Um estudo publicado na quarta-feira, 22 de abril de 2026, concluiu que a maior parte das promessas climáticas feitas por grandes empresas da indústria de carne e laticínios não resiste à análise acadêmica. A pesquisa examinou mais de 1.200 declarações ambientais de companhias do setor e classificou 98% delas como greenwashing, termo usado para descrever alegações ambientais sem base suficiente. De acordo com informações do Inside Climate News, o levantamento foi publicado na revista PLOS Climate e se soma a questionamentos crescentes sobre a compatibilidade entre a expansão da produção animal e as metas globais de redução de emissões.
O trabalho analisou promessas de redução de gases de efeito estufa e de neutralidade de carbono em operações de grandes companhias do setor. Entre os casos citados está a JBS, que havia divulgado, cinco anos antes, um anúncio afirmando ser possível produzir bacon, asas de frango e bife com emissões líquidas zero. Segundo a nova pesquisa, essa e outras promessas semelhantes feitas por gigantes da proteína animal carecem, em sua maioria, de evidências consistentes.
O que o estudo identificou sobre as promessas climáticas?
Os autores revisaram sites corporativos e relatórios anuais de sustentabilidade de 33 empresas do setor de pecuária e produção animal. Ao todo, encontraram 1.233 alegações ambientais e climáticas. Dessas, apenas 356 tinham algum tipo de evidência de apoio, e somente cinco apresentavam respaldo em pesquisa acadêmica, segundo o texto original.
Com base em uma estrutura empírica de avaliação de greenwashing, os pesquisadores concluíram que 98% das alegações poderiam ser enquadradas nessa categoria. A autora Jennifer Jacquet, professora de ciência e política ambiental da Universidade de Miami, afirmou que parte relevante dessas iniciativas parece mais ligada à comunicação institucional do que a compromissos verificáveis de mitigação climática.
“We’re at this moment where we’re really trying to understand what is a real commitment to saving our planet and what is public relations,” said Jennifer Jacquet, one of the report’s authors. “And a lot of this is public relations.”
Por que a indústria da pecuária está no centro desse debate?
Segundo o artigo, a agropecuária animal responde por pelo menos 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa. Esse dado tem levado pesquisadores e especialistas em política climática a defender a redução do consumo de carne, especialmente em países desenvolvidos, onde a ingestão de carne e laticínios é desproporcionalmente maior.
O texto também afirma que pesquisas anteriores indicam ser impossível atingir metas globais de redução de emissões sem cortes significativos no consumo mundial de produtos de origem animal, mesmo com reduções radicais no uso de combustíveis fósseis. Nesse contexto, promessas corporativas vagas ou sem plano claro passam a ter peso maior no debate público e regulatório.
- Mais de 1.200 alegações ambientais foram analisadas
- 356 tinham algum tipo de evidência de apoio
- Apenas cinco citavam respaldo acadêmico
- 98% foram classificadas como greenwashing
Como a JBS aparece no estudo e em ações recentes?
A reportagem destaca que a JBS mudou sua posição nos últimos anos. Em 2019, a companhia afirmou que não tinha responsabilidade pelas emissões de gases de efeito estufa em suas cadeias de suprimento. Dois anos depois, passou a prometer emissões líquidas zero até 2040. Essa mudança atraiu atenção jurídica.
Em 2024, a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, processou a divisão americana da empresa, acusando-a de enganar o público ao manter planos de expansão da produção incompatíveis com suas promessas climáticas. Em novembro do ano passado, segundo o artigo, a empresa fechou um acordo e concordou em pagar R$ 1,1 milhão em dólares, valor descrito originalmente como US$ 1.1 million, destinado a agricultores de Nova York para adoção de práticas agropecuárias de redução de emissões. A reportagem informa ainda que a JBS não respondeu ao pedido de comentário do veículo.
“When companies falsely advertise their commitment to sustainability, they are misleading consumers and endangering our planet,” James said in a press release at the time. “JBS USA’s greenwashing exploits the pocketbooks of everyday Americans and the promise of a healthy planet for future generations.”
Quais empresas apresentaram metas e quais lacunas permanecem?
Os autores compararam os dados com um estudo anterior, de 2021, que havia avaliado 35 companhias globais do setor. Na análise mais recente, foram consideradas 33 empresas, porque uma havia sido adquirida e outra não tinha relatório de sustentabilidade disponível em inglês. Segundo a pesquisa, 17 dessas companhias passaram a fazer promessas de neutralidade climática.
Apesar disso, Jennifer Jacquet afirmou que, assim como no caso da JBS, nenhuma delas apresentou um caminho claro de implementação dessas metas. O artigo informa que apenas a Nestlé anunciou compromisso financeiro relacionado a medidas climáticas, com investimento de cerca de US$ 4 bilhões. Para os pesquisadores, a falta de metas operacionais detalhadas e de evidência científica robusta enfraquece a credibilidade das declarações públicas do setor.
O estudo ainda menciona que algumas empresas relatam medidas pontuais, como redução do tempo de caminhões parados, menor uso de papel em instalações específicas, melhorias genéticas em animais para maior eficiência no uso de recursos e intenção de adotar ração para reduzir metano. Para os autores, porém, essas iniciativas não demonstram, por si só, um plano suficiente para cumprir metas amplas de neutralidade de carbono.
“They make many promises and provide very little supporting evidence,” the study concludes. “Like the fossil fuel industry, which has used greenwashing over the last several decades to delay meaningful climate action, the meat and dairy industry may be misleading consumers and investors regarding whether and to what extent they are addressing environmental impacts, including climate change, with even less time to spare.”