A crise global do petróleo desencadeada pela guerra envolvendo o Irã alterou de forma permanente a indústria de combustíveis fósseis, segundo Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia. Em entrevista publicada nesta sexta-feira, 24 de abril de 2026, Birol afirmou que governos devem rever suas estratégias energéticas, ampliar o uso de renováveis e energia nuclear e acelerar a eletrificação para reduzir a dependência de combustíveis fósseis diante de riscos de oferta e segurança energética. De acordo com informações do Guardian Environment, ele também avaliou que o Reino Unido não deveria apostar em grande parte da expansão planejada no Mar do Norte.
Ao jornal britânico, Birol disse que um dos principais efeitos da guerra entre EUA e Israel contra o Irã seria a perda de confiança dos países nos combustíveis fósseis como base confiável para a segurança energética. Na avaliação do economista, isso tende a reduzir a demanda por petróleo e gás nos principais mercados ao longo dos próximos anos.
“Their perception of risk and reliability will change. Governments will review their energy strategies. There will be a significant boost to renewables and nuclear power and a further shift towards a more electrified future,” he said. “And this will cut into the main markets for oil.”
Birol afirmou ainda que a crise terá efeitos duradouros sobre o mercado global de energia e sugeriu que não haverá retorno ao cenário anterior. A declaração reforça a leitura de que a instabilidade geopolítica passou a ser um fator central para acelerar a transição energética em diferentes países.
“The vase is broken, the damage is done – it will be very difficult to put the pieces back together. This will have permanent consequences for the global energy markets for years to come.”
Por que a crise do petróleo pode acelerar a transição energética?
Segundo Birol, a percepção de risco associada ao fornecimento de combustíveis fósseis deve levar governos a buscar fontes consideradas mais previsíveis. Nesse contexto, ele apontou crescimento relevante para energias renováveis e para a energia nuclear, além de uma expansão de soluções eletrificadas.
Na entrevista, o diretor da IEA também alertou que preços elevados dos combustíveis fósseis podem pressionar países em desenvolvimento a recorrer ao carvão. Ao mesmo tempo, afirmou que a energia solar já compete com o carvão em custo e segue em expansão mais acelerada, o que pode oferecer uma alternativa sem arrependimento para a política energética.
- Revisão de estratégias energéticas por governos
- Maior impulso para renováveis e energia nuclear
- Avanço de uma economia mais eletrificada
- Possível redução da demanda estrutural por petróleo
Birol também disse que os impactos da crise devem alcançar outros setores, como fertilizantes, alimentos, hélio e software, mesmo se o estreito de Ormuz for reaberto. Para ele, a dimensão do problema supera crises anteriores e expõe a vulnerabilidade da economia global a um ponto estratégico de apenas 50 quilômetros.
O que Fatih Birol disse sobre o Mar do Norte no Reino Unido?
Ao tratar do caso britânico, Birol afirmou que campos já debatidos no Mar do Norte, como Jackdaw e Rosebank, não fariam diferença relevante para a segurança energética do Reino Unido nem alterariam os preços de petróleo e gás. A indústria e aliados políticos têm defendido mais perfurações na região, incluindo a liberação desses campos, que receberam licenças de exploração, mas ainda não permissões de produção.
“It is up to the government, but these fields would not change much for the UK’s energy security, nor would they change the price of oil and gas. They would not make any significant difference to this crisis.”
Ele também demonstrou cautela em relação à concessão de novas licenças de exploração por razões comerciais. Segundo Birol, novos projetos levariam anos para entregar volumes significativos e não reduziriam as contas de energia no Reino Unido, que continuaria dependente de importações e dos preços internacionais.
“They won’t provide any significant quantities of oil and gas for many years to come,” Birol said. “They will not lower the bills, the UK will remain a significant importer and price taker on international markets. I am not even talking about the climate change effects – just from a business point of view, making a major investment in exploration might not make business sense.”
Birol diferenciou, porém, a expansão de campos já existentes por meio de tiebacks, modalidade em que a vida útil de áreas em operação é estendida. Nesse caso, afirmou que esses projetos deveriam avançar.
Quais foram as reações políticas e o próximo passo do debate?
As declarações de Birol foram bem recebidas dentro do governo britânico, segundo o Guardian. O Partido Trabalhista chegou ao poder prometendo proibir futuras licenças de exploração, mas ainda deixou em aberto o destino de projetos já em tramitação, como Jackdaw e Rosebank. Ministros vêm sofrendo pressão da indústria de petróleo e gás, da oposição e de setores da mídia para autorizar os campos e rever a proibição de novas explorações.
Especialistas e representantes de organizações citados pela reportagem defenderam que a avaliação do chefe da IEA seja levada em conta no debate público. O tema deve voltar ao centro das discussões na próxima semana, quando mais de 50 governos, incluindo Reino Unido, União Europeia, grandes produtores de petróleo e países em desenvolvimento, se reunirão na Colômbia para a primeira conferência internacional dedicada à transição para longe dos combustíveis fósseis.