Mais de duas mil pessoas se reuniram nas escadarias do Capitólio do Texas, na cidade de Austin, no último sábado (4), para protestar contra a expansão do muro da fronteira no Parque Nacional de Big Bend. A política de segurança na divisa com o México é um tema acompanhado de perto no Brasil, tanto pelos debates globais de preservação ambiental quanto pelo impacto direto sobre os milhares de imigrantes brasileiros que anualmente tentam ingressar nos Estados Unidos. O ato inédito reuniu apoio bipartidário de democratas e republicanos, que buscam impedir os planos da Casa Branca de erguer uma barreira de aço em uma das áreas naturais mais preservadas do país norte-americano.
De acordo com informações do Guardian Environment, os manifestantes carregavam cartazes com frases como “Nenhum muro no Parque Nacional Big Bend” e “Não ao Muro”. Durante o evento, os organizadores também coletaram milhares de cartões-postais assinados pelo público para entregar ao governador do estado, Greg Abbott, que ainda não se pronunciou publicamente sobre a expansão na região.
Por que políticos de diferentes partidos se uniram contra o muro?
O senador democrata César Blanco revelou que seu escritório foi inundado por mensagens de eleitores preocupados com a possível destruição do ecossistema local. Segundo o parlamentar, a segurança fronteiriça é importante, mas não deve ocorrer às custas de áreas de preservação ambiental que abrigam memórias de inúmeras famílias.
Não há nada igual a essa região em nenhum lugar do mundo. Todos concordamos que a segurança nas fronteiras é importante. Mas não precisamos prejudicar nossas comunidades no processo. Não precisamos destruir o ecossistema para conseguir isso. Podemos fazer isso da maneira certa.
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Surpreendentemente, a oposição ao projeto também ecoou fortemente entre os conservadores. Brandon Herrera, influenciador de direita e candidato ao Congresso pela região, afirmou que rejeitar a obra é um ponto de consenso absoluto. Jerry Patterson, ex-comissário de terras do Texas e membro do Partido Republicano, liderou cânticos contra a estrutura, destacando não ter encontrado um único cidadão a favor do projeto na área.
Quais são os impactos ambientais e históricos apontados no Texas?
Além da classe política, especialistas e moradores locais manifestaram profunda preocupação com as consequências práticas da construção. Os ativistas apontam que a barreira física bloquearia o acesso vital ao rio para espécies nativas e ameaçaria o patrimônio cultural. Entre os principais fatores de risco levantados estão:
- Carneiros-selvagens e ursos-negros que dependem da água para sobrevivência;
- Locais arqueológicos e dezenas de murais de arte rupestre;
- Paisagens sagradas para diversas comunidades nativas americanas;
- Trilhas turísticas e ecossistemas montanhosos na região de Chisos.
A antropóloga Carolyn Boyd alertou para o risco de apagamento histórico provocado pela obra de infraestrutura no parque nacional.
Estes não são apenas sítios arqueológicos. São paisagens sagradas. São bibliotecas do conhecimento humano. São as vozes de 175 gerações preservadas nas paredes dos cânions. E muitos desses lugares permanecem sagrados para as comunidades nativas americanas de hoje.
O Parque Nacional de Big Bend representa a maior extensão contínua de terras públicas do estado. A região é amplamente valorizada por suas paisagens desérticas, rios ideais para rafting e céus escuros propícios para a observação astronômica. Relatos de moradores, como Brenner Burgess e Sara Reid, que realizaram seu casamento no local, exemplificam a forte conexão pessoal da população texana com o parque.
Como o governo federal tem tratado o projeto de fronteira?
A polêmica ganhou força após a aprovação de uma legislação impulsionada pelo governo de Donald Trump, que destinou impressionantes 46,5 bilhões de dólares para a construção da barreira fronteiriça. Para efeito de comparação, o orçamento total do Serviço Nacional de Parques é de apenas 3,3 bilhões de dólares anuais. No mês de fevereiro, a agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) atualizou um mapa online indicando a instalação de pilares de aço em trechos protegidos.
Simultaneamente, a então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, suspendeu uma série de leis de proteção ambiental e histórica para acelerar as obras ao longo de um trecho de 805 quilômetros na divisa com o México. Diante da condenação generalizada, a CBP recuou e alterou os mapas diversas vezes, sugerindo que usaria apenas tecnologia de detecção nas áreas de preservação, em vez de barreiras físicas.
Apesar das alterações nos mapas oficiais, o clima de incerteza permanece entre os cidadãos. A agência federal ainda não garantiu formalmente que poupará as reservas ambientais. Essa hesitação levou grupos de opositores a pressionar o Congresso norte-americano para que aprove uma lei proibindo explicitamente a construção de qualquer estrutura física dentro dos limites dos parques nacionais, garantindo assim a preservação definitiva do ecossistema local.
