Trabalhadores migrantes que atuam na indústria de laticínios de Vermont, nos Estados Unidos, relatam jornadas extensas, salários abaixo do mínimo estadual e ausência de proteções trabalhistas básicas em um setor avaliado em US$ 5,4 bilhões. A situação envolve especialmente empregados rurais sem status migratório permanente, que, segundo a reportagem, seguem excluídos de regras de salário mínimo, pagamento de horas extras e do direito de sindicalização. De acordo com informações do Guardian Environment, o debate ganhou novo peso em meio ao aumento da fiscalização migratória e à paralisação de propostas legislativas no estado.
A reportagem acompanha o caso de Hilario, trabalhador de uma fazenda leiteira em Vermont, que afirma cumprir cerca de 60 horas semanais, distribuídas ao longo de sete dias, por US$ 650. Segundo seu relato, não há folgas, controle formal de ponto nem pagamento adicional quando surgem imprevistos, como falhas em equipamentos ou ferimentos em animais. Por temer por sua segurança, ele pediu para não ter o nome completo divulgado.
Por que os trabalhadores rurais dizem estar sem proteção em Vermont?
O texto informa que os trabalhadores agrícolas do estado continuam fora de garantias aplicadas a outras categorias. Isso inclui isenção das regras de salário mínimo, das proteções de horas extras e do direito de organização sindical. Segundo números citados pela organização Migrant Justice, Vermont tem 8.300 trabalhadores rurais, entre eles cerca de mil indocumentados.
Mais de nove em cada dez fazendas leiteiras de Vermont consultadas em um relatório estadual de 2025 empregavam mão de obra migrante. Ainda assim, o estado não consolidou em lei direitos básicos para essa força de trabalho. A reportagem destaca que essa vulnerabilidade contrasta com a imagem progressista associada a Vermont e com os valores defendidos por parte de suas lideranças políticas.
No contexto do segundo governo Trump, a pressão aumentou com o temor constante de detenção e deportação. A reportagem diz que o serviço de imigração dos Estados Unidos ampliou sua presença no estado e deteve integrantes da comunidade, incluindo três pessoas sem mandado, no início de março. O deputado estadual democrata David Durfee afirmou ao jornal que há trabalhadores vivendo “ainda mais nas sombras” do que no passado.
O que propuseram os parlamentares e por que o avanço travou?
Mais de um ano antes da publicação da reportagem, uma força-tarefa liderada por David Durfee recomendou a criação de salário mínimo e pagamento de horas extras para trabalhadores agrícolas. Ao mesmo tempo, rejeitou pedidos por negociação coletiva e sindicalização. Pelo menos dois projetos apresentados em 2025 para tratar dessas recomendações não avançaram, e o tema recebeu pouca atenção na sessão legislativa de 2026.
A deputada estadual Kate Logan, identificada como Progressive/Democrat de Burlington, criticou a prioridade dada à rentabilidade das fazendas em comparação com as condições de quem trabalha nelas. Em sua avaliação, o estado protege mais a viabilidade econômica das propriedades do que a capacidade de os empregados arcarem com despesas como aluguel.
Dados de uma pesquisa de 2024 com 212 trabalhadores hispanofalantes da indústria leiteira, realizada pela Migrant Justice, apontam que apenas 13% da força de trabalho do setor recebe o salário mínimo. No caso de Hilario, a remuneração por hora ficaria em cerca de US$ 11, mais de US$ 3 abaixo do piso estadual de US$ 14,42, segundo a reportagem.
Como a indústria leiteira de Vermont mudou nas últimas décadas?
O texto contextualiza que, desde a década de 1930, trabalhadores agrícolas nos Estados Unidos foram excluídos de direitos trabalhistas básicos, como salário mínimo e pagamento de horas extras. Vermont reforçou essa exclusão em lei estadual nos anos 1960. A permanência desse modelo, segundo a reportagem, ficou evidente em 2024, quando o estado ampliou direitos de sindicalização, mas retirou proteções para trabalhadores do campo na etapa final da tramitação.
Ao mesmo tempo, a estrutura produtiva do setor mudou. Se antes a atividade dependia sobretudo do trabalho de famílias proprietárias, hoje recorre a empregados contratados, em grande parte imigrantes do sul do México. Em nível nacional, os imigrantes já representam mais da metade dos trabalhadores da cadeia do leite, segundo estimativas citadas da National Milk Producers Federation.
A consolidação do setor também alterou o mapa produtivo de Vermont. Na década de 1940, havia 11 mil fazendas leiteiras no estado. Em 2024, restavam cerca de 480. Mesmo com menos propriedades, a produção cresceu: desde 2013, o número médio de vacas por fazenda aumentou quase 70%, para cerca de 250, e a renda estadual proveniente do leite dobrou na última década, de acordo com a reportagem.
O que os produtores rurais alegam sobre salários e custos?
Produtores ouvidos pela reportagem afirmam que operam sob um sistema de preços que deixa pouca margem para absorver custos trabalhistas maiores. O setor depende de um programa federal de precificação do leite com 89 anos, sujeito às oscilações da oferta e da demanda globais. Também pesa o fato de o leite ser perecível, o que obriga a comercialização frequente e torna a atividade intensiva em mão de obra, com ordenhas ao menos duas vezes por dia, e muitas vezes três.
Em uma fazenda de Derby, Andy Birch relatou que recebe menos pelos embarques de leite e que não conseguiu repor uma funcionária após a mudança da família dela para outro estado. Segundo ele, o valor do cheque quinzenal pago por seu comprador de leite caiu cerca de US$ 5.500 entre 2024 e 2025.
Representantes do setor afirmam que muitos empregadores remuneram adequadamente e oferecem benefícios indiretos. A Vermont Dairy Producers Alliance citou uma pesquisa de 2024, elaborada para o comitê de estudo sobre trabalho rural, segundo a qual mais de dois terços de seus membros pagavam o salário mínimo estadual. Já Brian Carpenter, ex-presidente da associação, disse ao comitê que, ao incluir custos como aquecimento, moradia e transporte, a remuneração ultrapassaria US$ 23 por hora. A reportagem observa, porém, que o levantamento não detalhou quando, como ou com quantos participantes foi realizado.
- Trabalhadores agrícolas seguem excluídos de salário mínimo, horas extras e sindicalização, segundo a reportagem.
- Mais de nove em cada dez fazendas leiteiras consultadas em 2025 empregavam mão de obra migrante.
- Propostas legislativas para ampliar proteções não avançaram em 2025 e tiveram pouca atenção em 2026.
- Produtores alegam restrições econômicas e baixa margem para elevar custos de trabalho.
O cenário descrito pelo Guardian mostra um impasse entre a dependência estrutural da mão de obra migrante e a resistência política e econômica à ampliação de direitos formais no campo. Enquanto trabalhadores e organizações denunciam precarização e medo crescente diante da fiscalização migratória, produtores afirmam enfrentar um mercado pressionado e um modelo de remuneração que limita mudanças mais rápidas.