O sistema de correntes do Atlântico conhecido como Circulação Meridional do Atlântico (Amoc) pode estar mais próximo de um colapso do que estimativas anteriores indicavam, segundo uma nova pesquisa divulgada em 15 de abril. O estudo, relatado pelo Guardian Environment, concluiu que os modelos climáticos que projetam a maior desaceleração do sistema são os que mais se aproximam das observações reais do oceano. Segundo os cientistas, isso eleva a preocupação porque um colapso da Amoc teria efeitos severos sobre Europa, África e Américas.
A Amoc é uma parte central do sistema climático global. Ela transporta águas quentes dos trópicos em direção à Europa e ao Ártico, onde essas águas esfriam e afundam, formando uma corrente de retorno em profundidade. O sistema já era descrito como o mais fraco em 1.600 anos em razão da crise climática, e pesquisadores já haviam identificado sinais de alerta de um possível ponto de não retorno em 2021.
O que o novo estudo concluiu sobre a Amoc?
Os cientistas analisaram dezenas de modelos climáticos usados para projetar o futuro do clima. No caso da Amoc, esses modelos apresentavam resultados muito diferentes entre si: alguns indicavam que não haveria desaceleração adicional até 2100, enquanto outros apontavam uma redução de cerca de 65%, mesmo em cenários de corte gradual das emissões de combustíveis fósseis até o nível líquido zero.
A nova pesquisa combinou observações reais do oceano com esses modelos para identificar quais eram os mais confiáveis. Com isso, a margem de incerteza foi reduzida. A estimativa resultante aponta para uma desaceleração entre 42% e 58% até 2100, um patamar que, segundo o texto, quase certamente terminaria em colapso.
O estudo foi publicado na revista científica Science Advances. Os autores também testaram quatro formas diferentes de usar dados observacionais para avaliar os modelos e concluíram que um método chamado ridge regression ofereceu os melhores resultados. Segundo a reportagem, essa abordagem ainda havia sido pouco utilizada na ciência do clima.
Por que os cientistas consideram o resultado preocupante?
O pesquisador Valentin Portmann, do Inria Centre de recherche Bordeaux Sud-Ouest, na França, que liderou o trabalho, afirmou:
“We found that the Amoc is going to decline more than expected compared to the average of all climate models. This means we have an Amoc that is closer to a tipping point.”
Stefan Rahmstorf, do Potsdam Institute for Climate Impact Research, na Alemanha, também classificou o resultado como preocupante:
“This is an important and very concerning result. It shows that the ‘pessimistic’ models, which show a strong weakening of the Amoc by 2100, are, unfortunately, the realistic ones, in that they agree better with observational data.”
Rahmstorf acrescentou:
“I now am increasingly worried that we may well pass that Amoc shutdown tipping point, where it becomes inevitable, in the middle of this century, which is quite close.”
De acordo com a reportagem, Rahmstorf, que estuda a Amoc há 35 anos, já defendia que um colapso deveria ser evitado “a qualquer custo”. Ele disse ainda que, se antes a probabilidade de paralisação era considerada em torno de 5%, agora o risco parece estar acima de 50%.
Quais seriam os impactos de uma desaceleração extrema ou colapso?
Segundo os pesquisadores citados na matéria, uma ruptura da Amoc deslocaria a faixa de chuvas tropicais da qual dependem milhões de pessoas para produzir alimentos, provocaria invernos extremamente frios e verões com seca no oeste da Europa e acrescentaria entre 50 e 100 centímetros ao nível do mar já em elevação em áreas do Atlântico.
A desaceleração ocorre, de acordo com o estudo, porque as temperaturas do ar estão subindo rapidamente no Ártico por causa do aquecimento global. Com isso, o oceano esfria mais lentamente nessa região. A água mais quente é menos densa e afunda mais devagar. Além disso, o acúmulo de chuva sobre as águas superficiais salgadas reduz ainda mais a densidade, enfraquecendo o afundamento e reforçando um ciclo de retroalimentação.
- Deslocamento da faixa de chuvas tropicais
- Risco para a produção de alimentos em regiões dependentes dessas chuvas
- Invernos extremos e secas de verão no oeste da Europa
- Elevação adicional do nível do mar entre 50 e 100 centímetros no Atlântico
Os cientistas observam, no entanto, que a Amoc é um sistema altamente complexo e sujeito a variações naturais aleatórias, o que impede previsões exatas. Ainda assim, a expectativa de uma forte desaceleração já é considerada plausível e, por si só, pode gerar impactos relevantes nas próximas décadas.
A reportagem também destaca uma limitação dos modelos atuais: eles não incluem a água do degelo da camada de gelo da Groenlândia, que também reduz a salinidade do oceano. Para Rahmstorf, esse fator adicional sugere que a situação real pode ser ainda pior do que a estimativa mais pessimista apresentada no novo estudo.