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Mercado de biocombustíveis atrai R$ 106 bilhões em investimentos na década

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O mercado brasileiro de energias renováveis projeta um cenário de forte expansão estrutural ao longo dos próximos dez anos. De acordo com informações do Valor Empresas, o segmento deve atrair cerca de R$ 106,7 bilhões em aportes financeiros, alavancados por políticas públicas recentes e pela necessidade global de segurança no fornecimento de combustíveis.

Os números refletem uma mudança de patamar no setor produtivo nacional. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) registraram que a fabricação de biodiesel atingiu um volume de 9,8 bilhões de litros no último ano. Em paralelo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberou um montante recorde de R$ 6,4 bilhões em financiamentos para a área no ano de 2025.

Como os investimentos serão distribuídos no setor de energia?

A projeção de recursos para a próxima década está fragmentada entre diferentes frentes tecnológicas e produtivas. A distribuição dos valores esperados divide-se da seguinte forma:

  • R$ 66,2 bilhões destinados à produção de etanol;
  • R$ 27,9 bilhões para tecnologias de biorrefino, como óleo diesel verde e querosene de aviação sustentável (SAF);
  • R$ 9,5 bilhões focados em projetos de biodiesel;
  • R$ 3 bilhões direcionados ao biometano.

Embora a maior parte do capital esteja concentrada em tecnologias já consolidadas, o mercado avalia alternativas técnicas para o futuro. A captura de carbono na produção e o uso de CO2 para o desenvolvimento de combustíveis sintéticos contam, no momento atual, com apenas R$ 100 milhões no radar de investimentos, indicando que essas frentes são projetos focados na próxima geração do setor.

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Quais leis e fatores geopolíticos motivam a transição energética?

A alocação destes recursos bilionários é uma resposta direta à ampliação das metas regulatórias no Brasil, impulsionadas por diretrizes internacionais de preservação ambiental estabelecidas desde o Acordo de Paris. O atual mandato de mistura estipula a adição de 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel comercializado nas bombas em todo o território nacional.

“Agora, quando o mundo passa a debater a segurança energética, a estratégia dos biocombustíveis é ainda mais reforçada”

, afirma Heloísa Borges, diretora de Estudos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da EPE. Segundo a diretora, fatores externos, como a escalada do preço do petróleo motivada pelo conflito bélico envolvendo o Irã, ampliaram a demanda interna pelo produto nacional. Além disso, a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, sinaliza a intenção do governo federal de aumentar a presença das matrizes renováveis para conter pressões inflacionárias na economia.

De que forma a indústria atua para adotar as novas matrizes limpas?

O segmento de transportes desponta como o principal consumidor de energia no país, representando 33,2% da demanda total. No entanto, o material renovável equivale a apenas um quarto de todo o volume utilizado. Conforme os dados consolidados pelo Balanço Energético Nacional, o diesel de origem fóssil lidera o consumo no Brasil com 42,5%, seguido pela gasolina convencional com 26%. O etanol ocupa atualmente a terceira posição com 19,4% de participação, enquanto o biodiesel representa 6,1%.

Companhias que operam frotas pesadas buscam métodos adequados para adaptar seus maquinários. A mineradora Vale, que consome cerca de um bilhão de litros de diesel anualmente, iniciou projetos focados no etanol e no biodiesel para tentar mitigar sua pegada de carbono. O diretor de engenharia de descarbonização da companhia, João Turchetti, relata os obstáculos enfrentados na operação:

“O maior desafio é o desenvolvimento tecnológico, pois as soluções ainda não estão prontas no mercado e exigem um trabalho de colaboração e testes rigorosos para garantir que a performance, a segurança e a confiabilidade dos equipamentos sejam mantidas”

.

Para tentar superar os atuais limites técnicos, a mineradora formalizou parcerias diretas com fornecedores especializados do setor industrial. Acordos com a Caterpillar e a Komatsu têm como objetivo desenvolver caminhões fora de estrada que funcionem de forma híbrida com uma mistura de etanol e diesel, projeto que passa por testes laboratoriais. Em outra frente, uma parceria com a Wabtec tenta replicar o mesmo conceito técnico na operação de locomotivas. A empresa também realiza testes de campo com caminhões rodando com 30% de adição de biodiesel, possuindo a meta futura de alcançar a marca de 50% de mistura no tanque.

Houve mudança na geografia da produção nacional de combustíveis?

A adoção em larga escala pelas indústrias de base esbarra na oferta tecnológica de equipamentos capazes de queimar os novos produtos e na concentração de matérias-primas. Atualmente, a cadeia produtiva depende massivamente do plantio de soja, cana-de-açúcar e milho em propriedades localizadas na região Centro-Sul. Diante deste cenário, a EPE emitiu recomendações para que o mercado explore o potencial de novos insumos cultivados nas regiões Norte e Nordeste, criando vetores de desenvolvimento regional.

As estatísticas recentes apontam que o mapa da produção nacional já atravessa transformações significativas. Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), evidencia que no ano de 2025 ocorreu uma inversão logística estrutural no setor. A região Centro-Oeste assumiu a dianteira na fabricação de etanol, passando a concentrar cerca de 48% de toda a produção e ultrapassando o Sudeste, que registrou 41,3%. Para fins de comparação, os dados mostram que em 2017 a região Sudeste detinha o controle de 58,2% do fornecimento nacional.

Apesar da nova liderança em bloco conquistada pelo Centro-Oeste, o estado de São Paulo preserva a condição de maior produtor isolado do país, concentrando 33,2% do mercado interno. O destaque das últimas safras, porém, fica com o estado de Mato Grosso, que consolidou a segunda posição no ranking nacional ao garantir 19,7% do processamento total. Em relação específica à fabricação de biodiesel, a organização territorial não sofreu alterações expressivas, com a região Sul mantendo o topo da tabela ao processar 41% do produto nacional, seguida logo atrás pelo Centro-Oeste, que soma 39,4% do volume total fabricado.

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