Uma equipe de mergulhadores instalou caixas de som à prova d’água no fundo do mar, perto da costa norte da Jamaica, para tentar atrair vida marinha e ajudar na recuperação de um recife de coral degradado. A iniciativa reproduz sons de um recife saudável por 14 horas por dia, com energia fornecida por painéis solares na superfície, em meio ao avanço do branqueamento e da perda de corais provocados pelo aquecimento dos oceanos. De acordo com informações do Guardian Environment, o projeto reúne mergulhadores, pesquisadores e uma fundação local de conservação.
A ação ocorre em uma área da costa norte jamaicana e é liderada pelo artista italiano Marco Barotti, que passou a desenvolver esculturas baseadas em escaneamentos 3D de corais após se interessar por pesquisas sobre o uso do som na revitalização de recifes. Segundo a reportagem, a lógica é que peixes e pequenos organismos marinhos usam o som para se orientar no oceano e localizar habitats, o que poderia favorecer a repovoação de áreas degradadas.
Como o som pode ajudar um recife de coral degradado?
Embora o ambiente subaquático possa parecer silencioso ao ouvido humano, um recife saudável produz uma grande variedade de sons, como estalos de camarões, ruídos de peixes e o movimento das correntes. Já um recife em deterioração tende a ficar mais silencioso. A proposta do chamado enriquecimento acústico é justamente reintroduzir esse ambiente sonoro para tornar a área novamente atraente à fauna marinha.
Barotti resumiu essa relação entre som e vitalidade do ecossistema em uma declaração reproduzida pela reportagem:
“If a reef is alive with sound it’s most likely to stay alive right? And repopulate. And when reefs degrade they grow silent.”
Na prática, o projeto utiliza “caixas de som subaquáticas” que transmitem gravações de um recife saudável ao longo do dia. A ideia é complementar outras estratégias de restauração já empregadas na região, sem substituir as medidas biológicas de recuperação dos corais.
O que as pesquisas citadas indicam sobre o enriquecimento acústico?
A reportagem menciona um estudo publicado na revista Nature sobre a Grande Barreira de Corais, na Austrália, que apontou resultados positivos dessa técnica. Segundo o texto, a reprodução de sons de recifes saudáveis atraiu peixes para áreas degradadas e dobrou a população total de peixes em seis semanas. O estudo também registrou aumento de 50% na diversidade de espécies, um fator considerado importante para a resiliência de longo prazo desses ambientes.
Os recifes de coral ocupam apenas 1% do fundo do oceano, mas sustentam 25% de toda a vida marinha, de acordo com os dados citados pela reportagem. Além de sua importância ecológica, eles também têm papel na oferta de alimentos e na proteção de zonas costeiras contra tempestades intensas.
O texto informa ainda que, desde 1950, o mundo perdeu aproximadamente metade de seus recifes de coral por causa da sobrepesca, da poluição e da crise climática. O aquecimento global, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, elevou a temperatura dos mares e contribuiu para ondas de calor marinhas, fenômeno associado ao branqueamento dos corais.
Por que os recifes do Caribe estão sob pressão?
Segundo a reportagem, uma onda recorde de calor marinho em 2023 transformou as águas do Caribe em uma espécie de “banheira quente”, levando os corais a expulsarem as algas coloridas que vivem em seus tecidos. Esse processo, conhecido como branqueamento, deixa os corais esbranquiçados, enfraquecidos e mais vulneráveis a doenças.
A instrutora de mergulho Lee-Ann Rando, descrita como mergulhadora de segunda geração, relatou ter acompanhado essa deterioração ao longo da última década. Em uma das falas reproduzidas pela reportagem, ela afirmou:
“It’s getting quieter.”
Em outro trecho, ela também descreveu o impacto de ver recifes branqueados em 2023:
“You just feel hopeless. You feel like, ‘Am I ever gonna see this again?’”
Esses relatos ajudam a dimensionar a mudança percebida no ambiente marinho e reforçam o objetivo do projeto: devolver sinais de vitalidade a um ecossistema em declínio.
Quem participa da iniciativa na Jamaica?
O projeto sonoro foi concebido para reforçar o trabalho da Alligator Head Foundation, organização local que atua na conservação de recifes. O chefe de pesquisa da fundação, Dexter Dean Colquhoun, afirmou à reportagem que a abordagem acústica se encaixa no esforço de restaurar os recifes por diferentes métodos.
Enquanto os alto-falantes reproduzem o som de um recife saudável, a pesquisadora Bethany Dean trabalha em laboratório com fragmentos de coral e técnicas de reprodução assistida. A proposta é favorecer a reprodução em um contexto de aquecimento dos oceanos, no qual a reprodução natural enfrenta dificuldades.
De acordo com a reportagem, esses fragmentos cultivados em laboratório são posteriormente fixados às esculturas subaquáticas produzidas por Barotti. O resultado combina arte e ciência em uma tentativa de substituir o silêncio de um recife degradado pelos sinais acústicos e biológicos de um ecossistema mais ativo.
- Local da iniciativa: costa norte da Jamaica
- Método usado: reprodução de sons de recifes saudáveis
- Duração diária do áudio: 14 horas
- Fonte de energia: painéis solares na superfície
- Apoio local: Alligator Head Foundation
Ao apresentar essa experiência, a reportagem destaca uma frente de restauração que busca aumentar as chances de recuperação dos recifes, sem dissociar o problema de sua causa mais ampla: o aquecimento dos oceanos ligado à crise climática.