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Peixes migratórios de água doce desaparecem e acendem alerta global da ONU

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Cardume de peixes prateados nadando em águas turvas, ilustrando a redução da biodiversidade aquática em rios.
Foto: Astro_Alex / flickr (by-sa)

As grandes migrações de peixes migratórios de água doce em rios e lagos do planeta estão diminuindo, segundo um novo relatório da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), ligada à ONU. O documento aponta que 325 espécies precisam de intervenção urgente de conservação, após quedas superiores a 80% desde 1970, em regiões como a Amazônia, o Mekong, o Ganges e o Danúbio. A divulgação ocorre durante a COP15 da CMS, realizada em Campo Grande (MS) em março de 2026, em meio a alertas sobre barragens, pesca excessiva, poluição, mudanças no regime dos rios e fragmentação de habitats.

De acordo com informações do Inside Climate News, o novo levantamento atualiza uma revisão original de 2011 e analisou bases globais de dados e avaliações de estoques de quase 15 mil espécies. O relatório sustenta que esses peixes são essenciais tanto para a saúde dos rios quanto para a segurança alimentar e a renda de milhões de pessoas.

Por que o relatório da ONU considera a situação tão grave?

Segundo a secretária-executiva da CMS, Amy Fraenkel, os peixes migratórios de água doce estão entre os animais migratórios mais ameaçados do planeta. Em declaração por e-mail reproduzida na reportagem original, ela afirmou:

“Os peixes migratórios de água doce estão entre os animais migratórios mais ameaçados da Terra. Para algumas espécies, os declínios já foram devastadores.”

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O relatório destaca que essas espécies vêm encolhendo mais rapidamente do que muitas populações terrestres. Apesar disso, a crise permaneceu relativamente fora do foco global, em parte porque ocorre debaixo d’água e em sistemas fluviais que, em geral, não são a primeira referência quando se pensa em migração animal.

Fraenkel também atribuiu essa falta de atenção à baixa visibilidade do fenômeno em comparação com aves, mamíferos terrestres e grandes mamíferos marinhos. Na reportagem, ela afirmou:

“Essa crise escapou da atenção global em parte porque está ocorrendo debaixo d’água, em sistemas fluviais que não são o que vem à mente quando se pensa em migrações animais.”

Quais são as principais ameaças a essas espécies?

O documento cita uma combinação de pressões ao longo das rotas migratórias. Muitas espécies têm dificuldade crescente para completar deslocamentos entre áreas de reprodução, alimentação e berçários em planícies de inundação.

  • construção de barragens
  • pesca excessiva
  • poluição
  • alterações de vazão ligadas ao clima
  • fragmentação de habitats

Como quase metade dos rios da Terra é compartilhada por dois ou mais países, o relatório afirma que a cooperação transfronteiriça será decisiva para qualquer estratégia de conservação. Entre as espécies citadas estão a carpa-gigante-siamesa no Mekong, o goonch no Ganges e o esturjão-beluga na bacia do Danúbio.

Zeb Hogan, autor principal do relatório e professor pesquisador da Universidade de Nevada, em Reno, comparou a escala dessas migrações aquáticas às grandes migrações terrestres mais conhecidas. Ele disse:

“Temos migrações que, em termos de biomassa, rivalizam com as grandes migrações do Serengeti. A mesma coisa está acontecendo debaixo d’água, e você poderia ficar na margem do rio sem saber que isso estava ocorrendo.”

Onde estão os principais pontos de risco no mundo?

O relatório identifica bacias prioritárias na América do Sul, Europa, África e Ásia, além de corredores de enguias conectando pequenos Estados insulares na Oceania. Só na Ásia, 205 espécies foram classificadas como necessitando de esforços urgentes de conservação.

A bacia do Mekong é apresentada como um dos casos mais relevantes. O sistema atravessa seis países e se estende por mais de 2.700 milhas, do Planalto Tibetano ao Mar do Sul da China. Segundo Hogan, a região responde por 15% da captura continental mundial e abriga a maior pescaria continental do planeta, mas o valor econômico anual caiu de US$ 11 bilhões para cerca de US$ 8 bilhões nos últimos anos, à medida que os estoques recuaram.

“São US$ 3 bilhões, centenas de milhares de toneladas de peixe que sustentariam milhões de pessoas. Esse é o tipo de perda de que estamos falando”, disse ele, ao destacar como exemplo do colapso o status criticamente ameaçado do bagre-gigante do Mekong.

O que o relatório aponta sobre a Amazônia?

Na Amazônia, 20 peixes migratórios de água doce atendem aos critérios para inclusão no Apêndice II da CMS, mecanismo que reconhece espécies que podem se beneficiar de cooperação internacional antes que seja tarde. Juntas, essas espécies respondem por 93% dos desembarques e sustentam uma pescaria avaliada em US$ 436 milhões, de acordo com a reportagem.

Entre as espécies amazônicas mencionadas está o bagre dourado, descrito como o peixe de água doce com o mais longo ciclo migratório. Segundo o texto original, ele percorre mais de 6.800 milhas das cabeceiras andinas até berçários costeiros, um trajeto cada vez mais afetado por infraestrutura construída pelo ser humano.

Durante a COP15 da CMS, Brasil e outros governos da região devem propor o “Plano de Ação Multiespécies para Bagres Migratórios Amazônicos”. O plano, segundo a reportagem, reconhece a importância ecológica, cultural e econômica excepcional desses bagres na bacia amazônica e busca colaboração internacional entre pesca, infraestrutura energética e autoridades hídricas.

Fraenkel afirmou que a cooperação entre países que compartilham rios é urgente e viável. Já Hogan disse esperar que formuladores de políticas não aceitem a degradação ambiental como novo padrão.

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