O investimento responsável precisa ser mais eficaz e mais ousado diante de um cenário global marcado por fragmentação geopolítica, inflação, choques de energia, impactos climáticos, disrupção tecnológica e aumento de riscos cibernéticos. A avaliação é de Fiona Reynolds, ex-CEO dos Principles for Responsible Investment, em artigo publicado quando a iniciativa completa 20 anos. De acordo com informações da Responsible Investor, a autora sustenta que os fatores ambientais, sociais e de governança seguem centrais para os resultados econômicos de longo prazo.
No texto, Reynolds relembra que, quando o PRI foi lançado, em 2006, o ambiente internacional era diferente, com mercados fortes, avanço da globalização e menor percepção sobre riscos sistêmicos. Naquele momento, o investimento responsável ainda era tratado como um nicho e frequentemente visto mais como expressão de valores do que como parte do núcleo das finanças tradicionais.
Por que o debate sobre ESG ficou mais complexo?
Segundo a autora, o contexto atual é mais desafiador pela velocidade das mudanças, pela complexidade dos riscos e pela dificuldade crescente de defender o papel do investimento responsável em alguns mercados. Ela afirma que direitos de acionistas estão sob pressão em certas jurisdições e que a atividade de stewardship, voltada ao acompanhamento e à influência sobre empresas investidas, tornou-se mais difícil.
Reynolds observa ainda que o termo ESG se tornou, ao mesmo tempo, disseminado e contestado. Em parte da indústria, a sigla vem sendo discretamente retirada do vocabulário; em outras áreas, especialmente nos Estados Unidos, tornou-se alvo de disputa política. Ainda assim, ela argumenta que os riscos que o investimento responsável busca enfrentar nunca estiveram tão visíveis.
Na avaliação da ex-CEO do PRI, mudanças climáticas, falhas de governança, práticas trabalhistas e degradação ambiental não devem ser tratadas como externalidades abstratas. Para ela, esses fatores influenciam diretamente a estabilidade e o desempenho da economia global no longo prazo.
O investimento responsável já se tornou padrão no mercado?
O artigo afirma que o investimento responsável entrou no mainstream. Reynolds destaca que milhares de instituições, representando trilhões de dólares, passaram a incorporar critérios ESG em seus processos. Apesar disso, ela avalia que o setor continua sendo pressionado a justificar sua relevância.
A autora também aponta que, ao longo da última década, o ESG se transformou em uma indústria própria, com multiplicação de fornecedores de dados, proliferação de sistemas de classificação e expansão de estruturas de divulgação. Embora considere esse desenvolvimento necessário em parte, ela diz que isso também trouxe complexidade significativa e um excesso de engenharia técnica.
Em sua análise, os investidores passaram a navegar por centenas de métricas, classificações conflitantes e regimes de reporte cada vez mais complexos. Com isso, o debate teria se afastado, em alguns momentos, das questões estratégicas sobre risco de longo prazo e se concentrado em discussões técnicas sobre dados e divulgação.
- Fragmentação geopolítica
- Inflação e choques de energia
- Impactos climáticos e ambientais
- Disrupção tecnológica associada à inteligência artificial
- Polarização social e aumento do risco cibernético
Qual é a crítica da autora à reação contra o ESG?
Reynolds afirma que houve exagero nas expectativas sobre o ESG, como a ideia de que ele geraria desempenho consistentemente superior ou transformações corporativas rápidas. Para ela, a realidade foi mais nuançada. Mesmo assim, sustenta que os vetores estruturais do investimento responsável não enfraqueceram; ao contrário, se fortaleceram.
No texto, ela argumenta que o mundo atravessa uma mudança sistêmica profunda. As transformações climáticas estariam redesenhando sistemas energéticos e economias, enquanto a perda de biodiversidade surgiria como risco material para diversos setores e as tensões geopolíticas afetariam fluxos de comércio e capital.
A autora afirma que, para investidores de longo prazo, especialmente fundos de pensão, essa visão é incontornável. Como proprietários universais com carteiras diversificadas na economia global, eles não conseguiriam se proteger integralmente de riscos sistêmicos, instabilidade geopolítica ou falhas de governança. Nesse raciocínio, a saúde do sistema econômico condiciona a saúde dos portfólios.
Ao tratar da reação contrária ao ESG, Reynolds diz que parte da comunidade de investimentos ficou mais cautelosa por causa do aumento do escrutínio regulatório, do risco de litígios e da própria contestação política. Em sua avaliação, recuar nesse momento seria um erro para investidores de longo prazo.
O que a autora defende para os próximos anos?
Para Reynolds, a próxima etapa do investimento responsável deve ir além da conscientização, da integração de fatores ESG e da criação de infraestrutura de dados e divulgação. Ela defende uma compreensão mais ampla da responsabilidade do investidor, sobretudo entre grandes investidores institucionais, descritos por ela como alguns dos maiores proprietários da economia global.
Essa responsabilidade, segundo o artigo, não se limitaria a evitar setores difíceis. Também exigiria apoiar a transição da economia real por meio de investimento, stewardship e engajamento contínuo. Ao mesmo tempo, ela ressalta que investidores não substituem políticas públicas e que governos seguem essenciais para criar as estruturas que viabilizam essas transições.
Na conclusão, a autora sustenta que os próximos 20 anos do investimento responsável devem ser marcados pela efetividade. Em vez de menos investimento responsável, Reynolds defende um investimento responsável melhor e mais ousado, capaz de responder aos riscos sistêmicos que moldam os retornos de longo prazo.