O mercado de saneamento básico no Brasil atravessa, neste início de abril de 2026, um momento de retração e cautela no que diz respeito ao cronograma de novos leilões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Este cenário de indefinição, que afeta o planejamento de investidores e operadores do setor, é motivado pela convergência de fatores políticos e econômicos, com destaque para a influência do calendário eleitoral e o andamento de projetos estruturantes. De acordo com informações do Valor Econômico, a expectativa em torno da privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) é um dos principais eixos de atenção do mercado financeiro atualmente.
A Copasa, uma das maiores empresas do setor no país, deve passar por um processo de desestatização — projeto defendido pelo governador mineiro Romeu Zema (Novo) — conduzido por meio de uma oferta pública de ações na B3, a bolsa de valores brasileira. Essa modalidade de venda desperta o interesse de grandes fundos de investimento, mas também gera uma postura de espera, já que o volume de capital envolvido na operação pode drenar a liquidez que seria destinada a outros certames menores ou regionais no curto prazo.
Por que o calendário eleitoral impacta os leilões de saneamento?
O ano eleitoral de 2026 exerce uma pressão natural sobre a agenda de infraestrutura brasileira. Durante este período de eleições gerais (para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais), as administrações públicas enfrentam restrições impostas pela Lei Eleitoral e limitações orçamentárias que dificultam a assinatura de contratos de longo prazo, como as concessões e as PPPs. Além disso, a alternância de poder ou a continuidade de gestões influenciam diretamente a modelagem dos projetos, levando muitos entes federativos a optarem pelo adiamento de leilões previstos para o segundo semestre.
Especialistas apontam que a instabilidade política local pode resultar em alterações nas prioridades de investimento. Projetos que estavam em fase avançada de modelagem podem ser revistos para se adequarem às novas diretrizes políticas, o que estende os prazos de execução. O setor de saneamento, que exige segurança jurídica elevada devido ao alto volume de capital necessário para a universalização dos serviços, acaba sendo um dos mais sensíveis a essas flutuações de calendário.
Qual o papel da Copasa no cenário de investimentos do setor?
A privatização da Copasa é vista como um divisor de águas para o setor de saneamento em Minas Gerais. O governo mineiro optou pelo modelo de corporation (corporação), em que o controle estatal é diluído no mercado de capitais, de forma similar ao que foi realizado com outras grandes empresas de infraestrutura brasileiras, como a Eletrobras e a Sabesp. Esse movimento é acompanhado de perto por analistas, pois o sucesso da oferta de ações servirá como um termômetro para o apetite dos investidores estrangeiros por ativos no Brasil.
Enquanto o processo da companhia mineira não é concluído, outros projetos menores podem enfrentar dificuldades para atrair consórcios robustos. A concentração de esforços na Copasa reflete a estratégia do mercado em priorizar ativos com maior escala e potencial de rentabilidade. Contudo, essa priorização gera um vácuo no calendário de leilões de menor porte, que são essenciais para que estados e municípios atinjam as metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento, sancionado em 2020.
Quais são os principais desafios para as parcerias público-privadas?
Além das questões políticas, as PPPs enfrentam desafios técnicos e de estruturação financeira. Muitos projetos apresentam inconsistências em relação às taxas de retorno ou aos modelos de regulação tarifária, o que demanda revisões por parte de órgãos como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A complexidade na elaboração de editais que atendam às exigências ambientais e sociais também contribui para o represamento das ofertas no mercado.
O setor aguarda uma normalização do fluxo de leilões a partir da estabilização do cenário político e do desfecho de grandes privatizações. A meta de universalização do saneamento até 2033 — prazo limite para que 99% da população tenha acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto — continua a ser o norteador das políticas públicas, mas o ritmo atual demonstra que o cumprimento desse prazo dependerá de uma aceleração significativa nos investimentos privados e de uma maior previsibilidade institucional nos próximos anos.


