A adoção de pausas obrigatórias para hidratação na Copa do Mundo de 2026 já provoca discussão entre treinadores e especialistas após testes em jogos da Data Fifa de março, encerrada em 31 de março de 2026. A medida foi anunciada pela Fifa para todas as 104 partidas do torneio, será aplicada aos 22 minutos de cada tempo e terá duração de três minutos. A decisão foi tomada em meio à preocupação com o calor previsto para jogos nos Estados Unidos, no Canadá e no México, países que sediarão conjuntamente o Mundial de 2026, sobretudo entre junho e julho, e tem sido defendida como forma de proteger os atletas, embora também seja vista por parte dos técnicos como uma interferência no ritmo da partida.
De acordo com informações do GE, a nova regra já apareceu em partidas de seleções como México x Portugal, Estados Unidos x Bélgica, Coreia do Sul x Costa do Marfim, República Democrática do Congo x Jamaica e no amistoso entre Brasil e França, disputado em Boston, nos Estados Unidos, à tarde no horário local.
Por que a pausa para hidratação virou tema de debate entre os técnicos?
O principal ponto de divergência está no efeito da interrupção sobre o andamento do jogo. Para alguns treinadores, a parada abre espaço para correções táticas e orientações mais detalhadas. Para outros, ela quebra o embalo de uma equipe que vive bom momento na partida e altera a dinâmica tradicional do futebol.
“Isso vai mudar o jogo. É uma pausa tática. Claro que é uma pausa para hidratação, mas durante três minutos o jogo pode realmente mudar, o momentum. Vimos muitos exemplos em outros esportes. É uma situação que você pode tentar ajudar os atletas de uma maneira diferente”, comentou Roberto Martinez, técnico de Portugal.
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“Eu gosto, porque é uma oportunidade para nós treinadores falarmos com o time, sobre estratégia. Para mim é interessante, muito bom”, declarou Rudi Garcia, treinador da Bélgica.
As críticas vieram na mesma linha, mas em sentido oposto. Didier Deschamps e Mauricio Pochettino demonstraram incômodo com o impacto da pausa no ritmo da partida e na continuidade do jogo.
“É bom para quem transmite, você tem o comercial, mas esses três minutos mudam o jogo. Não importa o time, se você estiver no ritmo, essa pausa arruína tudo. Pode ajudar se você não estiver jogando bem. Vamos jogar quatro períodos, mesmo que haja intervalo”, reclamou Didier Deschamps.
“Para ser honesto, eu não gosto. Não gosto porque corta o ritmo do jogo”, afirmou Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos.
Como a Fifa pretende usar a medida na Copa do Mundo de 2026?
A entidade anunciou em dezembro que a pausa será obrigatória em todos os jogos do torneio. A proposta faz parte de um conjunto de ações relacionadas ao calor extremo e às condições climáticas esperadas nas sedes. Segundo a reportagem, a Fifa vem avaliando riscos em coordenação com cidades-sede, administradores de estádios e agências nacionais dos três países anfitriões.
Entre as medidas previstas, há um modelo escalonado de mitigação de calor. Quando as temperaturas estiverem acima dos limites definidos, poderão ser adotadas ações como:
- uso de sistemas de nebulização;
- ampliação da distribuição de água;
- adaptação dos turnos de trabalho de funcionários e voluntários;
- prioridade para estádios cobertos;
- limitação de partidas nos horários mais quentes do dia.
A reportagem também informa que a Fifa contará com suporte meteorológico dedicado durante todo o torneio. Além do calor, os estádios deverão ter procedimentos de evacuação para outras adversidades climáticas.
Qual é o impacto do calor extremo no desempenho e na saúde dos jogadores?
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o calor extremo afeta não apenas a reposição de líquidos, mas também o desempenho físico e cognitivo dos atletas. A elevação da temperatura corporal pode reduzir a intensidade dos movimentos, comprometer a concentração e dificultar a tomada de decisão durante o jogo. Alguns jogadores, segundo o texto, podem perder até três litros por hora.
“Toda vez que você tem o aumento da temperatura interna, você tem uma queda do desempenho físico e cognitivo. À medida que a temperatura externa influencia para o aumento da temperatura interna, o atleta começa a entrar num risco de saúde. O exercício somado ao calor extremo, a tendência é perder muita água, potássio, elementos naturais, o que dificulta a contração muscular e as sinapses do cérebro para as tomadas de decisão”, explicou Bruno Mazziotti, diretor de performance da seleção do Peru e do Real Valladolid, da Espanha.
Outro ponto ressaltado é que a interrupção de três minutos não resolve, sozinha, o problema da hidratação e do controle térmico ao longo da partida.
“As pausas de três minutos para hidratação ajudam, mas não é o suficiente para atender ao déficit de hidratação de um jogo, ainda mais sob calor extremo. A hidratação não influencia imediatamente a regulação da temperatura do corpo. Ela é importante, mas não resolve 100% do problema. O que influencia mais são medidas antes do início do jogo, até nos dias anteriores. Estratégias durante, como o uso de coletes gelados, toalhas térmicas”, comentou Sandro Graham, preparador físico do Orlando City.
O debate envolve apenas desempenho esportivo ou também clima e transmissão?
Não. O tema também se conecta ao debate mais amplo sobre clima extremo e ao modelo de transmissão do torneio.