O tabagismo aumentou no Brasil durante a pandemia de Covid-19, com maior incidência de novos fumantes entre jovens adultos de 18 a 29 anos, pessoas sem companheiro e a população negra, segundo estudo conduzido por pesquisadores da UFMG e da Fiocruz e publicado em 24 de abril de 2026. De acordo com informações da Agência Bori, o consumo de álcool foi o principal preditor de iniciação ao cigarro no período, elevando em 6,5 vezes a chance de começar a fumar.
O levantamento mostra que a proporção de pessoas que fumavam no país passou de 10,35% antes da pandemia para 15,88% no auge da crise sanitária, estabilizando-se depois em 12,2%, acima do patamar anterior. Os achados foram publicados na Revista Brasileira de Epidemiologia e são liderados pela pesquisadora Deborah Carvalho Malta.
Quem foram os grupos mais vulneráveis ao início do tabagismo?
Segundo o estudo, os jovens adultos entre 18 e 29 anos apareceram como o grupo mais vulnerável à iniciação do tabagismo durante a pandemia. A pesquisa relaciona esse resultado ao sofrimento vivido por essa faixa etária no período, marcado por isolamento social, menor interação com amigos e dificuldades para lidar com situações estressoras.
Pessoas sem companheiro também figuram entre as mais vulneráveis, de acordo com os pesquisadores, porque a presença de um parceiro pode funcionar como fonte de apoio e suporte social. Já a população negra apresentou maior risco, em associação a fatores socioeconômicos, ao impacto do racismo, ao menor acesso a apoio psicossocial e à maior exposição a situações de estresse ao longo da vida.
“Há uma associação importante entre o cigarro e a saúde mental. O cigarro acaba sendo usado quase como uma muleta em situações de estresse para manter a estabilidade emocional”, diz Malta.
Qual foi o principal fator associado ao surgimento de novos fumantes?
De acordo com os resultados, o aumento do consumo de álcool foi o fator com maior poder de predição para a iniciação ao tabagismo durante a pandemia. Entre as pessoas que passaram a beber mais, a chance de começar a fumar foi 6,5 vezes maior, conforme o estudo epidemiológico.
A pesquisa utilizou dados da ConVid 2 — Pesquisa de Comportamentos, coletados entre julho e dezembro de 2023. A metodologia adotada foi a amostragem em cadeia virtual, conhecida pela sigla RDS, em que participantes recrutam novos participantes a partir de suas redes de contato online.
- Antes da pandemia: 10,35% da população fumava
- No ápice da crise: 15,88%
- No pós-pandemia: 12,2%
- Chance maior de começar a fumar entre quem bebia mais: 6,5 vezes
O que o estudo indica para políticas públicas de saúde?
Os pesquisadores defendem ações integradas que associem saúde mental e controle do tabaco. O estudo também é apresentado como alerta para possíveis retrocessos nas metas de saúde de 2030, especialmente diante da pressão pela liberação de novos produtos de tabaco.
“Acendemos o sinal amarelo, pois o tabagismo voltou a crescer no Brasil, especialmente entre jovens e adolescentes, impulsionado por esses novos produtos. Precisamos avançar na regulação, punição das redes sociais que vendem ilegalmente, fiscalização e campanhas educativas”, afirma Malta.
Ao final, os autores indicam que futuras investigações devem se concentrar no impacto de produtos como vapes e cigarros eletrônicos. Segundo o texto, a popularização desses dispositivos e a ausência de indicadores específicos sobre eles no estudo atual limitaram uma análise mais profunda de sua influência sobre a iniciação ao tabagismo.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Fundação Oswaldo Cruz. O estudo citado no material foi publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia.