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Cela onde ditadura simulou suicídio de Vladimir Herzog é descoberta por pesquisa

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Interior da cela do DOI-CODI, com paredes de alvenaria desgastadas e marcas de desgaste que remetem ao período militar.
Reprodução / agenciabrasil.ebc.com.br

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram a cela exata onde agentes da ditadura militar brasileira (1964-1985) forjaram o suicídio do jornalista Vladimir Herzog. O assassinato ocorreu em 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), o principal centro de repressão do regime na cidade de São Paulo. Herzog, que atuava como diretor de jornalismo da TV Cultura, havia se apresentado voluntariamente ao órgão para prestar depoimento. A descoberta histórica foi possível graças ao cruzamento de dados arquitetônicos, arqueológicos e laudos periciais da época.

De acordo com informações da Agência Brasil, o espaço fica no primeiro andar do prédio dos fundos do complexo localizado na Rua Tutóia, número 921, no bairro da Vila Mariana, zona sul da capital paulista, onde atualmente funciona a 36ª Delegacia de Polícia.

Como os pesquisadores descobriram o local exato?

A elucidação do cenário onde a fraude foi montada exigiu a análise minuciosa de evidências documentais e estruturais. O trabalho envolveu equipes de arqueologia forense, história e arquitetura. Os especialistas compararam fotografias antigas com a alvenaria que ainda resiste no local.

Os estudiosos encontraram elementos construtivos compatíveis com o ponto de fixação de um ferrolho que aparece nas imagens de 1975. Além disso, o padrão gráfico e a paginação dos tacos do piso coincidem perfeitamente com os registros da época da morte do jornalista.

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Localizar materialmente o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite demonstrar, com base em evidências científicas, a materialidade de fraudes cometidas por agentes do Estado.

A declaração é da doutora em história e pós-doutoranda da Unifesp, Deborah Neves. Segundo ela, a identificação materializa as mentiras oficiais construídas pelo Estado há 50 anos.

Qual foi o papel de outros laudos periciais na investigação?

A confirmação do espaço enfrentava um grande obstáculo: a descrição feita pelos peritos no caso do jornalista não correspondia aos elementos visíveis na famosa fotografia de seu corpo pendurado. O documento oficial afirmava que a janela do local era do modelo vitrô, enquanto a imagem mostrava claramente blocos de vidro.

A reviravolta na pesquisa ocorreu a partir da análise de outro caso de assassinato cometido no mesmo órgão de repressão. A pesquisadora encontrou pistas no livro que detalha a história do aparato militar, apontando para a morte do tenente da Polícia Militar José Ferreira de Almeida, militante do Partido Comunista Brasileiro.

O tenente foi morto dois meses antes do jornalista, e os militares também alegaram que ele havia tirado a própria vida. Os documentos revelaram informações cruciais para conectar os dois casos:

  • A posição do corpo do tenente era quase idêntica à posição em que o jornalista foi fotografado.
  • O laudo de José Ferreira de Almeida descrevia fielmente a cela, incluindo a presença dos blocos de vidro nas janelas.
  • Ambos os laudos periciais indicavam que os corpos foram achados na “cela especial número um”.
  • Fotografias externas da cela do tenente permitiram a comparação com a estrutura atual do edifício.

Por que a farsa montada pelos militares foi desmascarada?

A fotografia divulgada pelos agentes do Estado na época cometeu falhas evidentes de encenação. O jornalista era mais alto do que a janela onde a corda foi amarrada. Consequentemente, ele foi fotografado com os pés arrastando no chão e os joelhos dobrados, posição incompatível com o enforcamento mecânico.

Além da impossibilidade física na cena forjada, o corpo da vítima apresentava marcas severas de tortura. O registro fotográfico acabou tendo o efeito reverso ao pretendido pelo regime, pois deu visibilidade internacional à barbárie e às graves violações de direitos humanos cometidas contra opositores políticos no país, gerando uma comoção pública que se tornou um marco na luta pela redemocratização do Brasil.

A conclusão do estudo, que aponta para a sala no final do corredor do primeiro andar, só foi validada porque os pesquisadores identificaram detalhes mínimos. Na imagem do laudo, dobradiças apareciam do lado direito. O único espaço em todo o complexo policial que possui uma porta ao lado de um armário com dobradiças externas é justamente o ponto mapeado pela equipe acadêmica.

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