
Na República Democrática do Congo, o ativista Dominique Bikaba, de 54 anos, dedica sua vida a um esforço contínuo para proteger os raros gorilas-de-grauer e garantir os direitos de posse de terras das comunidades indígenas da região. A iniciativa, documentada em abril de 2026, ocorre em um cenário devastado por décadas de confrontos armados e instabilidade política no país africano. De acordo com informações do Guardian Environment, o ambientalista atua por meio da organização Strong Roots Congo, da qual é fundador e diretor executivo, para criar um modelo de conservação focado na coexistência humana e animal. Essa abordagem guarda forte semelhança com a realidade ambiental brasileira, refletindo os modelos de reservas extrativistas e o manejo de terras indígenas na Amazônia, onde os povos tradicionais são reconhecidos como guardiões da floresta.
A história de Bikaba com a conservação está profundamente ligada à sua própria trajetória de vida e às consequências das políticas ambientais do passado. Durante a década de 1970, sua família foi deslocada das terras ancestrais devido à criação do Parque Nacional Kahuzi-Biega. A área protegida, localizada na província de Kivu do Sul, abriga elefantes e diversas espécies, sendo mundialmente reconhecida como o principal refúgio do gorila-de-grauer, a maior subespécie de primata do mundo, que pode atingir até 250 quilos.
Como as comunidades tradicionais influenciam a preservação ambiental?
Crescendo nas margens do parque, o ambientalista dividiu sua criação entre sua mãe biológica e uma família adotiva de origem pigmeia, pertencentes à comunidade Batwa. Essa convivência imergiu o jovem na cultura de um povo cuja espiritualidade e sobrevivência estão enraizadas nas florestas da região dos Grandes Lagos Africanos. Foi com os povos tradicionais que ele adquiriu conhecimentos essenciais sobre plantas medicinais, comportamento animal e os princípios práticos da convivência harmoniosa com a natureza.
“A minha avó me ensinou a ser ‘um homem’, mas a minha mãe pigmeia me ensinou a coexistir com a floresta.”
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Naquela época, humanos e primatas compartilhavam o mesmo espaço geográfico em um equilíbrio prático, onde babuínos e gorilas ocasionalmente se alimentavam das plantações locais, sem que a proximidade representasse uma ameaça crítica à existência das espécies, cenário que se transformou completamente com a eclosão da guerra.
Qual é o impacto dos conflitos armados na população de gorilas?
Em 1992, Bikaba iniciou seu trabalho de mediação entre autoridades do parque e os povos deslocados. Dois anos depois, o genocídio de Ruanda provocou a entrada maciça de refugiados no leste do território congolês, desencadeando as sucessivas guerras do Congo que perduram até este ano de 2026. As consequências dos combates para a fauna local têm sido catastróficas. Antes dos conflitos, as estimativas apontavam a existência de aproximadamente 17 mil gorilas na região das planícies orientais. Entretanto, levantamentos realizados em 2016 indicaram que restavam apenas cerca de 3.800 indivíduos da espécie.
O cenário se agrava por uma combinação de fatores prejudiciais ao bioma local, que incluem:
- A prática disseminada de agricultura de corte e queima nas margens florestais.
- A caça ilegal voltada para o comércio e consumo de carne de animais silvestres.
- A constante instabilidade e falta de fiscalização causadas pela presença de grupos rebeldes armados.
A insegurança crônica dificulta severamente o trabalho das equipes de preservação no país. Viagens de monitoramento que antigamente demoravam 30 minutos podem exigir atualmente até quatro dias de deslocamento por rotas perigosas devido ao controle rebelde.
“Eu escapei da morte muitas vezes, mas meus amigos e parentes não tiveram a mesma sorte.”
Quais são as metas para os corredores de biodiversidade no Congo?
Para reverter a degradação ambiental e apoiar as populações vulneráveis, a Strong Roots Congo, fundada em 2009, expandiu sua atuação para além das fronteiras oficiais de proteção do Estado. Em parceria com dezenas de chefaturas tradicionais, a organização trabalha na consolidação de um vasto corredor ecológico com o objetivo de conectar o Parque Nacional Kahuzi-Biega à reserva natural de Itombwe.
O projeto visa assegurar a gestão de 1 milhão de hectares sob os cuidados conjuntos da vida selvagem e das populações indígenas. Até o momento, as iniciativas já viabilizaram a criação de 23 áreas comunitárias, abrangendo cerca de 600 mil hectares de floresta. A estratégia adotada permite que as posses consuetudinárias sejam convertidas em concessões florestais legalmente reconhecidas pelo governo.
Esse modelo integrado contrasta com as abordagens ocidentais tradicionais que, frequentemente, consideram as populações locais como entraves para os ecossistemas — um paradigma que também tem sido historicamente debatido na formulação de políticas ambientais no Brasil. O projeto não apenas reconecta habitats fragmentados para viabilizar a reprodução biológica dos primatas, mas também promove a restituição de direitos fundiários aos habitantes nativos.
“Os humanos também fazem parte da natureza. Há muita sabedoria que podemos aprender com as comunidades que vivem nas florestas.”