A governadora de Nova York, Kathy Hochul, propôs em março de 2026 o adiamento de um dos principais objetivos da legislação estadual de combate às mudanças climáticas, conhecida como Climate Act. A proposta consiste em postergar de 2030 para 2040 a meta intermediária de redução de emissões de gases de efeito estufa, mantendo inalterado o objetivo de longo prazo para 2050. A medida, apresentada originalmente por meio de um artigo de opinião no site Empire Report, gerou reações negativas tanto de legisladores estaduais quanto de organizações ambientais. De acordo com informações do Inside Climate News, representantes desses grupos criticam o impacto do adiamento para o cumprimento dos compromissos ambientais do estado.
Embora se trate de uma decisão estadual nos Estados Unidos, o caso é acompanhado com atenção por ambientalistas e formuladores de políticas em outros países, inclusive no Brasil, porque discute o ritmo de implementação de metas climáticas e instrumentos de regulação de emissões. O tema tem relevância para o debate brasileiro sobre transição energética e cumprimento de compromissos ambientais assumidos em fóruns internacionais.
Pelo texto da Climate Act, aprovada em Nova York em 2019, o estado se compromete a cortar 40% das emissões de gases de efeito estufa, tomando 1990 como referência, até 2030, e atingir uma redução de 85% até 2050. Hochul, porém, propôs que a meta intermediária de 2030 deixe de ter força de lei e que a implantação de regras detalhadas para a limitação dessas emissões seja adiada para o fim de 2030. Segundo o governo, a mudança alinharia o cronograma às condições econômicas e daria mais tempo para ajustes nas políticas públicas.
Por que as organizações ambientais e legisladores rejeitam a proposta?
A iniciativa da governadora de Nova York enfrenta resistência de diferentes setores. Conforme o Inside Climate News, entidades ambientais já haviam processado o governo estadual em 2025 pela ausência de regulamentação estipulada na lei, cujo prazo final era janeiro de 2024. O plano criado pelo Conselho de Ação Climática previa o sistema “cap-and-invest”, em que poluidores comprariam permissões de emissão, destinando recursos para programas de eficiência energética e descontos nas contas de energia dos consumidores. Os grupos autores do processo alegam que o atraso impede avanços concretos e descumpre os compromissos da Climate Act.
“Ela precisa publicar essas regulações e apresentar uma política robusta que realmente proteja a população e incentive as energias renováveis”, declarou Ethan Gormley, organizador do Citizen Action of New York, uma das partes do processo contra Hochul.
Quais podem ser os impactos do adiamento das metas climáticas?
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que, com o adiamento, a criação de incentivos financeiros para redução de emissões deve demorar pelo menos quatro anos. A senadora estadual Kristen Gonzalez, que representa áreas de Manhattan, Queens e norte do Brooklyn, afirma que quem mais sofre são os moradores das regiões que seguem dependentes dos combustíveis fósseis. Para Anshul Gupta, diretor de políticas do New Yorkers for Clean Power, a proposta representa uma concessão decisiva às indústrias poluidoras.
O anúncio ocorreu em meio a negociações orçamentárias com a Assembleia Legislativa estadual. Analistas destacam que a governadora detém poder significativo nesse contexto, podendo influenciar o destino das medidas propostas. No entanto, o afastamento dos prazos estabelecidos pela Climate Act pode comprometer a transição para fontes renováveis e enfraquecer o papel do estado nos esforços nacionais de combate às mudanças climáticas. Em discussões internacionais sobre clima, decisões como essa costumam ser observadas por servirem de precedente sobre a dificuldade de transformar metas legais em medidas concretas de execução.
A meta é considerada viável por especialistas?
Segundo Robert Howarth, professor da Universidade Cornell e integrante do Conselho de Ação Climática, os objetivos de Nova York eram “totalmente atingíveis” quando o plano foi apresentado. Entretanto, ele observa que, apesar de avanços pontuais em energia limpa, ainda há barreiras significativas na implementação das políticas que poderiam garantir o cumprimento das metas climáticas.