A pesca de krill na Antártida alcançou cerca de 620 mil toneladas em 2025, um recorde, em uma atividade legal e regulada que, segundo especialistas e ambientalistas, pode afetar a cadeia alimentar marinha da região. O relato acompanha uma missão da Sea Shepherd nas águas ao redor da ilha Coronation, nas ilhas Órcades do Sul, a cerca de um dia de navegação da península Antártica, onde grandes embarcações disputam a captura antes que o limite anual seja atingido. Para o Brasil, o tema tem relevância por envolver a governança do oceano Austral e a dinâmica ambiental da Antártida, região estratégica para a pesquisa científica brasileira. De acordo com informações do Guardian Environment, o debate envolve a importância do krill para baleias, focas, pinguins e aves marinhas, além de seu uso comercial em óleo e farinha.
O texto original, assinado por Gordon Peake, descreve a observação direta da operação pesqueira a partir do navio Allankay, da Sea Shepherd, que navegou por 34 dias desde a Nova Zelândia, via Argentina, até a região. No entorno da ilha Coronation, 12 grandes embarcações de países como China, Chile, Noruega, Coreia do Sul e uma embarcação ucraniana registrada na Namíbia atuavam na pesca do crustáceo marinho, descrito como base alimentar do ecossistema antártico.
Por que o krill é considerado essencial para o ecossistema antártico?
O krill, identificado no texto como Euphausia superba, é um pequeno crustáceo semelhante a um camarão que se alimenta de plâncton e serve de alimento principal para animais maiores. O artigo destaca que o ecossistema antártico depende desse recurso para sustentar aves, pinguins, focas e baleias.
Segundo a reportagem, há estudos revisados por pares que indicam pressão sobre esse equilíbrio. Um estudo citado, produzido por uma coalizão de universidades dos Estados Unidos e da Alemanha, sugere que a quantidade de krill no oceano é insuficiente para sustentar ao mesmo tempo a população atual de baleias e a pesca comercial. O texto também menciona outras pesquisas que apontam menor reprodução de baleias-jubarte e de espécies de pinguins.
Outro ponto abordado é o papel ambiental do krill no armazenamento de carbono. Com base em pesquisa mencionada do WWF, a reportagem afirma que esses organismos funcionam como importantes reservatórios de carbono, de modo que uma redução de sua população poderia significar mais dióxido de carbono na atmosfera.
Como funciona a pesca de krill e quem atua na região?
A atividade é apresentada como legal e submetida a regras de um organismo intergovernamental, a Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, a CCAMLR. O grupo reúne países e blocos com atuação na região antártica e define medidas de conservação e manejo pesqueiro no oceano Austral. Esse sistema estabelece um limite anual de captura, atualmente em 620 mil toneladas, e as embarcações competem para garantir a maior fatia possível antes de o teto ser alcançado.
Em 2025, a captura foi interrompida quando esse limite de acionamento foi atingido. Dados de anos anteriores, segundo o texto, mostram que a Noruega responde pela maior parte da pesca, seguida pela China. Grande parte do krill é capturada justamente nas águas próximas à ilha Coronation.
Durante a missão acompanhada pelo repórter, a equipe observou operações de transbordo, processamento e reabastecimento no mar. Um dos navios citados é o Fu Yuan Yu 9199, descrito como uma embarcação-fábrica chinesa de 139 metros de comprimento, capaz de pescar, processar e embalar produtos derivados do krill para envio a outro navio ao lado, enquanto uma terceira embarcação fazia o abastecimento de combustível.
- Limite anual atual de captura: 620 mil toneladas
- Região observada: águas próximas à ilha Coronation, nas ilhas Órcades do Sul
- Países com embarcações citadas: China, Chile, Noruega, Coreia do Sul e Ucrânia
- Uso comercial do krill: óleo para suplementos e farinha para aquicultura
O que dizem ambientalistas, empresas e o órgão regulador?
A Sea Shepherd sustenta que a pesca industrial de krill está causando danos ambientais em uma das áreas mais remotas do planeta e afirma que sua campanha atual busca interromper toda a atividade pesqueira de krill na Antártida. A primeira etapa da ação, segundo a reportagem, é chamar atenção pública para o tema; a etapa seguinte prevê continuidade de pesquisas científicas sobre o impacto da pesca industrial nas baleias da região.
O texto traz uma fala direta de uma integrante da tripulação da Sea Shepherd ao descrever a aproximação dos barcos pesqueiros:
“O cheiro desses arrastões de krill é como o de uma peixaria e lanchonete de fish and chips rançosa”, disse ela.
Do lado da indústria, a reportagem cita a empresa Aker Biomarine, fornecedora de krill para produtos de saúde. Em mensagem exibida por seus navios e em informação publicada em seu site, a empresa afirma operar sob regras rígidas da CCAMLR, com limites de captura inferiores a um por cento da biomassa total de krill e monitoramento por observadores independentes.
A própria CCAMLR declarou, em nota reproduzida pelo jornal, que, embora a maioria de seus membros tenha manifestado urgência em distribuir a captura para evitar concentração excessiva em determinadas áreas na sessão de outubro de 2025, até o momento não havia evidência científica específica que apontasse ameaça ao krill como espécie-chave ou aos ecossistemas marinhos antárticos de forma mais ampla. Na mesma reunião, a Noruega propôs quase dobrar o limite de captura, segundo o texto.
A reportagem mostra, assim, um impasse entre a legalidade da atividade, os interesses econômicos e as preocupações científicas e ambientais sobre a capacidade de recuperação de um recurso central para a vida marinha antártica.
