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Câncer tem taxas mais altas perto de grandes criadouros animais, aponta estudo

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Pessoas que vivem perto de grandes operações de confinamento animal em Califórnia, Texas e Iowa apresentaram taxas mais altas de câncer, segundo um estudo publicado na revista Environmental Research e relatado em 12 de abril de 2026. A análise foi conduzida por pesquisadores da Universidade Yale, que cruzaram mapas dessas instalações com dados de incidência da doença em nível de condado para avaliar possíveis associações entre a proximidade dos empreendimentos e os casos registrados. De acordo com informações da Inside Climate News, os autores afirmam que os resultados acendem um alerta de saúde pública, mas não comprovam relação causal.

O estudo se concentrou nos três estados por causa da disponibilidade de dados sobre câncer, da quantidade de operações de confinamento e da variedade de animais criados nesses locais. Os pesquisadores consideraram fatores como tipo de instalação, práticas de manejo e fiscalização regulatória. Ainda assim, destacaram que serão necessárias novas investigações para identificar se essas estruturas de fato contribuem para o desenvolvimento da doença e por quais mecanismos isso ocorreria.

O que o estudo identificou nos três estados analisados?

Segundo a pesquisa, todos os tipos de câncer apareceram em taxas 4% mais altas nos condados da Califórnia com maior exposição e 8% mais altas nos condados de Iowa e Texas com maior exposição, na comparação com áreas de menor densidade dessas operações. Os autores definiram como de “alta exposição” os condados que estavam entre os 25% com maior concentração dessas instalações em cada estado.

A análise também encontrou associações específicas entre a densidade das operações e alguns tipos de câncer. Na Califórnia, houve correlação maior com câncer de bexiga. Em Iowa, com câncer colorretal. No Texas, com câncer de pulmão e de brônquios. Os pesquisadores observam, porém, que nem todos os tipos de câncer seguiram o mesmo padrão. Em Iowa e Texas, por exemplo, o câncer de mama não apresentou correlação com alta concentração dessas unidades em regiões geográficas relativamente pequenas.

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Por que essas operações são alvo de preocupação sanitária?

As chamadas CAFOs, sigla em inglês para operações concentradas de alimentação animal, são grandes instalações agropecuárias industriais que reúnem muitos animais em espaços confinados para maximizar a produção de carne, leite ou ovos. O estudo cita uma série de poluentes emitidos por esses locais como possíveis fatores por trás das associações encontradas.

Entre os elementos mencionados pelos autores estão:

  • emissões gasosas, como amônia e sulfeto de hidrogênio;
  • material particulado;
  • compostos orgânicos voláteis;
  • bioaerossóis com endotoxinas e bactérias resistentes a antibióticos;
  • contaminação da água por nitrato a partir do manejo de esterco.

Os pesquisadores afirmam que a exposição crônica a esses poluentes já foi associada a inflamação, estresse oxidativo e imunossupressão, fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de câncer. Além do impacto sobre o ar, o estudo destaca que essas operações produzem grandes volumes de esterco, frequentemente distribuído como fertilizante, o que pode contaminar a água.

“There are many pathways through which CAFOs could impact cancer, including changes to air quality, water quality, noise, and odor,” Nicole Deziel, pesquisadora da Universidade Yale e coautora do artigo, disse à Inside Climate News.

Em outra avaliação reproduzida pela reportagem, Deziel afirmou que o estudo “raises important public health concerns given the consistency of findings” nos três estados. A diretora de pesquisa da organização Food & Water Watch, Amanda Claire Starbuck, classificou o trabalho como “groundbreaking” e disse que a relação entre CAFOs e câncer ainda recebeu pouca ênfase em pesquisas anteriores.

O estudo prova que essas operações causam câncer?

Não. Os próprios autores ressaltam que o trabalho não mediu a exposição individual de moradores aos contaminantes e, por isso, não estabelece causalidade. A pesquisa identificou associações estatísticas em nível de condado, o que significa que seus resultados servem como sinal de alerta e base para novas investigações, mas não como prova definitiva de causa e efeito.

A autora sênior do estudo, Michelle Bell, afirmou que novas pesquisas, incluindo testes em pessoas que vivem perto dessas operações, serão necessárias para entender como diferentes tipos de câncer podem ser afetados por fatores como qualidade do ar e da água nas áreas próximas.

Qual foi a reação do setor agropecuário?

Representantes da indústria contestaram as conclusões. Hannah Thompson-Weeman, presidente da Animal Agriculture Alliance, afirmou que o estudo não avaliou adequadamente fatores como medições reais de poluentes, duração da exposição, tamanho das instalações, manejo, emissões e outros elementos ligados ao risco de câncer, como exposição ocupacional, acesso à saúde e rastreamento, dieta, obesidade, consumo de álcool e diferenças regionais de risco basal.

Ela também declarou que gestores dessas operações precisam seguir regulações ambientais importantes. A reportagem menciona ainda que outro estudo, citado por representantes do setor, teria encontrado taxas menores para muitos tipos de câncer perto dessas instalações. O texto original, porém, não detalha essa pesquisa.

Os dados reunidos pela reportagem mostram a escala dessas operações nos estados analisados. Iowa aparece com o maior número de CAFOs do país, com estimativa federal de quase 4.000 unidades. A Califórnia ocupa a quinta posição, com cerca de 1.000, e o Texas a sexta, com número semelhante, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

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