A Polícia Federal (PF) deflagrou na última quarta-feira, 15, uma grande ofensiva contra o crime organizado que resultou na prisão do funkeiro MC Ryan SP e de outros alvos proeminentes da internet brasileira. A ação, batizada de Operação Narco Fluxo, desbaratou uma rede complexa de lavagem de dinheiro que teria movimentado a impressionante cifra de R$ 1,6 bilhão. De acordo com as autoridades, os recursos ilícitos pertencem à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e eram branqueados por meio de plataformas de apostas ilegais e esquemas de rifas na internet. A investigação aponta que a influenciadora digital Deolane Bezerra desempenhava um papel crucial na engrenagem financeira da organização criminosa.
As diligências revelaram que o entretenimento digital e a influência nas redes sociais tornaram-se ferramentas ativas para a ocultação de patrimônio ilícito. Segundo o inquérito, a estrutura sob a liderança do cantor de funk utilizava empresas de fachada e contas de terceiros para distanciar o dinheiro oriundo do narcotráfico e de outras atividades criminosas de sua origem real, inserindo-o no sistema financeiro formal através das chamadas “bets”.
Como funcionava a lavagem de dinheiro por meio de apostas?
De acordo com informações do Estadão, que teve acesso exclusivo ao relatório da Operação Narco Fluxo, a tática do grupo consistia em injetar volumes massivos de capital ilícito em plataformas de apostas esportivas e cassinos virtuais. A dinâmica dessas plataformas permite a rápida circulação de valores, dificultando o rastreamento por parte dos órgãos de controle financeiro, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Conforme destacado também em reportagem da Jovem Pan, a Polícia Federal reuniu um conjunto robusto de indícios que atestam a materialidade dos crimes financeiros. O montante de R$ 1,6 bilhão ilustra a magnitude da operação arquitetada em benefício do PCC. Os investigadores detalharam que o fluxo financeiro dependia diretamente da capacidade de pulverizar o dinheiro em múltiplas transações digitais, muitas vezes estimuladas pela promoção de rifas e jogos de azar divulgados massivamente para milhões de seguidores nas redes sociais dos investigados.
Qual era o papel de Deolane Bezerra como conta de passagem?
A influenciadora e advogada Deolane Bezerra já havia entrado no radar das autoridades recentemente por ser o alvo central da Operação Integration, que também investiga a suspeita de lavagem de capitais oriundos de rifas e jogos de apostas ilegais. No desdobramento da Operação Narco Fluxo, a Polícia Federal identificou que ela atuava diretamente como uma “conta de passagem” dentro do esquema liderado pelo funkeiro paulista.
O conceito de conta de passagem no direito penal econômico refere-se à utilização de contas bancárias de terceiros para receber fundos e, em seguida, transferi-los rapidamente para outras destinações, quebrando a cadeia de rastreabilidade do dinheiro. Sobre o comportamento financeiro da investigada, o relatório oficial das autoridades é categórico e levanta sérias suspeitas sobre a evolução patrimonial apresentada nos últimos anos.
sugerem o uso da liquidez financeira para aquisição de bens de alto valor e ações de limpeza de imagem
Quem são os outros investigados na operação da PF?
Além do líder apontado pela investigação e da influenciadora digital que servia como engrenagem financeira, a ofensiva das forças de segurança mirou outras figuras públicas de imenso alcance no cenário digital brasileiro. A estrutura criminosa dependia da capilaridade dessas personalidades para dar verniz de legitimidade a negócios que, nos bastidores, funcionavam como verdadeiras lavanderias de dinheiro para o tráfico de drogas. A lista de alvos da operação inclui perfis diversificados do ecossistema da internet:
- MC Ryan SP: Cantor de funk, apontado como líder do esquema e preso na quarta-feira, 15.
- Deolane Bezerra: Influenciadora e operadora do sistema, classificada como conta de passagem.
- Poze do Rodo: Outro artista de grande popularidade no funk, alvo de mandado de prisão.
- Raphael Sousa: Proprietário da página de entretenimento e fofocas ‘Choquei’, também detido na operação policial.
O que dizem as defesas sobre as acusações de lavagem?
Diante da gravidade das acusações envolvendo o Primeiro Comando da Capital e cifras bilionárias, os representantes legais dos envolvidos começaram a se manifestar na tentativa de desvincular o patrimônio de seus clientes das atividades da organização criminosa. A principal linha de defesa até o momento foca na suposta regularidade fiscal das transações empresariais ligadas ao entretenimento musical e à publicidade digital.
A equipe jurídica de MC Ryan, qualificado pelas autoridades federais como o pivô central do sistema de lavagem de dinheiro, rechaçou as acusações contidas no relatório da Polícia Federal. Em nota enviada à imprensa para esclarecer os fatos após a prisão do artista, os advogados foram taxativos sobre a legalidade dos rendimentos do funkeiro.
todos os valores que transitam nas contas do funkeiro possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos
Até a publicação destas informações, a defesa de Deolane Bezerra não havia retornado os contatos feitos pela reportagem dos veículos originais para comentar seu indiciamento como operadora do branqueamento de capitais. Da mesma forma, os representantes de Poze do Rodo e de Raphael Sousa continuam sendo procurados para manifestação sobre as prisões e o suposto envolvimento com a rede de plataformas de apostas ilegais controlada pelo PCC.