A inteligência artificial deixou de ser usada apenas em iniciativas pontuais e passou a reconfigurar áreas inteiras de negócios, segundo executivos que participaram de um painel no IT Forum Trancoso 2026, realizado entre 16 e 21 de abril. Durante o debate, líderes de tecnologia de Mondelez, Stellantis e Grupo Fleury relataram, no evento, como projetos de IA vêm sendo aplicados para planejamento comercial, desenvolvimento de produtos, manufatura, automação e experiência do cliente. De acordo com informações do IT Forum, a discussão destacou resultados práticos após anos de coleta de dados, testes e estruturação interna.
Segundo a reportagem, a CIO da Mondelez, Leila Zimmermann, afirmou que a virada ocorreu quando a empresa passou a usar a IA para enfrentar problemas sistêmicos, e não apenas demandas rotineiras de departamentos. Ela disse que a escala foi alcançada a partir de um foco mais estratégico e de uma base construída ao longo de quatro anos de coleta de dados, com ênfase na experiência dos clientes.
“Endendemos que a IA é sobre foco estratégico. É nesse momento que a escala realmente acontece. E, os resultados que temos hoje são fruto de quatro anos de coleta de dados para que pudéssemos, de fato, centrar nas experiências dos clientes”
No caso da Mondelez, a troca da ferramenta de planejamento para incorporar IA e predição ao processo de vendas ampliou a coleta de dados e permitiu análises regionais mais detalhadas. A executiva relacionou esse avanço à necessidade de adaptar a distribuição de produtos a diferentes hábitos de consumo no país.
“O Brasil é intercontinental, então, não podemos planejar da mesma forma para as mesmas regiões. E a IA trouxe para nós o benefício dessa personalização, porque quanto mais granularidade nos dados, mais conhecemos essas regiões, hábitos de consumo e preferências do consumidor”
Como a IA tem sido aplicada nas operações dessas empresas?
Além de Zimmermann, o painel reuniu Fabio de Freitas, vice-presidente de ICT e Inovação Digital da Stellantis para a América do Sul, e João Alvarenga, diretor-executivo de TI e Inovação do Grupo Fleury. A mediação foi de Déborah Oliveira, CCO e CMO do Itaqui. No debate, Freitas afirmou que a Stellantis reduziu em mais de um ano o tempo necessário para desenhar novos veículos com o uso da inteligência artificial.
De acordo com o executivo, a companhia também busca alcançar o terceiro nível do sistema ADAS, escala de um a cinco para sistemas avançados de assistência ao condutor. Na prática, segundo o relato apresentado no evento, o objetivo é ampliar a autonomia dos veículos. Freitas associou o avanço à criação de uma governança que combine velocidade de inovação com segurança no desenvolvimento.
“Decidimos descentralizar o uso da IA na companhia. A TI hoje é uma das áreas que colabora com a inteligência artificial na empresa. E quando eu vejo os meus colegas de outras áreas contratando cientistas de dados, desenvolvedores em Python, é excelente. Porque quanto mais preditivo na manufatura, mais evitamos quebras, manutenções desnecessárias, e mais disponibilidade temos nas plantas para rodar e fazer uma produção ainda mais assertiva. Estamos construindo uma fundação que permite que toda empresa trabalhe de forma coordenada”
Entre os pontos citados pelos executivos, a aplicação da IA apareceu em diferentes frentes:
- planejamento comercial com dados regionais mais granulares;
- desenvolvimento de novos veículos em menos tempo;
- uso preditivo na manufatura para reduzir quebras e manutenção desnecessária;
- automação de processos com retorno financeiro mais rápido;
- soluções de apoio à leitura de prontuários e à relação com médicos.
Quais resultados o Grupo Fleury apresentou no debate?
No painel, João Alvarenga afirmou que a transformação digital do Grupo Fleury foi estruturada em três pilares: automação, experiência do cliente interno e externo, e centralização da IA nas operações e processos. Segundo ele, a empresa começou pela automação como forma de reduzir resistências internas à tecnologia e demonstrar retorno concreto em projetos iniciais.
Um dos exemplos mencionados foi o uso de agentes para apoiar a revisão de tabela de planos de saúde no ciclo da receita. De acordo com Alvarenga, o projeto foi executado rapidamente e gerou retorno financeiro relevante, capaz de sustentar novas iniciativas de inteligência artificial dentro da organização.
“Escolhemos projetos que dessem um retorno financeiro mais imediato para mostrar que aquilo realmente fazia sentido. Um exemplo foi olhar para o ciclo da receita. Nele, estamos usando agentes para ajudar no processo de revisão de tabela de planos de saúde. Foi um projeto rápido, mas que gerou um retorno que poderia financiar mais dez pilotos de de IA, sem dúvida nenhuma”
A reportagem informa ainda que a frente de experiência do cliente no Grupo Fleury tem se concentrado, até agora, na aproximação com médicos, com soluções de suporte à leitura de prontuários. Esse movimento, somado aos projetos de automação, abriu espaço para o investimento em um data lake mais robusto e para uma reestruturação organizacional baseada em IA interna para consulta dos colaboradores.
O que os CIOs apontam como próximo passo da IA?
Segundo os relatos reunidos no evento, o próximo estágio envolve transformar a inteligência artificial em base operacional permanente, e não apenas em ferramenta complementar. No Fleury, Alvarenga disse que esse processo também passa por uma nova interface de relacionamento com o cliente final e por investimentos em experiência do usuário.
“Estamos investindo em UX porque entendemos que logo estaremos falando de UX agêntico. Podemos assistir ao fim do www, com agentes atuando nos bastidores para resolver demandas e entregar respostas diretamente ao cliente”
Em comum, os executivos descreveram uma trajetória em que a IA sai do campo experimental, avança sobre processos centrais e depende de estrutura de dados, governança e integração entre áreas para gerar escala. O painel do IT Forum Trancoso 2026 mostrou que, nos casos apresentados, o uso da tecnologia passou a ser tratado como componente da estratégia de negócio.