Os Estados Unidos, Israel e o Irã estão travando um intenso conflito que ultrapassa as fronteiras físicas e atinge diretamente os celulares de milhões de pessoas ao redor do mundo. O Brasil, por possuir uma das populações mais ativas nas redes sociais no planeta, é impactado frontalmente por esse fluxo global de conteúdos falsos, que pode influenciar polarizações internas e a percepção pública sobre a política externa do país. No final de março e início de abril de 2026, uma guerra digital baseada em propaganda governamental e imagens geradas por inteligência artificial tem distorcido a realidade do confronto no Oriente Médio, utilizando fake news para manipular a opinião pública e demonstrar uma falsa superioridade militar.
De acordo com informações do Jornal Nacional, do portal G1, apenas em um período de duas semanas, mais de 110 imagens elaboradas por ferramentas tecnológicas foram visualizadas e compartilhadas em larga escala, retratando explosões inexistentes e ataques forjados.
Como a inteligência artificial é usada no conflito do Oriente Médio?
A estratégia de desinformação ocorre de maneira acelerada pelas partes envolvidas. Muitos dos vídeos falsos promovem visões favoráveis ao regime de Teerã, com o objetivo claro de transmitir uma impressão de sofisticação e poderio bélico ampliado. Um dos conteúdos adulterados de maior circulação chegou a mostrar uma chuva irreal de mísseis atingindo a cidade de Tel Aviv. Essa tática busca criar a percepção de que as perdas e o custo financeiro para os aliados americanos são consideravelmente maiores do que os dados oficiais apontam.
Por outro lado, o governo iraniano também recorre à manipulação visual para recriar cenários dramáticos reais, como um ataque letal conduzido por forças americanas contra uma escola que resultou em vítimas civis. A diferença é que a cena digital distribuída nas plataformas foi inteiramente desenhada por computador, inserindo elementos apelativos para reforçar a retórica estatal da nação do Oriente Médio.
Quais são as táticas de propaganda dos Estados Unidos e de Israel?
A Casa Branca tem adotado uma abordagem sistemática que mistura imagens da guerra real com elementos clássicos da cultura pop norte-americana, como filmes de Hollywood, beisebol, boliche e futebol americano. Em uma das postagens oficiais, o governo exibiu a frase sobre justiça à moda americana. A publicação gerou forte repúdio público do ator Ben Stiller, cujo rosto estrelou o filme atrelado ao material de propaganda bélica.
Nunca demos permissão para isso e não temos interesse em fazer parte dessa máquina de propaganda. Guerra não é filme.
O Ministério das Relações Exteriores israelense também aderiu à provocação digital, publicando montagens que colocam a cabeça de Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo iraniano, em jogos de fliperama infantis. Em resposta diplomática, perfis da embaixada iraniana na África do Sul ironizaram abertamente a intenção do ex-presidente Donald Trump de tentar dividir e controlar o tráfego marítimo estratégico do Estreito de Ormuz.
Quais os perigos da desinformação para a percepção das guerras modernas?
Pesquisadores internacionais apontam que essa nova fronteira da guerra moderna, turbinada por algoritmos, altera a forma como o mundo enxerga os embates armados atuais. Mahsa Alimardani, pesquisadora formada pela Universidade de Oxford e diretora da organização de direitos humanos Witness, sediada em Londres, destaca o grande impacto dessa onda tecnológica no cotidiano global.
O mais perverso é o efeito que isso produz: a dúvida. As pessoas passam a não acreditar nem no que é real, mesmo quando aquilo já foi comprovado e checado.
Tine Munk, professora da Universidade Nottingham Trent, na Inglaterra, e especialista em narrativas digitais, alerta sobre as consequências psicológicas diretas de tratar a letalidade do combate como um mero entretenimento cibernético. Ao conversar com a equipe de reportagem original, a pesquisadora dinamarquesa explicou que embalar um embate geopolítico grave na linguagem da internet isenta o espectador de compreender a real complexidade política da crise. Segundo a especialista, essas dinâmicas trazem os seguintes riscos principais para a sociedade global:
- Diminuição drástica da sensibilidade do público em relação às mortes de civis inocentes.
- Criação de um distanciamento emocional severo e apatia sobre o sofrimento alheio.
- Normalização irrestrita da guerra e simplificação das disputas de poder no tabuleiro internacional.