A conferência COP15 sobre espécies migratórias, realizada no fim de março em Campo Grande, terminou com a adoção por consenso de medidas para proteger 40 espécies migratórias e serviu de base para uma discussão mais ampla sobre a necessidade de integrar as agendas de clima e biodiversidade. A avaliação foi reforçada pela ambientalista Susan Lieberman, vice-presidente de Política Internacional da Wildlife Conservation Society, que defendeu maior cooperação internacional e conexão entre convenções ambientais. De acordo com informações da InfoAmazônia, o encontro contrastou com a COP30, realizada em Belém em novembro, descrita no texto original como marcada por tensão e poucos resultados relevantes.
Na comparação apresentada pela reportagem, a agenda climática concentra mais atenção pública e recursos, enquanto a biodiversidade segue em segundo plano na cobertura jornalística e no financiamento. Ainda assim, a COP15 foi apontada como um caso de êxito diplomático, com ambiente de colaboração entre delegações e avanços práticos em proteção de espécies e habitats.
O que Susan Lieberman defendeu durante a COP15?
Susan Lieberman, que atuou por 11 anos na coordenação de combate ao tráfico ilegal de animais no Departamento do Interior dos Estados Unidos e foi conselheira do ex-presidente Barack Obama sobre o tema, afirmou que o multilateralismo continua sendo um instrumento relevante mesmo em um cenário internacional de guerra e tensões geopolíticas. Segundo ela, os compromissos assumidos em convenções ambientais não devem ser tratados de forma isolada.
“Há menos governos aqui, mas ainda assim são mais de 60, incluindo a União Europeia e tantos outros governos desta região (América do Sul)”, observou Susan. “Há vários eventos importantes este ano. Temos este aqui (CMS). Temos as convenções da ONU para combater a desertificação e as mudanças climáticas. Portanto, não dá para dizer que não há apoio ao multilateralismo. A questão é como unir tudo isso.”
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
A fala resume a defesa feita por Lieberman de maior integração entre as agendas ambientais. Para ela, a cooperação entre países vizinhos é indispensável em ecossistemas transfronteiriços, como a Amazônia, e também para a preservação de espécies altamente migratórias.
Quais avanços foram destacados na conferência?
Entre os resultados mencionados, a reportagem cita o acordo entre países da Bacia Amazônica para criar um plano conjunto de conservação de peixes migratórios. Também foi aprovado um plano regional de proteção da onça-pintada. Na agenda oceânica, o consenso incluiu maior proteção para espécies marinhas, entre elas diversos tubarões criticamente ameaçados.
O texto também aponta que o presidente Lula, em discurso no primeiro dia da COP15, lembrou a existência de um memorando mantido há quase 20 anos entre Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai para a preservação de aves migratórias, com proteção a 11 espécies. O exemplo foi usado para defender mais colaboração entre países.
“Ações unilaterais, atentados à soberania e execuções sumárias estão se tornando a regra”.
A declaração foi citada pela reportagem como parte da cobrança feita por Lula em favor de respostas coordenadas no campo ambiental, em um contexto internacional marcado por disputas geopolíticas.
O que significa integridade ecológica nesse debate?
Ao tratar dos obstáculos para transformar planos internacionais em ações concretas, Lieberman recorreu ao conceito de integridade ecológica. A ideia, segundo ela, envolve garantir que um sistema natural continue funcionando de forma completa, com fauna, flora, fluxo de água e conectividade entre habitats.
“A conectividade faz parte do que chamo de integridade ecológica. Parece complicado, mas significa apenas que o sistema funciona. Não basta ter uma floresta com árvores; é preciso ter a vida selvagem, o fluxo de água e todo o sistema. E, você sabe, a cooperação transfronteiriça é difícil. Mas, para sistemas como a Amazônia e outras espécies altamente migratórias, qualquer coisa que você faça fracassará se você não colaborar também com seus vizinhos.”
O ponto foi relacionado, na reportagem, aos impactos de obras de infraestrutura sobre ecossistemas sensíveis, como no caso citado das hidrelétricas no rio Madeira. A argumentação central é que políticas de clima, energia e conservação precisam ser conectadas para evitar que uma solução em uma área provoque perdas severas em outra.
Lieberman também reconheceu os limites da cooperação internacional e a pressão de interesses econômicos sobre a agenda ambiental. Ainda assim, avaliou que diferentes países e ministérios de meio ambiente têm conseguido resistir a parte dessas pressões e manter o tema da conservação em negociação.
“Acho que é importante que os governos apoiem a luta contra as mudanças climáticas. Mas também precisamos lidar com isso por meio de convenções como esta, que tratam das espécies e de seus habitats, além de outras convenções. Acho que cabe também aos governos estabelecer as conexões e não tratar cada uma dessas convenções como algo isolado, porque elas não são. Todas elas estão inter-relacionadas”.
A reportagem observa ainda que China e Estados Unidos, as maiores economias do mundo, não participaram da convenção por não serem signatários da CMS. Mesmo assim, a leitura apresentada por Susan Lieberman é de que a cooperação internacional segue possível, ainda que cercada por impasses, interesses comerciais e assimetrias políticas.
- Medidas para proteção de 40 espécies migratórias foram adotadas por consenso na COP15.
- Países da Bacia Amazônica concordaram em criar um plano conjunto para peixes migratórios.
- Um plano regional de proteção da onça-pintada também foi aprovado.
- A conferência reforçou a defesa de integração entre biodiversidade, clima e conservação de habitats.
Ao final, o texto sustenta que, mesmo em um cenário internacional adverso, o multilateralismo e a integridade ecológica continuam sendo apresentados como caminhos possíveis para enfrentar crises ambientais de escala regional e global.