Alysa Liu, patinadora artística dos Estados Unidos, e seu pai, Arthur Liu, foram alvo de vigilância e assédio atribuídos por autoridades americanas a uma operação ligada ao governo da China, segundo reportagem publicada em 20 de abril de 2026. O caso, relatado pela revista Wired, envolve ações de monitoramento na Califórnia em 2021, acusações criminais nos Estados Unidos e suspeitas de repressão transnacional contra dissidentes chineses que vivem no exterior.
De acordo com informações da Wired, Matthew Ziburis foi visto em 16 de novembro de 2021 em um bairro residencial da região da baía de São Francisco monitorando Arthur Liu e sua filha adolescente. Segundo o relato, ele telefonou para Arthur se passando falsamente por integrante do Comitê Olímpico dos Estados Unidos e pediu cópias dos passaportes dele e da filha sob o pretexto de uma checagem de preparação para viagem a Pequim.
Arthur Liu contou à revista que o pedido pareceu incomum, já que nunca havia recebido uma solicitação semelhante em anos de relacionamento com entidades esportivas. Naquele momento, Alysa se preparava para representar os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, previstos para o ano seguinte. Antes disso, ela já havia se destacado nacionalmente na patinação artística ainda muito jovem.
Como a vigilância contra Arthur e Alysa Liu teria ocorrido?
Segundo a reportagem, Ziburis teria sido enviado ao norte da Califórnia por Frank Liu, descrito no texto como um articulador da comunidade chinesa em Long Island, no estado de Nova York. Por sua vez, Frank Liu receberia ordens de uma pessoa identificada como Qiang Sun, que, de acordo com autoridades dos Estados Unidos citadas pela Wired, agiria em nome do governo chinês.
A operação, porém, já estaria sob observação das autoridades americanas. A revista relata que um investigador privado que antes havia trabalhado para Frank Liu alertou o FBI e passou a colaborar com os investigadores. Assim, quando Ziburis chegou à Califórnia, agentes já acompanhavam seus passos enquanto ele observava a casa de Arthur Liu e visitava seu escritório de advocacia.
Arthur afirmou à Wired que até um vizinho notou a presença suspeita de Ziburis perto do escritório e foi abordá-lo. Segundo o relato, o FBI telefonou para alertar Arthur de que o homem seguia em direção à sua residência. Naquele momento, Arthur e Alysa já estavam embarcando em um voo para deixar a Califórnia. A reportagem reproduz uma fala direta de Arthur sobre o episódio:
“It was like a movie”
Quem são os envolvidos e quais acusações existem no caso?
A Wired informa que Matthew Ziburis e Frank Liu foram presos em 15 de março de 2022. Ambos foram acusados de perseguir e assediar dissidentes chineses nos Estados Unidos em nome de Pequim. Já Qiang Sun, apontado pelas autoridades como peça central da cadeia de comando, continuaria foragido e estaria na China.
Em dezembro de 2022, Ziburis se declarou culpado por conspiração para atuar como agente ilegal da China e por conspiração para praticar perseguição e assédio interestaduais, segundo a reportagem. As autoridades americanas afirmam que ele recebeu mais de US$ 100 mil pelo trabalho. Frank Liu, por sua vez, sustenta inocência, e a matéria informa que o processo dele em Nova York deve avançar para novas etapas preliminares no verão local.
- 16 de novembro de 2021: vigilância contra Arthur e Alysa Liu na Califórnia
- 15 de março de 2022: prisão de Matthew Ziburis e Frank Liu
- Dezembro de 2022: Ziburis se declara culpado, segundo a Wired
Qual é o contexto político e familiar citado pela reportagem?
A história de Arthur Liu é apresentada pela Wired como ligada ao movimento pró-democracia de 1989 na China. Segundo o texto, ele participou dos protestos daquele ano e, após a repressão na Praça da Paz Celestial, mudou-se para os Estados Unidos, onde passou a viver na Califórnia. A reportagem relaciona esse passado ao interesse das autoridades chinesas em monitorá-lo décadas depois.
No campo esportivo, a matéria afirma que Alysa Liu teve desempenho abaixo do esperado em Pequim em 2022, depois se afastou da modalidade e retornou ao gelo após dois anos. O texto diz ainda que, em fevereiro, ela conquistou o ouro olímpico, tornando-se a primeira americana da patinação artística feminina a vencer a prova desde 2002. A Wired também menciona que a relação entre Alysa e o pai foi retratada publicamente como complicada.
A reportagem amplia o caso ao inseri-lo no debate sobre repressão transnacional, prática denunciada por pesquisadores e defensores de direitos humanos para descrever ações de intimidação, monitoramento e pressão contra críticos de governos autoritários mesmo fora de seus países de origem. No caso de Arthur e Alysa Liu, a acusação apresentada é a de que a suposta operação não se limitou à vigilância pessoal, mas integrou um esforço mais amplo de assédio contra pessoas vistas como dissidentes pelo governo chinês.
O que mais a Wired relata sobre Frank Liu?
A matéria descreve Frank Liu, também identificado pelo nome chinês Liu Fan, como fundador da World Harmony Foundation, organização criada em 2005 em Nova York. Segundo a Wired, ele construiu relações com diplomatas e frequentou ambientes ligados à Organização das Nações Unidas, promovendo iniciativas em torno de um sino chamado Harmony Bell.
De acordo com a reportagem, Frank Liu chegou a aparecer ao lado de figuras públicas e diplomatas em eventos ao longo dos anos. A Wired também diz que, em entrevista concedida no ano passado, ele minimizou os próprios problemas judiciais. A revista reproduz a seguinte declaração:
“I don’t think it’s any big problem,” Frank said, “because we do so many good things for the United States.”
Até o trecho disponibilizado, a reportagem da Wired apresenta esse histórico para sustentar como um personagem com trânsito em círculos políticos e diplomáticos teria aparecido no centro de uma investigação sobre perseguição a dissidentes e monitoramento da família de Alysa Liu nos Estados Unidos.