Um artigo do Guardian Environment, publicado em 22 de abril de 2026, afirma que o programa 7News Spotlight, da Channel Seven, exibido no horário nobre de domingo na Austrália, apresentou uma investigação sobre energia renovável e baterias sem incluir contexto essencial, sem assegurar equilíbrio jornalístico e sem dar direito de resposta ao setor australiano de energias renováveis. De acordo com informações do Guardian Environment, a reportagem associou a expansão da energia limpa ao uso de cobalto extraído em condições precárias na República Democrática do Congo, além de sugerir impactos ambientais e dependência da China.
Assinado por Graham Readfearn, o texto sustenta que a produção televisiva falhou ao omitir dados relevantes sobre a cadeia do cobalto, sobre tecnologias de baterias que não usam esse mineral e sobre respostas de instituições e empresas citadas. Segundo o artigo, a abordagem do programa transformou a transição energética em um empreendimento moralmente questionável, sem apresentar aos telespectadores informações consideradas decisivas para compreender o tema.
O que a reportagem da TV australiana mostrou sobre o cobalto?
O programa levou o repórter Liam Bartlett a uma mina artesanal na região de Kolwezi, na República Democrática do Congo, onde foram exibidas imagens de trabalhadores e crianças em condições severas de exploração. Na reportagem, Bartlett afirmou que quase 80% do cobalto do mundo é extraído em locais como aquele e sugeriu que o mineral estaria presente em todas as baterias, de veículos elétricos a sistemas domésticos e grandes baterias conectadas à rede elétrica.
O artigo do Guardian reconhece que as condições mostradas são graves e já documentadas por outros veículos, mas afirma haver dois problemas centrais na forma como o programa ligou essas imagens à expansão da energia renovável. O primeiro, segundo o texto, é que a mina visitada era artesanal, enquanto uma pesquisa do US Geological Survey citada pelo artigo indicou que, em 2020, cerca de 90% do cobalto produzido no Congo não veio desse tipo de extração manual, mas de mineração industrializada.
O texto também informa que, de acordo com um grupo do setor representando empresas produtoras de cobalto, cerca de 99% do mineral é obtido como subproduto da extração de outros minerais, principalmente níquel e cobre. Além disso, o artigo ressalta que o programa concentrou sua narrativa em baterias para energia renovável, embora aproximadamente um terço do cobalto seja usado em laptops e smartphones, além de motores de avião, implantes médicos, pneus e pigmentos.
É correto dizer que toda bateria usa cobalto?
Segundo o Guardian, não. O artigo cita o professor Neeraj Sharma, especialista em tecnologia de baterias da Universidade de New South Wales, para contestar diretamente essa afirmação. No texto, Sharma diz que fabricantes vêm reduzindo o uso de cobalto porque o material é tóxico, caro e eticamente problemático.
“That’s not true”
De acordo com o artigo, Sharma afirmou que muitas empresas de veículos elétricos e fabricantes de grandes baterias já utilizam a tecnologia de fosfato de ferro-lítio, conhecida como LFP, que dispensa cobalto. Ainda segundo ele, no ano anterior, cerca de metade das baterias de veículos elétricos e 90% das baterias residenciais e em escala de rede usaram tecnologia sem cobalto. O Guardian diz que esse contexto não foi apresentado aos espectadores do programa.
O texto acrescenta que um porta-voz da Seven reconheceu que a tecnologia de baterias está evoluindo e é essencial para o futuro renovável, mas não explicou por que essa informação não apareceu na exibição.
Como o artigo contesta a ligação entre abusos e projetos específicos?
O Guardian afirma que Bartlett fez apenas uma alegação concreta conectando o chamado “blood cobalt” a um projeto australiano específico: a bateria de Hornsdale, no sul da Austrália. Diante do local, o repórter disse que, segundo a Anistia Internacional, a instalação quase certamente conteria cobalto associado a abusos vindos do Congo.
Ao checar a declaração, o Guardian informa ter consultado a Anistia Internacional. Segundo o artigo, Nikita White, responsável por campanhas internacionais da organização na Austrália, declarou que a entidade revisou seus materiais sobre mineração de cobalto e que, até onde sabe, a Anistia Internacional Austrália não fez conexão específica entre práticas de mineração na República Democrática do Congo e a empresa que opera a bateria de Hornsdale.
“We have reviewed our materials on cobalt mining and as far as we’re aware Amnesty International Australia has not made any specific connection between the mining practices in the DRC and the company that operates the Hornsdale battery. We also do not generally use the term ‘blood cobalt’.”
O artigo ainda relata que um porta-voz da Seven disse que a referência sobre Hornsdale estava baseada em um relatório de 2017 da Anistia que avaliou negativamente os esforços da Tesla para impedir abusos de direitos humanos em sua cadeia de fornecimento de cobalto.
Quais outras omissões foram apontadas no caso da Tasmânia e do setor renovável?
Outra frente criticada pelo Guardian envolve uma mina operada pela MMG na floresta de Tarkine, na Tasmânia. Segundo o artigo, o programa informou aos telespectadores que uma empresa chinesa operava uma mina de zinco, cobre e chumbo “bem no meio” dessa área sensível. No entanto, o texto destaca que a mina está em operação desde 1936 e foi adquirida por interesses chineses em 2009.
O artigo também afirma que a reportagem abordou os planos controversos para uma barragem de rejeitos na área de Tarkine, ouvindo o ambientalista Bob Brown, mas sem informar que, dois meses antes, a empresa havia proposto uma localização alternativa para a estrutura, fora da floresta. Segundo o Guardian, a própria MMG declarou ao programa que não tinha planos atuais para avançar com o local em Tarkine, informação que não foi ao ar.
Além disso, o texto sustenta que o Clean Energy Council, entidade que representa a indústria de energia renovável na Austrália, não foi procurado para comentar a reportagem. Fora uma troca de declarações com o ministro federal da Energia, Chris Bowen, nos minutos finais, o programa não teria exibido contrapontos ao longo dos 50 minutos.
- O artigo aponta ausência de direito de resposta ao setor de energia renovável.
- Contesta a afirmação de que toda bateria usa cobalto.
- Destaca que parte relevante do contexto sobre mineração e tecnologia ficou fora da reportagem.
- Afirma que informações da MMG sobre Tarkine não foram levadas ao público.
No conjunto, o texto do Guardian conclui que a investigação televisiva tentou associar a transição energética a violações e contradições morais, mas o fez sem apresentar informações básicas que, segundo o artigo, seriam necessárias para respeitar padrões elementares do jornalismo.