As exportações americanas de gás natural liquefeito (GNL) atingiram níveis recordes e têm compensado, temporariamente, a perda do fornecimento catariano causada pelo fechamento do Estreito de Ormuz desde o fim de fevereiro — mas especialistas alertam que manter as instalações dos Estados Unidos operando em capacidade máxima não é sustentável ao longo de todo o ano, sobretudo diante da temporada de furacões e de paradas programadas para manutenção.
De acordo com informações do OilPrice, o fechamento de fato do Estreito de Ormuz — desencadeado pelo conflito iniciado no fim de fevereiro — aprisionou cerca de 20% dos fluxos diários globais de GNL, derrubando simultaneamente as exportações do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, que dependem dessa via marítima estratégica para escoar sua produção.
Como o fechamento do Estreito de Ormuz impactou o mercado global de GNL?
Nenhum navio-tanque de GNL transitou pelo Estreito de Ormuz desde o início do conflito. O resultado imediato foi uma disparada nos preços do gás natural em benchmarks asiáticos e europeus, que atingiram as máximas em três anos em março. Esse encarecimento abrupto desencadeou destruição de demanda em vários compradores mais sensíveis a preços, levando-os a buscar combustíveis alternativos — incluindo o aumento da geração de energia a carvão.
Os compradores internacionais agora se defrontam com um GNL significativamente mais caro no mercado spot, enquanto a Ásia disputa abertamente o produto com a Europa, elevando ainda mais os valores e pressionando países menos capitalizados a abandonar o gás natural em favor de fontes mais baratas, porém mais poluentes.
Por que os EUA não podem substituir indefinidamente o GNL do Catar?
Em termos nominais, o GNL americano conseguiu compensar todas as perdas do Catar desde o início do conflito. No entanto, operar a capacidade de exportação dos Estados Unidos em plena carga não é viável durante o ano inteiro por duas razões principais:
- Manutenção periódica obrigatória nas plantas de liquefação, que inevitavelmente reduz o volume disponível para exportação;
- Temporada de furacões no Golfo do México, que historicamente obriga paralisações preventivas nas instalações costeiras americanas de GNL.
Esses fatores combinados indicam que, mesmo que os Estados Unidos queiram sustentar o nível recorde de exportações, as condições operacionais e climáticas impõem limites naturais que o mercado global precisará absorver nos próximos meses.
Qual é o cenário projetado para o mercado de GNL em 2026 e 2027?
O aperto no mercado deve se estender muito além do curto prazo. Analistas apontam que as interrupções no fornecimento catariano, somadas a atrasos em novos projetos de oferta que deveriam entrar em operação, podem gerar um déficit estrutural ao longo de 2026 e 2027, mesmo considerando o crescimento da produção americana.
A situação é agravada pela ausência de alternativas rápidas de escala equivalente à do Catar — um dos maiores exportadores mundiais de GNL — no horizonte imediato. Novos projetos de liquefação demandam anos de construção e licenciamento, o que limita a capacidade de resposta da indústria a choques geopolíticos repentinos como o atual.
O episódio evidencia a fragilidade estrutural do mercado global de energia diante de crises geopolíticas que bloqueiam rotas marítimas estratégicas. A dependência de uma única via de passagem para um quinto do GNL mundial negociado diariamente representa um risco sistêmico que o conflito no Oriente Médio tornou concreto e imediato para compradores na Europa e na Ásia.