard.
A defesa política do projeto também está ligada à visão de que Utah pode voltar a atender demandas energéticas de outros centros populacionais do Oeste dos EUA, especialmente em um contexto em que estados da Costa Oeste reduziram a dependência de carvão e combustíveis fósseis. Para aliados da proposta, o reaproveitamento de materiais nucleares poderia manter a atividade econômica em áreas rurais do interior enquanto responde à busca por energia sem carbono. No Brasil, discussões sobre energia nuclear costumam envolver segurança operacional, licenciamento ambiental e gestão de rejeitos, temas que também aparecem no debate americano.
Quem é a Curio e o que a empresa propõe?
Em setembro de 2024, Owens convidou o CEO da Curio, Edward McGinnis, para discutir com parlamentares em Utah a abordagem da empresa para resíduos nucleares. Fundada em 2021, a companhia recebeu US$ 15 milhões em financiamento seed em abril de 2024, segundo a Forbes. Em fevereiro de 2026, o Departamento de Energia anunciou que a Curio estava entre as beneficiárias de uma subvenção de US$ 19 milhões para aprofundar pesquisas e desenvolver reciclagem de combustível nuclear.
O principal ativo da empresa é o processo patenteado NuCycle, demonstrado em laboratório, mas ainda sem uso comercial. A Curio afirma que a reciclagem de urânio e zircônio provenientes de usinas nucleares usadas pode recuperar materiais valiosos, como minerais críticos e isótopos utilizados em tratamentos de câncer.
“Há centenas de bilhões de dólares em recursos e commodities” incorporados ao combustível radioativo usado atualmente armazenado em mais de 80 locais nos EUA, disse McGinnis aos parlamentares. “Somos um negócio de mineração.”
McGinnis também afirmou a parlamentares que, em uma usina típica, as barras de combustível irradiado ainda retêm cerca de 96% de seu valor energético. Segundo ele, a reciclagem avançada poderia reduzir o tempo necessário para o decaimento da radioatividade do fluxo de resíduos. O texto original terminava de forma truncada neste ponto e não apresentava a continuação da informação.