A exposição simultânea a substâncias tóxicas e aos efeitos da crise climática pode ampliar danos reprodutivos e contribuir para a queda da fertilidade em diversas espécies no mundo, incluindo humanos, segundo um novo estudo revisado por pares. A pesquisa analisou 177 estudos e aponta que a combinação entre químicos desreguladores endócrinos, frequentemente presentes em plásticos, e fatores como estresse térmico e aumento da temperatura pode produzir efeitos aditivos ou sinérgicos sobre a reprodução. De acordo com informações do Guardian Environment, os autores classificaram esse efeito combinado como preocupante.
O trabalho revisa a literatura científica sobre como compostos como microplásticos, bisfenol, ftalatos e PFAS, somados a impactos climáticos como calor extremo e menor oxigenação, estão associados à redução da fertilidade e da fecundidade em organismos que vão de invertebrados a humanos. Embora os prejuízos reprodutivos de cada fator isoladamente já sejam amplamente estudados, os pesquisadores afirmam que ainda há pouca investigação sobre o que ocorre quando esses estressores agem ao mesmo tempo.
O que o estudo concluiu sobre a ação conjunta de químicos e clima?
A principal conclusão do artigo é que dois fatores diferentes, quando produzem o mesmo tipo de efeito adverso, tendem a somar seus impactos. A autora principal Susanne Brander, ligada à Oregon State University, afirmou que a exposição simultânea a dois estressores que podem afetar a fertilidade provavelmente torna o impacto geral mais grave.
“You’re not just getting exposed to one – but two – stressors at the same time that both may affect your fertility, and in turn the overall impact is going to be a bit worse,” Brander said.
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Segundo a reportagem, a pesquisa destaca que os danos provocados por químicos tóxicos muitas vezes são semelhantes em diferentes organismos. O texto cita, por exemplo, os ftalatos, associados à alteração da forma do esperma em invertebrados, à espermatogênese em roedores e à redução da contagem de espermatozoides em humanos. Os PFAS também são apontados como substâncias que podem afetar a qualidade do esperma e desregular hormônios.
Quais substâncias e fatores climáticos estão no foco da pesquisa?
Os autores concentraram a análise em químicos desreguladores endócrinos e em efeitos ligados ao aquecimento global. Entre os compostos mencionados estão:
- microplásticos
- bisfenol
- ftalatos
- PFAS
Do lado climático, o estudo menciona fatores que pesquisas anteriores já relacionaram à infertilidade ou a alterações reprodutivas:
- aumento da temperatura
- estresse térmico
- redução de oxigênio
A reportagem informa que o calor pode afetar hormônios humanos e está ligado à espermatogênese em roedores e touros. Também há evidências de que a temperatura influencia a determinação sexual em peixes, répteis e anfíbios, o que pode ser alterado por um planeta mais quente. O estudo acrescenta que muitos desreguladores endócrinos também podem modificar essa determinação sexual ambiental.
Como os efeitos aparecem em diferentes espécies?
Os autores dividiram os impactos por grupos taxonômicos, de invertebrados a humanos. Em aves, por exemplo, a exposição individual a temperatura mais alta, PFAS, organoclorados e piretroides pode estar associada a esperma anormal, aumento da mortalidade de filhotes, testículos anormais e declínio populacional. A questão central levantada pelo estudo é o que acontece quando mais de um desses fatores atinge o organismo ao mesmo tempo.
“What happens if they’re exposed to more than one of those stressors at the same time? There has been little exploration of that question. Even if there have not been a lot of studies looking at these simultaneously, if you have two different factors that both cause the same adverse effect, then there’s a likelihood that they are going to be additive,” Brander said.
A coautora Shanna Swan também é citada na reportagem por ter participado de um estudo de 2017 que apontou queda superior a 50% nos níveis de esperma entre homens de países ocidentais ao longo de quatro décadas. O texto acrescenta que outras pesquisas indicam diminuição semelhante da fertilidade humana e menciona análise anterior do Institute for Health Metrics and Evaluation, da University of Washington, segundo a qual o mundo se aproxima de um futuro de baixa fertilidade, com mais de três quartos dos países abaixo da taxa de reposição até 2050.
Que medidas os pesquisadores defendem?
Segundo a reportagem, os autores afirmam que enfrentar o problema exige tanto frear a crise climática quanto reduzir o uso de químicos tóxicos. O estudo cita como exemplo a redução global do uso de DDT e PCBs sob a Convenção de Estocolmo, embora ressalte que medidas adicionais são necessárias.
A cientista Katie Pelch, do Natural Resources Defense Council, que não participou do estudo, avaliou que os autores revisaram ciência de alta qualidade e concordou com a premissa geral de que múltiplos estressores provavelmente têm, no mínimo, efeito aditivo.
“It is likely [multiple stressors] would have an additive effect, at very least, even if they have different mechanisms of harm,” Pelch added.
Ao fim, a autora principal do estudo defendeu ação com base nas evidências já disponíveis.
“There is enough evidence in both areas to act to reduce our impact on the planet,” she said.