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Massacre de Eldorado do Carajás: sobrevivente vive com bala no olho há 30 anos

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Há três décadas, o agricultor José Carlos Agarito Moreira sobreviveu a um dos episódios mais violentos da história recente do campo brasileiro, ocorrido no estado do Pará. Aos 48 anos, ele ainda carrega uma bala alojada na cabeça, disparada pela Polícia Militar durante o Massacre de Eldorado do Carajás, que resultou na morte de 21 trabalhadores rurais em 17 de abril de 1996. De acordo com informações da Repórter Brasil, o sobrevivente sofre com dores constantes e infecções diárias, enquanto aguarda a retomada do tratamento médico determinado pela Justiça.

Como ocorreu o ferimento durante o protesto no Pará?

O incidente aconteceu quando o agricultor tinha 18 anos e participava de uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na rodovia PA-150. Os manifestantes caminhavam em direção à cidade de Marabá para pressionar o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso pela desapropriação da fazenda Macaxeira. No fim da tarde, o bloqueio rodoviário foi cercado e a tropa avançou com disparos de munição letal contra o grupo.

Durante a ação policial na área conhecida como Curva do S, o jovem trabalhador rural tentou escapar da linha de tiro, mas não obteve sucesso.

O policial apontou na minha cara. Na testa. Pra matar

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, relata o sobrevivente. O projétil atingiu seu olho direito, ocasionando a perda da visão no local. Após a queda, a bala permaneceu alojada no crânio, gerando complicações de saúde crônicas que se agravam com o tempo e limitam sua capacidade de realizar atividades laborais.

Qual é a situação atual da assistência médica aos sobreviventes?

O acompanhamento de saúde fornecido pelo poder público aos feridos sofreu interrupções ao longo do tempo. Maurílio da Silva Soares, que preside a associação de vítimas e também foi ferido no episódio, aponta que diversos trabalhadores afetados continuam com sequelas severas. Segundo a entidade, as dificuldades enfrentadas incluem os seguintes pontos principais:

  • Falta de acesso regular ao acompanhamento médico previsto em acordos firmados com o Estado desde o final da década de 1990;
  • Espera contínua de ao menos 25 feridos pelo recebimento definitivo das indenizações estabelecidas judicialmente;
  • Necessidade de entrar em filas comuns do Sistema Único de Saúde (SUS), sem prioridade governamental para as lesões causadas pela operação.

A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) comunicou que aguarda a formalização documental por parte dos representantes das vítimas para prosseguir com os trâmites administrativos no SUS. Em contrapartida, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) declarou que a administração estadual cumpre todas as obrigações judiciais e as determinações relacionadas ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos, considerando as ações liquidadas.

Por que o Pará concentra os maiores índices de violência no campo?

O cenário de conflitos agrários no território paraense possui raízes históricas profundas, intensificadas a partir da repressão estatal na década de 1970. Um levantamento fundamentado nos registros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) demonstra que o Pará contabilizou 1.003 assassinatos no campo no período compreendido entre os anos de 1980 e 2024. Este volume consolida o estado como o líder nacional de letalidade agrária, concentrando quase setenta e cinco por cento dessas mortes nas regiões sul e sudeste.

Para marcar as três décadas do trágico episódio, representantes sindicais e ativistas organizaram uma marcha de cinco dias entre as cidades de Curionópolis e Eldorado do Carajás. A mobilização envolve debates políticos e manifestações culturais, culminando em um ato memorial. Simultaneamente, o inquérito sobre as falhas na responsabilização das mortes continua tramitando na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que declarou a petição admissível no ano de 2003 e ainda analisa o mérito do caso em âmbito internacional.

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