A exposição Atlântico Sertão será aberta ao público nesta quarta-feira (15), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro de São Paulo, propondo uma releitura do sertão como espaço ampliado de resistência e de defesa dos direitos humanos por meio da arte. De acordo com informações da Agência Brasil, a mostra parte da ideia de que o sertão não é uma definição técnica reconhecida em mapas oficiais, mas uma construção simbólica, afetiva e humana, reinterpretada por artistas de diferentes regiões do país.
A mostra ocupa todos os andares do edifício do CCBB e reúne trabalhos de mais de 70 artistas, com pinturas, esculturas, fotografias e instalações. A curadoria é assinada por Marcelo Campos, Ariana Nuala, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade. A direção geral e a concepção do projeto são de Marina Maciel, a partir de pesquisas acadêmicas que deram origem ao Coletivo Atlântico.
O que a exposição propõe ao reinterpretar o sertão?
A proposta da exposição é deslocar a noção tradicional do sertão, frequentemente associada apenas à seca, à aridez e ao isolamento, para apresentá-lo como território de memória, permanência, circulação e luta. A iniciativa dialoga com a frase de Guimarães Rosa, “O sertão está em toda parte”, para tratar o termo como uma condição humana e não apenas como um recorte geográfico.
Um dos curadores, Marcelo Campos, explicou essa leitura durante a abertura da mostra para convidados.
“O sertão é um termo afetivo, não é técnico ou coisa parecida. Caatinga seria o termo mais correto. O sertão é, de fato, uma espécie de construção imaginária e imagética”
Segundo ele, a exposição também procura enfrentar estigmas históricos associados ao sertão e à floresta, apresentados como espaços marginais ou homogêneos.
“E essa exposição, agora vendo ela montada, tem um compromisso de tirar esses lugares das suas próprias estigmatizações”
Como surgiu o projeto Atlântico Sertão?
A mostra se baseia nas pesquisas de Marina Maciel e no manifesto Direitos humanos achados na arte, que deu origem ao Coletivo Atlântico. O grupo se define como um movimento social, artístico, jurídico, político e filosófico voltado à defesa dos direitos humanos por meio da arte.
Antes da etapa em São Paulo, o coletivo realizou outras exposições. A primeira, chamada Atlântico Vermelho, foi exibida em Genebra, na sede da Organização das Nações Unidas, em 2024. Depois veio Atlântico Floresta, apresentada durante as reuniões do G20, no Rio de Janeiro. Agora, Atlântico Sertão dá continuidade a esse percurso, com foco em pessoas historicamente colocadas à margem da estrutura colonial.
Marcelo Campos relacionou essa trajetória às narrativas construídas no país sobre determinados territórios e populações.
“A gente conheceu o sertão pela pena e pelas canetas dos escritores Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e tantas e tantos outros. Mas conhecemos um sertão específico, onde o grupo era chamado de povo. Era uma espécie de massa, de representação muito coletivizada e pouco de falas individuais”
O que o público encontra na visita à mostra?
A exposição foi estruturada em seis eixos e organiza a experiência do visitante por ambientes cromáticos e temáticos. O percurso começa em uma sala que reproduz o verde profundo das vegetações, associado à resistência e às veredas sertanejas. Em seguida, o público encontra uma sala azul, voltada à reflexão sobre liberdade, coletividade, cosmologias e práticas espirituais. Depois, a jornada passa por espaços em tons de laranja, vermelho e amarelo, ligados ao pôr do sol e ao fogo das lutas.
Ao longo da visita, a mostra aborda temas como:
- a relação entre terra e mar;
- as heranças indígenas, africanas e populares;
- as práticas espirituais;
- o conhecimento ancestral;
- os modos de vida e a memória;
- as conexões entre Brasil e África.
No núcleo dedicado à ligação com a África, a exposição destaca fluxos de pessoas e saberes que atravessam o Atlântico, reforçando a ideia de que o sertão também pode ser entendido como território de circulação e permanência.
No térreo, está instalada uma obra inédita da artista multimídia biarritzzz, criada especialmente para o espaço do CCBB. A instalação reúne múltiplas telas digitais em uma estrutura triangular. Sobre esse elemento, Marcelo Campos afirmou:
“O triângulo é um dos instrumentos musicais para os trios de forró e sertanejos. Mas é também um triângulo que junta a gente às sonoridades do deserto africano”
Quais são os próximos passos da exposição?
Além da visitação, a programação inclui debates com artistas e atividades educativas voltadas ao direito ao sonho, à reparação histórica e ao papel da arte na defesa dos direitos humanos. Segundo a reportagem, o Coletivo Atlântico também mantém, desde 2024, a defesa de um projeto de lei em discussão no Congresso para regulamentar a profissão de artista visual no Brasil.
Após a temporada em São Paulo, a exposição seguirá para o CCBB Salvador, em setembro, e para o CCBB Brasília, no início de 2027. A proposta é ampliar o debate sobre o sertão para além de uma imagem fixa e apresentar esse espaço como campo de criação, permanência e resistência.