O endividamento entre jovens no Brasil cresceu de forma acelerada e passou a evidenciar falhas estruturais na educação financeira, segundo dados do Banco Central do Brasil reunidos no Relatório de Cidadania Financeira 2025. O estudo, citado em reportagem publicada em 21 de abril de 2026, mostra que 87% dos brasileiros erram cálculos básicos de juros e que, em oito anos, o total de jovens endividados dobrou, chegando a 27,6 milhões. De acordo com informações do Monitor Mercantil, o diagnóstico aponta para a necessidade de ampliar a educação financeira desde a escola.
O relatório também associa o avanço das dívidas a efeitos concretos na vida cotidiana. Quase metade dos entrevistados relata impacto do endividamento na saúde e no ambiente familiar. Na avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem original, o acesso crescente ao crédito, sem preparo adequado para lidar com contratos, juros e planejamento, amplia a vulnerabilidade de parte da população, especialmente entre os mais jovens.
Por que o baixo letramento financeiro preocupa?
Para Luis Salvatore, presidente do IBS, o resultado não é pontual, mas consequência de um tema que ficou por décadas fora do currículo escolar. Ele afirma que a escola é o espaço capaz de alcançar alunos de diferentes rendas e regiões, o que ajudaria a democratizar conhecimentos básicos sobre orçamento, crédito e dívida.
“A escola é o único lugar onde conseguimos alcançar todo mundo, independentemente de renda, região ou família. O Banco Central acaba de publicar o Relatório de Cidadania Financeira 2025, e os números são contundentes: 87% dos brasileiros erraram uma questão básica de cálculo de juros simples.”
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Ainda segundo Salvatore, a educação financeira não deve se limitar ao incentivo à poupança. A proposta, de acordo com a reportagem, é formar cidadãos capazes de compreender contratos, avaliar o custo do crédito e tomar decisões conscientes ao longo da vida.
“Sem isso, a inclusão financeira que o Brasil tanto avançou nos últimos anos pode virar apenas inclusão no risco”.
A escola resolve o problema sozinha?
O professor e economista Antonio Loureiro avalia que a educação financeira escolar é necessária, mas insuficiente se não vier acompanhada de condições materiais para aplicação prática desse conhecimento. Na análise dele, ensinar a poupar ou investir tem alcance limitado quando a renda é insuficiente para sustentar esse comportamento.
“Ela precisa ser entendida como um dos pilares de uma transformação muito mais ampla. Antes de ensinar alguém a poupar ou investir, é preciso garantir que essa pessoa tenha renda disponível para isso. O letramento financeiro sem substrato de renda é teoria sem aplicação”.
Segundo o economista, fatores como cultura familiar, acesso ao mercado de trabalho e ambiente macroeconômico influenciam diretamente a conversão do aprendizado em prática. Assim, o debate não se restringe ao conteúdo ensinado em sala, mas alcança desigualdade de renda, inflação e juros.
Como o tema aparece hoje nas escolas?
A reportagem informa que a Base Nacional Comum Curricular prevê a educação financeira como tema obrigatório de forma transversal. Também há programas do próprio Banco Central voltados para escolas públicas. Apesar disso, especialistas apontam distância entre a previsão formal e a implementação efetiva nas salas de aula.
Entre os pontos destacados como necessários para que o ensino funcione de forma contínua, estão:
- integração do tema ao currículo de disciplinas como Matemática, Português e História;
- formação continuada de professores;
- uso de ferramentas práticas, como jogos pedagógicos;
- acompanhamento do aprendizado ao longo do ano letivo.
Para Salvatore, ações isoladas, como palestras pontuais, não produzem mudança consistente de comportamento. Na visão apresentada na reportagem, o estudante tende a assimilar melhor o conteúdo quando relaciona decisões financeiras a situações concretas do cotidiano.
O que os dados mostram sobre jovens e crédito?
Os números do Banco Central indicam avanço rápido do crédito entre os mais jovens. Em 2016, eram 13,7 milhões de jovens endividados; agora, o contingente chegou a 27,6 milhões. Entre os jovens de baixa renda, 17,4% já estão inadimplentes, de acordo com os dados reproduzidos pela reportagem.
Na interpretação de Salvatore, muitos desses jovens têm contato com o primeiro cartão de crédito sem planejamento financeiro de longo prazo. Para ele, quando a educação financeira começa ainda na infância, antes do acesso ao crédito, a relação com esse instrumento tende a ser mais consciente.
Qual é o limite da educação financeira diante da desigualdade?
Loureiro pondera que o diagnóstico do Banco Central acerta ao identificar o problema do baixo letramento financeiro, mas pode ser limitado se tratar o conhecimento como solução principal. Segundo ele, a realidade econômica pesa de forma desigual sobre grupos de renda diferentes, o que afeta a capacidade real de planejar e poupar.
“O obstáculo real é estrutural. Não se trata apenas de saber poupar, mas de poder poupar”.
Com isso, a discussão sobre endividamento juvenil, conforme apresentado na reportagem, reúne dois eixos centrais: a necessidade de ampliar a educação financeira nas escolas e a influência de fatores econômicos mais amplos sobre a vida dos jovens brasileiros.