Os robôs humanoides vêm ganhando espaço em aplicações industriais e voltaram ao centro do debate após a circulação de imagens da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, caminhando brevemente com o modelo Figure 03, da Figure AI, antes de um evento na Casa Branca, em 26 de março de 2026. A discussão também foi impulsionada por projeções de mercado, anúncios de fabricantes e avaliações de executivos e pesquisadores sobre o ritmo de adoção dessas máquinas em fábricas, comércios e, de forma mais limitada, residências. Para o Brasil, o tema interessa sobretudo pelo possível impacto futuro sobre a automação industrial, a logística e o varejo, setores em que o país já busca ganhos de produtividade. De acordo com informações do Olhar Digital, o setor vive uma transição entre demonstrações tecnológicas e usos práticos no mundo real.
O tema ganhou nova repercussão também após reportagem do China Daily sobre a Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia de 2026, realizada na semana de 23 a 28 de março de 2026. Segundo líderes do setor citados no evento, a robótica humanoide está deixando de se concentrar apenas em desempenho de demonstração para buscar aplicações industriais escaláveis, embora ainda enfrente obstáculos relevantes em dados, segurança e funções cognitivas. O debate internacional também é acompanhado no Brasil porque avanços de fabricantes dos Estados Unidos e da China costumam influenciar custos, cadeias de suprimentos e o ritmo de adoção de novas tecnologias em outros mercados.
Quanto vale o mercado de robôs humanoides?
Uma projeção divulgada pela Morgan Stanley em maio de 2025 estima que o mercado de humanoides poderá atingir US$ 5 trilhões até 2050, considerando também cadeias de suprimentos relacionadas, reparo, manutenção e suporte. O banco também projetou que pode haver mais de 1 bilhão de humanoides em uso até 2050, com aceleração da adoção a partir do fim da década de 2030.
Apesar da magnitude desses números, o próprio texto ressalta que estimativas para um horizonte como 2050 devem ser lidas com cautela. Fatores como inflação, poder de compra e oscilações financeiras podem alterar de forma relevante a percepção de preço e viabilidade comercial ao longo do tempo.
Onde esses robôs devem ser usados primeiro?
Segundo a Morgan Stanley, cerca de 90% dos robôs humanoides em operação até 2050 devem ser destinados a trabalhos repetitivos, principalmente em indústrias e comércios. O uso doméstico aparece de forma mais conservadora na previsão, com 80 milhões de unidades em residências até 2050.
“A previsão para o uso doméstico é muito mais conservadora, com apenas 80 milhões de humanoides em residências até 2050. Não veremos um robô em cada casa da noite para o dia.”
A avaliação atribuída a Adam Jonas, chefe de pesquisa global de automóveis e mobilidade compartilhada do Morgan Stanley, reforça a leitura de que a expansão mais rápida deve ocorrer em ambientes estruturados, onde tarefas, circulação e segurança podem ser mais facilmente padronizadas.
China e Estados Unidos lideram essa corrida?
Nas projeções citadas, a China deve concentrar o maior número de robôs humanoides em uso até 2050, com 302,3 milhões de unidades. Os Estados Unidos aparecem em seguida, com 77,7 milhões. No uso doméstico, porém, o quadro muda: cerca de 10% dos domicílios americanos poderiam ter um humanoide até 2050, somando 15 milhões de unidades, enquanto na China a estimativa é de 3% dos lares, com cerca de quatro milhões.
O texto também destaca o protagonismo chinês em demonstrações públicas dessa tecnologia. Em fevereiro, o país exibiu robôs humanoides no Festival da Primavera da CCTV, com apresentações de dança e artes marciais durante as comemorações do Ano Novo Lunar. Em agosto do ano passado, a China também realizou os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, reunindo centenas de máquinas de 280 equipes e empresas de 16 países.
Quanto custam os robôs humanoides hoje?
A Morgan Stanley Research estima que o custo de um robô humanoide era de aproximadamente US$ 200 mil em 2024 em países de alta renda. A projeção é de queda para cerca de US$ 150 mil em 2028 e US$ 50 mil em 2050. Em países de baixa renda, os preços podem cair para até US$ 15 mil em 2050.
“Para que esses humanoides cheguem aos lares, os preços precisam cair significativamente, em paralelo com a aceitação regulatória e social desse uso”
No mercado atual, o texto cita a empresa chinesa Unitree como uma das principais do setor. O modelo G1, mais simples, é anunciado por US$ 13.500 no site oficial, enquanto o H1, mais avançado, custa US$ 90 mil. Nos Estados Unidos, a Tesla informou em janeiro que encerraria a produção dos modelos Model S e Model X para concentrar esforços no Optimus, seu robô humanoide em desenvolvimento.
Quais são os principais entraves para adoção em larga escala?
Na Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia de 2026, executivos e cientistas apontaram gargalos em três frentes principais: hardware, dados e modelos cognitivos. Xiong Youjun, do Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Pequim, descreveu essa evolução como uma combinação entre corpo físico, cerebelo, responsável pelo movimento, e cérebro, ligado à cognição e à decisão.
Shao Hao, da Vivo chinesa, identificou os dados como o principal desafio para um salto mais amplo da robótica. Segundo ele, ao contrário dos modelos de linguagem treinados com grandes volumes de texto, os robôs dependem de dados multidimensionais, o que dificulta o treinamento em larga escala. Ele também mencionou barreiras de segurança e regulação para a chegada desses sistemas ao ambiente doméstico.
- Custos ainda elevados de fabricação
- Dificuldade de obter dados multidimensionais para treinamento
- Desafios de segurança em ambientes domésticos
- Necessidade de regulação e aceitação social
- Padronização mais complexa fora de ambientes industriais
