A Clarifai, empresa de inteligência artificial com foco em reconhecimento facial, informou que apagou cerca de três milhões de fotos de usuários do OkCupid e também os modelos treinados com essas imagens, após o acordo firmado pela FTC, órgão de defesa da concorrência e do consumidor dos Estados Unidos, com a plataforma de relacionamentos e sua controladora Match Group. A medida foi certificada em sete de abril de 2026 e divulgada após desdobramentos de um caso iniciado em 2014, quando os dados teriam sido transferidos sem conhecimento dos usuários e em desacordo com a política de privacidade do próprio site. De acordo com informações do The Next Web, com base em documento visto pela Reuters, a Clarifai também afirmou que não compartilhou esses dados com terceiros.
O episódio remonta a mais de uma década. Segundo o relato, os fundadores do OkCupid eram investidores da Clarifai, e o fundador da empresa de IA, Matthew Zeiler, procurou em 2014 o cofundador do site de namoro, Maxwell Krohn, para pedir acesso aos dados da plataforma. O OkCupid então repassou quase três milhões de fotos de usuários, além de informações de localização e dados demográficos, sem acordo formal, sem restrições claras de uso e sem avisar os titulares das contas ou oferecer opção de recusa.
Como ocorreu a transferência de dados entre OkCupid e Clarifai?
De acordo com os documentos citados no texto original, a transferência ocorreu apesar de a política de privacidade do OkCupid à época afirmar que a empresa não compartilharia dados pessoais com partes fora de um conjunto definido de relações comerciais. A Clarifai, segundo a reportagem, não se enquadrava nessa lista.
O texto também reproduz uma fala atribuída a Matthew Zeiler em documentos judiciais mencionados pela Reuters. Na mensagem, ele justificava o interesse da empresa em ampliar sua base de dados para treinamento de sistemas de IA.
“We’re collecting data now and just realized that OKCupid must have a HUGE amount of awesome data for this,”
A investigação da FTC foi aberta após uma reportagem publicada pelo The New York Times em 2019. Ainda assim, o caso levou anos para chegar a um desfecho formal. A proposta de ordem de consentimento foi anunciada em 30 de março de 2026 e impôs restrições ao OkCupid e à Match Group, que também opera o Tinder, proibindo as empresas de distorcer suas práticas de uso de dados pelos próximos 20 anos.
Por que o acordo chamou atenção de parlamentares e analistas?
Um dos principais pontos de crítica foi a ausência de penalidade financeira. Segundo a reportagem, a FTC não tem autoridade para aplicar multas nesse tipo de violação com base na Seção 5 da FTC Act. A Clarifai, por sua vez, não foi acusada de irregularidade, porque teria recebido os dados a partir de um pedido, e não iniciado a transferência de forma independente.
A deputada norte-americana Lori Trahan afirmou que a confirmação de exclusão feita pela Clarifai foi “um passo na direção certa”, mas avaliou que a FTC não deveria ter aceitado um acordo menos rigoroso. O caso também é descrito como a primeira ação de privacidade com base na Seção 5 sob a presidência de Andrew Ferguson na FTC.
Analistas jurídicos do escritório Venable, citados na reportagem, observaram que, ao contrário de muitos acordos anteriores da FTC em casos de privacidade, este não impõe exigências contínuas de programa de conformidade nem obrigações afirmativas de notificação às empresas envolvidas.
Quais riscos estavam envolvidos no uso dessas imagens?
O perfil técnico dos dados ajudou a ampliar a repercussão do caso. A Clarifai mantém produtos de reconhecimento facial capazes de identificar indivíduos e analisar idade, raça e gênero com base em imagens. Segundo o texto, a empresa já firmou contratos com o Exército dos Estados Unidos e recebeu investimento da Nvidia.
O uso de fotos publicadas em uma plataforma de relacionamentos, em contexto considerado mais íntimo e com expectativa de privacidade por parte dos usuários, levanta questionamentos adicionais sobre consentimento e reutilização de dados pessoais em sistemas de IA. A reportagem ressalta que ainda não está claro se modelos derivados ou eventuais licenciamentos anteriores podem ter preservado efeitos desse treinamento em outras partes do ecossistema de inteligência artificial.
- A exclusão foi certificada à FTC em sete de abril de 2026.
- A Clarifai disse em 16 de abril que apagou os modelos treinados com os dados.
- Segundo a empresa, os dados não foram compartilhados com terceiros.
- O acordo da FTC não previu multa financeira.
Também não foi informado por quanto tempo os modelos permaneceram em operação antes da exclusão. Esse ponto, segundo a reportagem, segue sem resposta pública. Assim, embora a remoção dos arquivos e dos modelos tenha sido formalizada, o caso continua a servir como referência no debate sobre responsabilidade, transparência e limites para o uso de dados pessoais no treinamento de tecnologias de reconhecimento facial.