As vendas de relógios analógicos voltaram a crescer no Brasil após uma década de avanço dos dispositivos inteligentes, segundo dados e relatos de empresas do setor publicados nesta quarta-feira, 23 de abril de 2026. O movimento envolve fabricantes tradicionais, redes de joalheria e consultorias, que apontam a ressignificação do produto como acessório de moda, símbolo de conquista, item de coleção e, em alguns casos, reserva de valor. De acordo com informações do Valor Empresas, o mercado brasileiro movimentou US$ 788 milhões no varejo em 2025, desconsiderando os smartwatches.
Segundo a Euromonitor, esse resultado representa uma expansão de 52,5% entre 2020 e 2025, quando o setor partia de US$ 516 milhões. Apenas no último ano, a alta foi de 2,9% em valor no país, mantendo uma trajetória de crescimento ao longo da década, apesar do receio inicial de que os relógios tradicionais perdessem espaço com a chegada dos modelos inteligentes.
Por que os relógios analógicos voltaram a crescer?
Na avaliação de executivos ouvidos pela reportagem original, o relógio deixou de ser visto apenas como instrumento para marcar as horas. Joaquim Ribeiro, presidente do Grupo Technos, afirmou que o produto ganhou novos significados ligados a moda, coleção e status social. A estratégia da companhia incluiu o relançamento de modelos históricos. Em 2024, no centenário da marca, a Technos colocou no mercado edições numeradas com maquinismo suíço, que se esgotaram mesmo com preços de até R$ 6 mil.
A consultoria MCF também associa esse avanço a uma dinâmica aspiracional. Para Martin Gutierrez, sócio e copresidente da empresa, a valorização dos relógios de altíssimo luxo ajudou a elevar a percepção de valor de toda a categoria. Ele disse ao Valor que esse movimento se espalha para faixas intermediárias de consumo, reforçando o papel do relógio como elemento de diferenciação, especialmente no público masculino.
“A estratégia de escassez de marcas de altíssimo luxo, como a Rolex, elevou a percepção de valor de toda a categoria. O que o indivíduo no topo busca torna-se aspiracional para os segmentos intermediários de consumo”.
Quais empresas e números ilustram esse movimento?
O Grupo Technos, líder do mercado desde os anos 1970, encerrou 2025 com o melhor desempenho financeiro de sua história. A empresa registrou receita bruta de R$ 562,8 milhões, alta de 21,2% sobre o ano anterior, além do 22º trimestre consecutivo de crescimento do Ebitda ajustado. Ribeiro relatou que a recuperação ocorreu após um período de queda entre 2014 e 2018, quando a companhia tentou se afastar do negócio principal.
A Vivara também apresentou avanço na categoria. Em 2025, o faturamento com relógios chegou a R$ 536,2 milhões, alta de 20,9%. O desempenho superou o crescimento das joias da marca principal, de 17,1%, e da Life, de 15,1%. Com isso, a rede ampliou sua participação no mercado brasileiro de joias e relógios para 24,4%, um avanço de 2,8 pontos percentuais em um ano.
- Mercado brasileiro de relógios em 2025: US$ 788 milhões
- Crescimento entre 2020 e 2025: 52,5%
- Alta em 2025 no Brasil: 2,9%
- Receita bruta do Grupo Technos em 2025: R$ 562,8 milhões
- Faturamento da Vivara com relógios em 2025: R$ 536,2 milhões
Como os smartwatches e a busca por durabilidade influenciam o setor?
Em vez de substituir totalmente os modelos tradicionais, os smartwatches passaram a conviver com eles, segundo os executivos citados. Ribeiro afirmou que o dispositivo inteligente recolocou o relógio no cotidiano de uma geração que não usava nada no pulso. Nesse cenário, o uso se divide: os modelos inteligentes aparecem ligados a saúde e esporte, enquanto os analógicos são associados a ocasiões sociais e formais.
Outro fator apontado no texto original é a procura por produtos mais duráveis. Rodrigo Anzanello, diretor de produtos da Orient Brasil, disse que parte dos consumidores passou a questionar a substituição frequente de eletrônicos. A empresa, segundo ele, registrou crescimento de dois dígitos acima do mercado em 2025. A produção local em Manaus é apresentada como diferencial competitivo para marcas com atuação global.
“O consumidor está questionando a obsolescência digital e buscando produtos que atravessam gerações. O relógio automático, montado à mão e autossuficiente em energia, é o contraponto perfeito à tecnologia que ‘morre’ em três anos”.
O que pode sustentar o setor em 2026?
Além do apelo aspiracional, o texto aponta fatores industriais e macroeconômicos. Na Technos, a produção ocorre na Zona Franca do Amazonas, com volume anual de 2,5 milhões de relógios. Segundo Ribeiro, 80% do faturamento vem de marcas próprias, o que ajuda a preservar margens e sustentar a renovação de design. Cerca de 35% das vendas anuais da companhia vêm de novos lançamentos.
O comportamento de compra também teria sido influenciado pela valorização de metais preciosos em 2025. Ribeiro afirmou que a alta de aproximadamente 50% a 60% do ouro e de quase 130% da prata levou parte dos consumidores a migrar de joias para relógios em joalherias. Com dívida líquida de R$ 8,7 milhões ao fim de 2025, o Grupo Technos avalia que tem margem para enfrentar um ambiente mais incerto em 2026. Segundo a reportagem, o setor aposta em lançamentos e no ambiente digital para manter o ciclo de crescimento, em um ano marcado por Copa do Mundo e eleições.