A ação climática enfrenta obstáculos, mas profissionais que atuam na área dizem seguir motivados por avanços concretos, por comunidades afetadas e pela expansão do debate público sobre o tema. De acordo com informações do Grist, a publicação reuniu relatos de lideranças climáticas nos Estados Unidos durante o Earth Month para entender o que sustenta o engajamento diante de retrocessos políticos, pressão sobre a ciência e sinais cada vez mais visíveis da crise climática.
Entre os entrevistados estão Gaurab Basu, médico de atenção primária e professor assistente ligado ao Brigham and Women’s Hospital, à Harvard Medical School e à Harvard T.H. Chan School of Public Health, e Emily Graslie, comunicadora científica independente e produtora de mídia digital. As entrevistas, segundo o texto original, foram feitas por e-mail e editadas de forma leve para dar clareza e concisão às respostas.
O que levou Gaurab Basu a atuar com soluções climáticas?
Basu afirmou que um ponto de virada em sua trajetória foi o relatório do IPCC da ONU publicado em 2018. Segundo ele, a leitura deixou claro que a mudança do clima estava no centro de temas que já mobilizavam sua carreira, como desigualdade em saúde global e os efeitos dos sistemas sociais sobre doenças e bem-estar. A partir daí, passou a incorporar soluções climáticas em diferentes frentes do seu trabalho.
“This report made it clear that climate change was at the heart of everything I cared about in my professional and personal life.”
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Na avaliação do médico, os últimos cinco a dez anos produziram uma mobilização sem precedentes em defesa do clima e ajudaram a ampliar a compreensão de que a crise climática também é uma questão de saúde. Ao mesmo tempo, ele relatou preocupação com o que descreveu como rejeição à ciência e regressão em áreas como financiamento científico, medicina e ajuda internacional.
O que mantém o médico motivado apesar das dificuldades?
Ao falar sobre motivação, Basu citou um projeto nos Sundarbans indianos, região de grande relevância ecológica e vulnerável a ciclones, como o Amphan. Segundo ele, a população local convive com impactos crescentes sobre agricultura, saúde, educação, nutrição e equidade de gênero, mas segue enfrentando essas mudanças com determinação. O entrevistado disse que busca levar essa clareza de propósito para sua própria atuação.
Ele também apontou sinais de transformação no setor de energia como fonte de esperança. Entre os exemplos mencionados no texto estão:
- redução de emissões com energia solar e baterias na Califórnia;
- crescimento da energia solar no Paquistão;
- adoção mais rápida de veículos elétricos em países em desenvolvimento;
- atuação de organizações estaduais, como a Environmental League of Massachusetts.
“There are going to be times that are very, very hard, and we are in one of them. And we have to keep going with passion, dogged determination, and belief that we can make the impossible possible.”
Como Emily Graslie vê o papel da comunicação científica?
Emily Graslie relatou que não se via, no início, com espaço no campo científico ou da conservação, já que estudou arte e história na faculdade. Segundo ela, a aproximação com um museu de história natural no fim da graduação revelou uma lacuna entre o trabalho de museus e cientistas e a capacidade de comunicar esse conteúdo de forma ampla. Foi nesse espaço que passou a atuar como ponte de informação para o público.
Na análise da comunicadora, tornou-se cada vez mais evidente que o planeta atravessa mudanças sem precedentes e provavelmente irreversíveis. Ainda assim, ela observou que hoje há mais pessoas envolvidas com ciência climática e ambiental, além de maior disseminação do tema em comparação com o início de sua trajetória no ambiente digital, há mais de dez anos.
Quais desafios aparecem no trabalho de comunicar o clima?
Graslie afirmou que os riscos e a pressão percebidos hoje são maiores do que no começo da carreira. No relato publicado pelo Grist, ela menciona o desgaste de precisar rebater desinformação científica e também o assédio enfrentado por mulheres produtoras de conteúdo. Esse cenário, segundo ela, contribuiu para momentos de exaustão ao longo dos anos.
“Find like-minded people and communities that leave you feeling inspired, not tired.”
Mesmo assim, a comunicadora disse continuar no setor após quase 15 anos, ainda com forte compromisso com esse tipo de trabalho. Em seu conselho, ela destaca a importância de encontrar comunidades e pessoas com valores semelhantes, capazes de fortalecer o engajamento em vez de ampliar o cansaço.
Os relatos reunidos pelo Grist convergem em um ponto: embora o cenário atual seja descrito como difícil, os entrevistados dizem enxergar razões para seguir adiante. Essas razões incluem resultados visíveis em energia limpa, ampliação da consciência pública, trabalho local de organizações e a capacidade de comunidades vulneráveis de responder à crise com resiliência.