A Cleveland-Cliffs Middletown Works planeja reformar o alto-forno de sua usina de aço em Middletown, Ohio, nos Estados Unidos, o que pode garantir o funcionamento com carvão por mais 15 a 18 anos e gerar preocupação entre moradores locais que relatam problemas respiratórios graves decorrentes da poluição. A decisão ocorre após o fim de um subsídio de US$ 500 milhões da administração anterior para substituir o sistema por tecnologia a hidrogênio.
De acordo com informações do The Guardian, o projeto de reforma do alto-forno, avaliado em várias centenas de milhões de dólares, foi revelado em documentos de licenciamento da Ohio Environmental Protection Agency publicados até 29 de março de 2026. Embora o caso seja local, ele dialoga com um debate mais amplo sobre o futuro da siderurgia, setor relevante também para o Brasil, um dos maiores produtores de aço do mundo.
O que motivou a decisão da Cleveland-Cliffs?
A empresa decidiu manter a operação com coque, combustível derivado do carvão, em vez de adotar a tecnologia a hidrogênio, que reduziria drasticamente as emissões. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, nasceu e foi criado em Middletown, e sua família tem ligação histórica com a usina, onde seu avô trabalhou por anos.
Moradores como Vivian Adams relatam piora significativa na saúde de seus filhos desde que se mudaram para a região. A filha de seis anos dela, que nasceu prematura, teve agravamento da asma e precisa de medicação diária e inalador de resgate.
“Minha filha nasceu prematura, então já tinha problemas pulmonares. Isso piorou. Ela vive doente, tossindo e não consegue respirar.”
Quais são os riscos ambientais e de saúde para a população?
A usina Cleveland-Cliffs Middletown Works está entre os dez maiores emissores de óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre e monóxido de carbono no estado de Ohio, segundo relatório de 2024 da Industrious Labs. A instalação vizinha, SunCoke Energy, também é citada no relatório como fonte adicional de poluição industrial na região.
Segundo estimativas da organização, mantidos os níveis atuais de poluição, a reforma pode resultar em entre 810 e 1.476 mortes prematuras, além de 132.300 dias escolares perdidos nos próximos 18 anos na região.
- A usina é a 11ª maior emissora de monóxido de carbono dos Estados Unidos
- As duas instalações juntas respondem por mais da metade dos impactos à saúde causados por poluição de aço e coque em Ohio
- Os custos anuais com saúde no estado são estimados entre US$ 1,3 bilhão e US$ 2,3 bilhões
A CEO da empresa, Lourenco Goncalves, havia anunciado planos de modernização usando carvão e coque, alinhando-se à postura da administração Trump-Vance, que criticava projetos de energia limpa.
Como a decisão afeta o histórico de JD Vance?
JD Vance já se manifestou contra projetos de energia limpa, chamando-os de “scam” (“fraude”, em inglês). Suas campanhas eleitorais receberam apoio financeiro de empresas do setor de combustíveis fósseis. A usina fica a poucos quilômetros de onde ele cresceu.
Vivian Adams, que aluga uma casa a poucos metros da usina, afirma que a fuligem preta cobre móveis, carros, brinquedos e roupas. Ela relatou que a empresa envia equipes para lavar a sujeira das residências, mas o serviço é feito de forma precária.
“Sentamos em nossas cadeiras e há um monte de coisa preta nelas, no carro; é fuligem. Está nos brinquedos das crianças, então não dá para deixá-los do lado de fora.”
A reforma do alto-forno, instalado originalmente na década de 1950, permitirá a produção anual de cerca de três milhões de toneladas de aço bruto, consumindo centenas de milhares de toneladas de coque por ano.
A Cleveland-Cliffs também anunciou a reforma de outro alto-forno em sua unidade de Burns Harbor, no estado de Indiana, próxima ao Parque Nacional Indiana Dunes e ao Lago Michigan.
Apesar das tarifas impostas pelo governo Trump, que reduziram as importações de aço em 12,6%, o setor siderúrgico americano cresceu apenas 3% no ano passado. A própria Cleveland-Cliffs registrou prejuízo consolidado de US$ 600 milhões em 2025 e realizou demissões.
