A 450 MHz Alliance avalia o uso de novas faixas de espectro para redes celulares privativas e defende maior padronização global desse mercado, hoje concentrado em bandas como 450 MHz e entre 3,5 GHz e 4 GHz. Em entrevista publicada nesta sexta-feira, 24 de abril de 2026, o chairman Gösta Kallner afirmou que frequências como 380 MHz e 1,5 GHz podem ganhar relevância no longo prazo, em um cenário que envolve indústrias, concessionárias de energia, operadores de segurança pública e reguladores em vários países. De acordo com informações do Mobile Time, a entidade acompanha diferentes bandas para fortalecer o ecossistema de redes móveis privadas.
Segundo Kallner, a missão da organização é apoiar setores que constroem redes móveis privadas independentemente do espectro, embora o foco histórico esteja em 450 MHz por se tratar de uma faixa com presença global. Ele também disse que a aliança busca orientar indústrias e reguladores sobre a seleção de frequências para redes públicas ou privadas, em vez de restringir sua atuação apenas a serviços de missão crítica.
Quais faixas estão hoje mais consolidadas para redes celulares privativas?
Na avaliação do chairman da 450 MHz Alliance, há duas bandas principais em uso atualmente:
- faixas na casa de 400 MHz;
- espectro entre 3,5 GHz e 4 GHz, onde se insere o CBRS, nos Estados Unidos.
Ele acrescentou que a Ásia começa a adotar 4,9 GHz e que também existem usos pontuais em 2,3 GHz e 2,6 GHz. Para o longo prazo, mencionou expectativa de evolução em frequências entre 600 MHz e 700 MHz e também em 1,5 GHz. No caso de 700 MHz, citou exemplos voltados à segurança pública, como a FirstNet, nos Estados Unidos, e a banda 68, na Europa.
Ao comparar implantação e volume de investimento, Kallner diferenciou quantidade de redes e tamanho dos projetos. Segundo ele, a faixa entre 3,5 GHz e 4 GHz reúne o maior número de redes celulares privativas no mundo. Já em termos de investimento, ele apontou maior peso para 450 MHz e 700 MHz, por abrigarem redes maiores, inclusive de alcance nacional, em países como Alemanha, Polônia, Arábia Saudita, Holanda e Áustria.
Quais mercados são apontados como mais desenvolvidos?
Na entrevista, os Estados Unidos aparecem como um dos mercados mais avançados por contarem, segundo Kallner, com 900 MHz, 1,6 GHz e CBRS disponíveis há mais tempo, além de 700 MHz para a FirstNet. Ele observou, porém, que essas faixas não estão liberadas de forma uniforme em todos os estados norte-americanos.
A Alemanha também foi citada pelo desempenho em 3,5 GHz e 3,7 GHz, assim como o Reino Unido. Sobre a Europa, Kallner afirmou que a força das redes móveis convencionais e o uso combinado com Wi‑Fi tendem a tornar o crescimento das redes privativas mais lento. Ele também mencionou a China, ainda que com ressalvas sobre a dificuldade de acompanhar integralmente o que ocorre no país.
Na América Latina, o executivo afirmou que o Brasil é provavelmente pioneiro no espectro privado, embora o ambiente regulatório tenha restrições e múltiplos parâmetros. Na avaliação dele, a Anatel adotou uma abordagem positiva ao disponibilizar espectro para esse tipo de aplicação.
Quais setores lideram os investimentos e onde estão as maiores redes?
Kallner disse que a FirstNet provavelmente é a maior rede em número de estações rádio base, mas ponderou que ela é construída pela AT&T e, por isso, não seria inteiramente privativa. Sem considerar esse caso, ele afirmou que algumas das maiores redes podem estar na China, embora tenha destacado a expectativa de que a rede da Saudi Aramco se torne uma das maiores até o fim do ano, por meio da subsidiária Aramco Digital, com foco em petróleo e gás, energia e outras indústrias na Arábia Saudita.
Sobre os setores que mais investem, ele diferenciou escala e quantidade de projetos. De acordo com sua análise, as concessionárias de energia lideram em escala, enquanto a manufatura aparece com maior número de redes implantadas.
Como está a discussão sobre 450 MHz, 410 MHz, 380 MHz e 250 MHz?
Ao comentar o caso brasileiro, Kallner foi questionado sobre o impasse envolvendo a faixa de 450 MHz, que já passou por operadoras, foi devolvida e hoje é usada por concessionárias de energia, após mudanças na condução regulatória da Anatel. Em resposta, ele citou a Noruega como um dos poucos casos em que a frequência ainda integra uma oferta comercial, embora em processo de desativação. Também mencionou que Suécia e Dinamarca já encerraram esse tipo de serviço na faixa.
Segundo o chairman, uma das vantagens do 450 MHz para redes privadas é justamente a ausência de dispositivos de consumo em massa, o que reduz a disputa por acesso em situações críticas. Ele argumentou que, em bandas com presença de aparelhos voltados ao consumidor, como 700 MHz, grandes incidentes podem elevar o ruído e degradar os serviços.
Sobre 410 MHz, Kallner afirmou que a faixa ficou de três a cinco anos atrás de 450 MHz porque sua padronização para LTE ocorreu mais tarde, mas disse ver crescimento nesse espectro. Citou Argentina e Arábia Saudita como exemplos de países onde 450 MHz e 410 MHz já estão disponíveis ou em uso.
Ele também apontou 380 MHz como uma faixa observada para o longo prazo, por ser uma banda tradicionalmente associada a Tetra P25 e que, na visão da entidade, pode futuramente evoluir para 4G, 5G e 6G. Já 250 MHz, segundo Kallner, permaneceu muito isolada no Brasil e na China, o que limita escala e volume para formar um ecossistema mais robusto.
“Nossa missão é promover e apoiar indústrias que constroem redes móveis privadas, independentemente do espectro, embora a gente se concentre em 450 MHz porque é um espectro global.”
A entrevista publicada pelo Mobile Time foi interrompida no trecho final sobre a avaliação de Kallner a respeito do dilema enfrentado por fornecedores de equipamentos, que buscam atender redes privativas sem se indispor com operadoras móveis, seus principais clientes. Assim, não há no material disponibilizado a conclusão dessa resposta.