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Bois-almiscarados no Canadá sofrem com doenças inéditas e mudanças climáticas

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O boi-almiscarado, espécie emblemática do Arquipélago Ártico Canadense, enfrenta uma grave ameaça de sobrevivência devido ao surgimento de doenças inéditas e aos impactos das mudanças climáticas. Desde 2009, surtos mortais têm reduzido drasticamente as populações desses animais em diversas ilhas da região polar, afetando diretamente a segurança alimentar das comunidades Inuit locais e desafiando cientistas que monitoram o delicado colapso ecológico no extremo norte do planeta — um fenômeno de interesse global, já que as alterações no clima ártico afetam as correntes oceânicas e podem impactar os regimes de chuvas na América do Sul, influenciando diretamente o clima e a agricultura no Brasil.

De acordo com uma reportagem divulgada em abril de 2026 pela Mongabay Global, o patógeno emergente conhecido como clone ártico da Erysipelothrix rhusiopathiae foi diretamente associado a mortes em massa de rebanhos nas ilhas Victoria e Banks. Somente na Ilha Banks, a população da espécie despencou de 37 mil animais em 2010 para menos de 14 mil em 2014, logo após o surto inicial e avassalador da doença.

Quais são as principais doenças que atingem os rebanhos no Ártico?

Além da letal Erysipelothrix rhusiopathiae, que atinge os animais de forma fulminante durante os meses de verão, uma segunda doença gera um forte alerta entre os especialistas. A brucelose, uma enfermidade zoonótica transmissível, também começou a aparecer nos bois-almiscarados da Ilha Victoria e em partes do continente. Segundo os levantamentos que culminaram nas publicações mais recentes, essas taxas de infecção vêm crescendo de forma preocupante desde o ano de 2015 até os dias atuais.

O monitoramento contínuo dessas ameaças invisíveis é realizado por meio de um programa inovador de vigilância sanitária da vida selvagem. Este sistema colaborativo reúne esforços essenciais de:

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  • Caçadores e armadilheiros tradicionais da comunidade Inuit;
  • Cientistas de instituições renomadas como a Universidade de Calgary e a Universidade de Glasgow;
  • Agências governamentais ambientais do território de Nunavut.

O trabalho em conjunto no território canadense permitiu preencher grandes lacunas de dados em uma região extremamente remota, onde o rastreamento convencional da saúde animal é quase impossível. Os caçadores coletam amostras de sangue e tecidos durante os abates tradicionais, fornecendo material valioso e fundamental para a análise laboratorial detalhada dos cientistas.

Como o conhecimento tradicional auxilia a pesquisa científica?

As comunidades indígenas dependem estritamente do boi-almiscarado (Ovibos moschatus) para manter sua rica cultura e garantir a própria segurança alimentar, especialmente após o severo declínio das populações de caribus no final da década de noventa. Allen Niptanatiak, líder comunitário e presidente da Organização de Caçadores e Armadilheiros de Kugluktuk, explica a importância histórica da gestão animal sustentável.

Nossos anciãos sempre diziam: “Cuide da sua cesta de alimentos”. Cuide bem dela, mantenha-a bem. E isso sempre ficou comigo.

A união e colaboração direta com o conhecimento tradicional e milenar dos povos originários criou um verdadeiro sistema de alerta precoce no Ártico. Susan Kutz, pesquisadora especializada da Universidade de Calgary, destaca que as longas entrevistas com os caçadores nativos foram o pilar fundamental para mapear o primeiro grande surto letal. Segundo a cientista, se a equipe acadêmica não tivesse ouvido os relatos minuciosos e detalhados dos moradores sobre onde e quando os animais morreram em um período de seis anos, os biólogos apenas notariam o dramático vazio populacional de forma tardia, sem entender as reais causas exatas da extinção local.

Quais foram as descobertas recentes sobre o patógeno emergente?

A perigosa bactéria Erysipelothrix rhusiopathiae já era mundialmente conhecida por afetar aves e suínos comerciais, mas nunca havia sido registrada ou documentada no rebanho selvagem ártico. Taya Forde, investigadora da Universidade de Glasgow, analisou filogeneticamente a cepa letal e descobriu tratar-se de um clone único e de altíssima velocidade de disseminação territorial. A total falta de diversidade genética encontrada na bactéria indicou aos pesquisadores que a ameaça era extremamente recente e invasora no gélido ecossistema polar.

Em agosto de 2021, a doença implacável ressurgiu de forma repentina e avassaladora na Ilha de Ellesmere, um território gélido e inóspito localizado a 1 mil quilômetros a leste da Ilha Victoria, geograficamente próximo à Groenlândia. Uma experiente equipe de documentaristas de vida selvagem registrou com surpresa dezenas de carcaças espalhadas no local ao longo de apenas duas semanas. O cenário trágico era praticamente idêntico ao observado dez anos antes: animais robustos de todas as idades, que aparentavam estar plenamente saudáveis, morrendo subitamente de forma inexplicável durante o aquecido período de verão.

Ao longo dos quatro verões seguintes após a descoberta, dezenas de pesquisadores trabalharam em intensa parceria com o governo territorial de Nunavut para realizar a complexa amostragem biológica de carcaças nas remotas ilhas de Ellesmere e Axel Heiberg. O diligente grupo de campo coletou órgãos internos afetados, fragmentos ósseos variados e amostras específicas de solo congelado na complexa tentativa de rastrear a fonte primária e exata da bactéria. O principal objetivo atual é compreender a fundo os complexos mecanismos de transmissão biológica que continuam a ameaçar ativamente a rica biodiversidade da sensível região canadense, agravados pelo aquecimento global.

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